Sebastião Nunes lança livro de crônicas

Intrépido escritor e artista genial, aos 78 anos, Sebastião Nunes mantém sua criatividade a mil e diz que ainda tem "muita briga para comprar na vida"

por Pablo Pires Fernandes 30/06/2017 10:26
Túlio Santos/EM/D.A PRESS
(foto: Túlio Santos/EM/D.A PRESS)

Não houve pompa, foi uma colação de grau simples, na secretaria da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Era 1968 e, assim, o tímido e magérrimo Sebastião Nunes se tornava doutor. Só que nunca exerceu a profissão.

Ele estava atarefado naquele dia de 2004. Com Maria Zélia, sua mulher, saiu de Sabará com muita coisa para resolver na capital. Entre lojas e bancos, foi até a Avenida Álvares Cabral e subiu no prédio em que há muito não pisava. Na secretaria, a moça, incrédula, lhe perguntou: “Você quer um diploma de 1968?”.

Diante da afirmativa, ela continuou: “E você recebeu alguma coisa na época?” Diante da negativa, ela soltou um “’tá danado” e, com boa vontade, lhe questionou se era capaz de reconhecer a própria assinatura. “Acho que sim”, respondeu-lhe o senhor de 65 anos chamado Sebastião Nunes. “E eu, com a maior dificuldade, reconheci a minha assinatura. Ela aceitou.” O procedimento foi padrão, pagamento da taxa, envio para o Ministério da Educação e, em seis meses, apresentaria o protocolo e ele poderia obter o diploma de bacharel em direito.

Como é douto em outras artes, aquele protocolo, cobiçado pelas filhas e filhos das mais tradicionais famílias mineiras, desapareceu no murundum de papéis, livros, apostilas e anais científicos que coabitam o sobrado sabarense com um vira-lata, Mujica, e dois fox paulistinhas, Digo e Puka, além do casal, obviamente.


Há pouco mais de um mês, Sebastião Nunes encontrou um pedaço de papel. Era o protocolo. “Parecia um pergaminho do Mar Morto”, falou, com a típica autoironia expressa em um sorriso discreto. Mais uma vez, voltou à nobre escola e, dirigindo-se ao jovem no guichê da secretaria: “Preciso que você faça um pequeno milagre para mim”. Diante da dúvida, Sebastião explicou a raridade do caso. “Ele foi lá dentro, ficou quase meia hora e voltou com o diploma”, relata, ainda um tanto incrédulo ao ver, em suas mãos, o título com seu próprio nome, quase 50 anos depois de concluir o curso.

Se estivessem vivos hoje, os pais de Sebastião estariam orgulhosos em ver o diploma do filho mais velho. É provável também que se orgulhassem do caminho que este senhor de 78 anos e ainda magro resolveu traçar. Sebastião Nunes tornou-se várias coisas e foi publicitário, pintor, fotógrafo amador, cronista, poeta, escritor, enfim, um criador, um artista.

Pouco conhecido, sua obra tem mais de 20 títulos, a maior parte de um gênero inclassificável. “A expressão mais próxima que alguém conseguiu foi literatura intersemiótica porque pega texto, ilustração, recursos gráficos, mas não tem música, não é dinâmica, então prefiro usar poesia híbrida, que mistura um monte de recursos, mas não se define como uma proposta literária de forma. É uma coisa sofisticada, faço supressão de palavra, misturo textos com imagem, aquela coisa que não é para o leitor comum.”

Sarcástico, usa e abusa do humor para debochar de personagens da história do país, da classe média e de todas as mazelas brasileiras. Sem pudor ou papas na língua, escracha os donos do poder com virulência anarquista, usa palavrões para dar nome aos bois, afinal, é como o povo tem lidado, historicamente, para se referir a quase toda a classe política do país. Mas sua ironia é fina e sofisticada como poucas. Um dos grandes criadores da literatura nacional, sem dúvida, mantém sua discrição, embora sua verve produtiva esteja longe de aquietar. 

Agora, Sebastião Nunes lança a coletânea de crônicas Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo, pela sua cooperativa Edições Dubolsinho. O novo livro, com prefácio do poeta e jornalista Fabrício Marques, traz 35 textos publicados no site Jornal GGN. São encontros imaginários em que realidade e ficção se entrelaçam para criar situações e diálogos memoráveis. Assim, temos Pedro Nava tomando cachaça com Noel Rosa, Lênin conversando com o poeta dadaísta Tristan Tzara, Che Guevara com Hemingway. Tempo e espaço não importam, importa, sim, a boa leitura e a excelente literatura que brota das invencionices deste moleque, que é doutíssimo.

COMEÇA A ENVELHECER A MULHER MAIS BELA DO MUNDO
De Sebastião Nunes
Edições Dubolsinho
176 páginas
Pedidos para editora@dubolsinho.com.br
 
 
BOCAIÚVA
Em Bocaiuva, a família era pai, mãe e cinco irmãos, todos homens – a mãe lamentava, não teve uma filha para lhe ajudar. “Não tinha água encanada, a gente pegava água lá da cisterna”, conta sobre sua cidade natal nos anos 1940. Em Bocaiuva, no Norte de Minas, as luzes se apagavam às 22h. Geladeira era só de querosene, televisão não havia e uma ou outra casa tinha rádio. “Era uma vida meio precária, mas a gente não sentia muito na época. Era uma vida muito, muito simples. No sentido de pouquíssimas coisas.”

“Ficava na rua o tempo todo, aqueles prazeres de moleque: jogando bola, pescando, brincando de estilingue, de pegador até 10 horas da noite. Às vezes, a luz apagava e a gente não ia pra casa, a gente ficava escondido. Era uma vida bem roceira, bem provinciana, de interior, de cidade pequena. Hoje tem televisão, tem internet, tem tudo. Jornal, o meu pai assinava o Estado de Minas, que chegava lá dois dias depois, de trem. Quem tinha rádio tinha acesso às notícias. Meu pai ficava no balcão da lojinha e chegava em casa com as notícias.”

BÁRBARA BELA
Mas Tião não cabia em Bocaiuva, era curioso demais, embora seja até possível que tenha sido lá mesmo o que lhe provocou os primeiros lampejos em direção à literatura. É fato que, aos 9 anos, a professora viu-se obrigada a colocá-lo de castigo diante de tanta molecagem. “Tive que decorar aquele poema Bárbara bela, do Alvarenga Peixoto. Até hoje sei umas partes. Fiquei encantado com o poema e passei a ler muito.” Aos 11 anos, saiu de casa.

“Aí, meu pai me perguntou – e foi uma das coisas que eu gostei, da coragem dele, uma coragem um pouco medrosa: ‘Tião, você quer continuar estudando ou você quer parar?’. Isso não é uma pergunta normal de pai fazer para filho. Eu sonhava com a escola como uns castelos góticos, uns castelos enormes, de coisas diferentes, de arranha-céu, imaginava aquela coisa monstruosa. Eu disse: ‘Quero continuar’. Aí ele me levou para uma escola lá em Montes Claros e me internou num colégio diocesano. Fiquei com o coração apertado e imagino que ele também.” 

BIBLIOTECA
Depois de passar na prova de admissão, ficou quatro anos na cidade, na casa de parentes, em pensão e hotel. “Moleque, eu nunca fui de estudar.” Sem dinheiro, matava o tempo jogando bola à tarde e, à noite, ia ler na Biblioteca Municipal. “Lá tinha uma coleção chamada Tesouro da juventude. Eu li toda a parte de ficção daquela coleção e muito da química e da física, porque eu gostava muito de ciência e história também. Era um leitor voraz, toda noite praticamente eu estava lá.” Uns anos depois, Montes Claros também se tornou pequena demais para Tião.

“Terminei o ginásio e passei um ano em Bocaiuva sem saber o que fazer. Eu mesmo não estava muito seguro sobre o que ia fazer da vida. Se eu tivesse ficado lá, teria virado um comerciante, um funcionário público. Aí, uma tia me resolveu me levar para Belo Horizonte e fui estudar no Colégio Marconi. Isso eu tinha entre 14 e 15 anos e, de novo, vivia uma vida miserável, sempre duro. Ia para a biblioteca pegar livros todo dia de tarde. Passava a tarde inteirinha lendo, mas, estudar, necas.” 

A ESCRITA
Aos 15 anos, passava férias em Bocaiuva e ainda jogava bola, pescava e tentava arrumar alguma namorada, mas não levava jeito, pois “era tímido como uma borboleta”, ele reconhece. Foi nesta época que decidiu ser escritor. Completou o científico e passou um ano na terra natal, “vagabundando e escrevendo”. Sua primeira aventura na escrita foi um romance à moda de Caetés, de Graciliano Ramos. Escreveu umas 30 páginas, que, mais tarde, foram parar no lixo. “Nesta altura não dava, né?”, diz, sobre a imaturidade. E, decidido, retornou à capital.

“Em Bocaiuva, você só podia ser padre, médico ou engenheiro, só, mais nada. Não tinha muito o que escolher. Escritor era uma vida aventurosa, era naquela época, hoje deixou de ser. Então passei a adolescência toda nessa rotina, lia dois três livros por semana, às vezes lia um livro por dia. Fiz vestibular para medicina, por causa de uma tia. Meu pai queria que eu fosse juiz, nem era advogado, era juiz já direto. Só que eu pegava um livro de biologia para ler e botava um livro de ficção lá no meio e ficava lendo a ficção. Quem disse que eu ia estudar? Levei quatro paus na medicina. Fazia na Universidade Federal e na Faculdade de Ciências Médicas, mas não tinha jeito de eu estudar física e química. Literatura, tudo bem, mas não adiantava porque física e química não tinha jeito. E hoje eu gosto muito, mas naquela época não tinha jeito.”

INFLUÊNCIAS
A compulsão do jovem do interior para a leitura foi lhe abrindo caminhos. A Belo Horizonte do início dos anos 1960 também tinha seu charme e a curiosidade se expandia para outras áreas. “Não foi só literatura. Eu adorava cinema, teatro, artes plásticas e fotografia também”, conta, fazendo a ressalva que música não era sua praia, embora fosse “excelente cantor de banheiro” e ouvisse música desde criança. Estudava línguas – latim, espanhol, inglês, algum francês –, pintava.

“Numa página de meu livro Finis operis fiz uma lista de influências que considero válida até hoje. Pela ordem em que aparecem lá: Augusto dos Anjos, Borges, Buñuel, Camus, Clarice Lispector, Décio Pignatari, Fernando Pessoa, Godard, Graciliano, Gregório de Matos, Joyce, Kafka, Millôr, Rimbaud, Van Gogh. Isso foi quando eu estava no meio do caminho da minha vida (mais ou menos 35 anos, conforme sugeriu Dante), de modo que não me atrevo hoje a mexer nela, embora pudesse acrescentar uma meia dúzia de outros.”

PUBLICIDADE
Foi com certa naturalidade que, diante de um anúncio de jornal, decidiu tentar o vestibular para publicidade na então Universidade Mineira de Arte, atual Fundação Mineira de Arte (Fuma/UEMG). Ele foi aprovado, assim como todos os candidatos que prestaram o exame. A incipiente escola tinha poucos homens e era dominada por mulheres. Mas a lógica machista imperava e, apesar da timidez e dos seus 19 anos, foi eleito para comandar o diretório acadêmico e, já no segundo ano, convidado por um professor para trabalhar numa agência.

“Com uma semana na agência, descobri que tinha aprendido mais do que em um ano e meio na faculdade e larguei a faculdade. Eu era desenhista, fui contratado como finalista. Fiquei um ano e alguma coisa como finalista. Passava a noite desenhando, fui tipógrafo, ficava compondo no porãozinho da agência. E publicidade naquela época era muito interessante porque não tinha profissional de publicidade. Não tinha escola. Todos eram aspirantes a alguma coisa fora dali e colegas meus da agência já eram outras coisas. O Álvaro Apocalipse, por exemplo, que era pintor, desenhista e já era professor na Belas-Artes da UFMG, a Teresinha, mulher dele, também trabalhou na agência, o Jarbas Juarez (artista plástico). Então vários profissionais trabalhavam lá como meio de vida, pretendentes a alguma outra coisa, mas passaram por lá. Era um time muito bom.”

CONCURSO
Nesse início dos anos 1960, Tião fazia um pouco de tudo na agência e mantinha guardados os contos que escrevia. Trocou de patrão, mas seguiu na publicidade, criando anúncios, agora como redator. Ainda nesse emprego, inscreveu-se em um concurso de crônicas da Drogaria Araújo. “Eram uns 10 mil concorrentes”, conta o vencedor com certa satisfação. “Aí, fiquei importante, fui na televisão receber o prêmio, literatura ainda é uma coisa importante. E ganhei 10 mil alguma coisa, que deu pra comprar um rádio grande.” A vida era divertida. Com o que ganhava na agência, pagava a pensão na Rua São Paulo e torrava o resto em molecagem e nos botecos da Rua Tupis. A mãe percebia e, preocupada, lhe aconselhava: “Ou você estuda ou junta dinheiro”. Tião teve que refletir e concluiu: “Juntar dinheiro eu não vou. Então, em 1964, fiz vestibular para direito e passei”.

Eu tinha uns raros amigos de tomar uma no sábado, o resto do tempo eu ficava sozinho. Era difícil namorar – tinha uma namorada ou outra esporádica, mas era difícil. Eu ficava basicamente lendo e escrevendo. E, depois daquele concurso de crônica, eu fiquei mais animado. Achei que o conto era a coisa que eu tinha aptidão e comecei a escrever contos. Tinha minha maquininha lá: tác-tác-tác. Então eu tinha nove contos e pensei: aqui dá um livro. Mas, chegava no nono e achava que estava bom. Relia o primeiro e achava que estava ruim, reescrevia. Isso virou uma coisa sem fim. Mandei um cartum para a revista Senhor e um conto para o Estadão. Era março de 1964 e eles publicaram no mesmo mês. Só que eu já estava de saco cheio de conto. E, na Faculdade de Direito, apareceu um concurso de conto e poesia. E eu resolvi entrar no concurso. Nunca tinha escrito poesia na minha vida, nada, nem para as namoradinhas, mas eu lia poesia (não tanto quanto ficção, mas lia bastante). Então resolvi escrever um poema e fiz, que, na verdade, era uma colcha de retalhos, tinha João Cabral, Drummond, Mauro Mota. Mandei os dois e ganhei os dois, o conto e o poema. Foi 1966. E me deixou bestificado. Não só eu, mas o pessoal todo da Faculdade de Direito. 

SUPLEMENTO
Depois de vencer o concurso, a turma de escritores da faculdade – Humberto Werneck, Sérgio Sant’Anna e outros – passa a olhá-lo com mais respeito. Ficaram amigos. Tião diz que, de certa forma, ele pagou seu ingresso na turma. E a turma girava pelo Centro, entre a Faculdade de Direito, a Cantina do Lucas, no Edifício Maletta, para onde ele tinha se mudado, e o Suplemento Literário de Minas Gerais, recém-fundado pelo mestre Murilo Rubião. As molecagens eram muitas, “porque o Murilo deixava fazer o que a gente quisesse”. Tião se lembra que, nesta época, gostava de ir aos lançamentos de livros, que eram chiques então. “Eu ia basicamente porque eu gostava de pisar nas saias das mulheres de longo, distraidamente. A gente se divertia”, lembra-se, com um riso brincalhão.

“A gente era um monte de moleques metidos a besta. A gente tinha uma turminha e sentava no Maletta, era basicamente eu, o Sérgio Sant’Anna, o Milton Gontijo, o Carlos Alberto Ratton, o Henri Corrêa de Araújo, o Adão Ventura e tinha o o Moacyr Laterza, que ficava numa mesa lá no canto. E a gente ficava ali. O Sérgio, de hora em hora, ligava para casa para avisar que não ia jantar. Aí levantava e ligava para a Marise: Ó, vou demorar mais um pouco. O Sérgio só bebia uísque, Old Eight, e a gente na cerveja. E eu duro porque nesta época eu estava desempregado. E tinha uma agenciazinha vagabunda. E quando eu e o Sérgio ficávamos sozinhos, a gente ficava fazendo peças de teatro, completamente absurdas. E a gente falava: ‘Vamos encenar isso? Vamos’. Fizemos várias peças, na mesa do boteco. Criamos as peças, mas nunca escrevemos nenhuma delas. Uma vez, fomos eu o Ratton e o Sérgio a uma exposição no Teatro Marília, nesta época. E tinha uma exposição chique lá, era um acervo, veio não sei de onde. Sei que eu peguei um quadro de um figurão lá na parede, um Pancetti, um Guignard, não sei de quem, mas eu peguei aquele quadro e saí com um dos dois – eles até hoje discutem quem estava comigo, nem eles sabem – e com o quadro. Tentei vender no Maletta por R$ 10 ou 10 qualquer coisa da época, para tomar cerveja porque eu estava duro. E ninguém quis comprar o quadro. O que vamos fazer? Voltei e coloquei o quadro no lugar. 

A CONVERGÊNCIA
Depois de bater cabeça com ficção e os contos que não parava de reescrever, Tião se aventurava pela pintura e foi realizar uma exposição na Livraria do Estudante, onde trabalhava. Afinal, era uma maneira de sair da penúria e parar de filar cerveja e cigarros dos amigos. Misturava cola de borracha, tinta, guache, lápis, caneta e criava colagens com recortes de fotografias. Tudo isso servia de composição para os quadro-cartazes com poesias impressas na parte inferior. “Vendi todos os quadros, era muito barato. O problema era que os quadros que o pessoal levou para casa derreteram todos no calor, a pintura não se sustentou e caiu por cima do poema.” Também foi nesta época que Humberto Werneck lhe advertiu que as tais colchas de retalho que escrevia eram demasiadamente parecidas com a poesia de João Cabral de Melo Neto. “Levei um choque, porque nunca tinha notado. E fui reler e era João Cabral puro, ele poderia ter assinado. Era um pastiche do João Cabral. Aí, comecei a policiar mais o que escrevia e tentar um caminho meu.” A experiência adquirida com a publicidade, quando teve contato com diversas técnicas, lhe serviu para achar seu rumo poético. Tião germinava seu estilo até que tudo convergiu.

“Na verdade, mudei para a poesia numa noite, em 1967 ou 1968. Um dos colegas de república tinha levado uma mulher para lá e comprado uma garrafa de uísque, daqueles bem vagabundos, e deixou mais da metade da garrafa lá. E eu estava sozinho de noite, deitei na sala e resolvi montar um poema. Era texto, montado com letra 7, ilustração, fotografia, recortes de imagens fotográficas e rabiscos de desenhos meus em cima. Foi o meu primeiro poema que deu certo. Nem sei qual poema era esse, se foi publicado nem onde ele está. Quando acordei, porque dormi no chão, ao lado do poema, acordei bêbado feito uma vaca e disse: meu caminho é esse aqui, é isso que vou fazer. Estava lá. Era uma mistura de texto, desenho, e fotografia, coisa que fui fazer o resto da vida.” 

SUBSCRIÇÃO
De rumo definido, o agora poeta publicava no Suplemento Literário, às vezes com erros ortográficos e tudo, mas publicava, pois Rubião gostava e incentivava seus “meninos”. Juntou os poemas e criou um pequeno caderno com 16 folhas e 16 poemas. Aproveitando-se do excelente mailing do SLMG, enviou seu primeiro livro para intelectuais, escritores e jornalistas do país todo. Recebeu elogios e alguns comentários indignados. “Estava pronto o meu caminho. Daí para a frente, foi mais fácil.” Foi também nesta época que o escritor deu início ao processo de subscrição, hoje tão comum e rebatizado de crowdfunding ou financiamento coletivo. Tião era visionário.

“Ninguém publicava. Todo mundo se bancava. Poesia não se vende. Ainda mais uma poesia louca, né? que nadava contra a corrente. E eu sempre gostei da ideia de editar, desde que era moleque e mexia com as coisas de tipografia, pensava em editar com mimeógrafo, em princípio, depois com impressora mesmo. Isso era muito comum. Em 1970, fiz um livro mais profissional e mais bem-acabado, A cidade de Deus. Foi quando comecei o processo de subscrição do meu trabalho. Mandei carta para todos os caras e recebi 75 respostas de interesse, antes de publicar o trabalho. Os caras pagando para ver. Quando ficou pronto, mandei para todos os 400, com mais uma cartinha pedindo dinheiro, e mais uns 70 mandaram. Então, foram mais ou menos umas 150 contribuições que deram para pagar o livro. Sempre que eu não tinha dinheiro, eu usava isso.” 

REINVENÇÃO
Entre 1973 e 1978, Tião foi se aventurar no Rio de Janeiro. Sustentava-se com o trabalho em publicidade, sem deixar de fazer suas poesias, que ele bancava. Publicou três livros: Finis operis (1973), Zovos (1977), O suicídio do ator (1978). A publicidade, porém, não era realmente o que ele queria. “Eu estava puto com a agência e, quando eles não me aguentaram e me mandaram embora, passei um mês num povoado perto de Cataguases, chamado Sereno, na Zona da Mata. Um tanto desencantado com a poesia e a dificuldade de editar, resolveu criar algo completamente inédito: Somos todos assassinos.

“O problema da poesia, e na literatura no Brasil de um modo geral, é que não tem leitor, é um país ignorante, de quase 75% de analfabetos funcionais, o cara mal sabe assinar o nome. Sobram uns 25% que não lêem nada, e tem uns 5% ou 10% que lêem. Ainda mais poesia, poesia tem 1%, se tiver, deve ter 0,1%. Então, você fazer uma poesia satírica, tudo bem. Aí, às vezes, você faz uma poesia política também. Tem umas coisas que dão certo porque repercutem. Mas, em 1980, depois de escrever bastante poesia, eu resolvi escrever um livro de prosa, que, na verdade, também tem o esquema de ilustração, imagem e texto, o Somos todos assassinos, que é um livro sobre publicidade, são anúncios. Em um mês, fiz os textos e os layouts básicos. E, mais um ano montei ele todo. A partir da primeira edição desse livro, eu disse: vou arrebentar. Achei que esse livro fosse estourar, e não aconteceu nada. Fiz 3 mil exemplares. E cheguei a ser da lista dos mais vendidos do Estado de Minas. Foi só, porque no Brasil, fora daqui, repercutiu pouco porque não tinha nada parecido. O cara que faz uma literatura mais parecida com a minha no Brasil é o Valêncio Xavier, que estava quase morto quando a Companhia das Letras publicou O mez da grippe e outros livros. E também não aconteceu nada. 

PALAVRÃO
Desde jovem, Tião se encantou com os dadaístas. As colagens, os jogos de palavras, o aleatório, o escatológico, todos esses elementos estão presentes em sua obra. E uma delas, sobretudo, ele faz questão de defender: o uso do palavrão. “Sempre gostei muito de palavrão, como quase todo mundo.”

Meu pai ficava lá na loja e gritava: “Ô compadre cachorro”, pro cara lá do outro lado da rua. E o outro: “Ô, seu filho da puta”. É a linguagem coloquial brincalhona brasileira, todo mundo usa isso. É carinhoso. O palavrão sempre foi uma coisa da linguagem comum, popular, cotidiana, todos falam. No boteco que tinha aqui do lado, as mulheres viravam e falavam: “Ô nego sem-vergonha, você não vai num-sei-quê com as suas negas lá. Eles estão brincando um com o outro, mostrando que são amigos um do outro e têm o direito de dizer. Isso, no politicamente correto, é um desastre, mas se você pegar o carinho que tem nessa linguagem, é isso. Não tem nada melhor do que um palavrão bem colocado. Na televisão, as pessoas se recusam a usar palavrão. As pessoas quebram o pau numa novela aí, ah, blá, blá, blá, e não tem ‘um merda’, ou ‘um vai tomar no cu’, ou ‘caralho’, ou ‘filho da puta’, não tem. Porque que não tem se isso faz parte da língua popular? Todo mundo fala isso. Todo dia o tempo todo. Então, sempre coloquei palavrão nos meus livros.


DEPOIMENTOS

"É sempre com incontida alegria que penso em Sebastião Nunes, exemplo, para mim, de radicalidade estética, posicionamento ético diante da realidade brasileira, sensibilidade intersemiótica, erudição não pedante e capacidade dialógica – principalmente quando comparado à maior parte dos poetas, escritores e artistas nossos. Desde a adolescência leio e releio a obra do Tião seguro de que se trata de um dos projetos mais instigantes e bem realizados dentre todos os que surgiram na trilha aberta pelas vanguardas da década de 1950. Já disse em diferentes ocasiões que muito do pouco que fiz até agora, em poesia/arte, só foi possível porque tive a sorte de contar com esse gigante gentil (apesar da fama de bravo que o acompanha) como inspirador, interlocutor, incentivador, mestre, amigo e até como parceiro – baste, aqui, a lembrança da performance Mapeamento poético do cérebro inclâmico, nos idos de 2003, quando dividimos o palco do Centro de Cultura Belo Horizonte, localizado no prédio que hoje abriga o Museu da Moda, na esquina de Bahia com Augusto de Lima. Mais relevante do que 90% do que o mercado despeja todos os anos sobre a cabeça dos incautos, cada mínimo espaço gráfico imaginado pela mente brilhante e inquieta de Sebastião Nunes materializa um modo único de ler o Brasil e o mundo. Tião é único, primeiro sem segundo. Torço para que aumente o número dos que conhecem e amam sua arte superior."

Ricardo Aleixo é poeta e artista/pesquisador intermídia. Autor de nove livros, tem, no prelo, o inédito Antiboi (Ed. Crisálida).

"Conheço relativamente bem, e lá se vão umas quatro décadas, meu amigo, compadre, conselheiro, poeta, editor e artista Sebastião Geraldo Nunes. Durante muitos anos, dominou a poesia, fosse ela gráfica, escrita, visual ou lúdica, considerou sua expressão em versos ou em que forma lhe aprouvesse encerrada tempos atrás, sem, no entanto, evitar que ela nele permanecesse entranhada e se manifestasse lírica, cruel, indignada, cotidiana, engraçada e até didática, mas sempre criativa, em seus textos, pois é sua essência, queira ou não. Praticou a poesia formal, visual, visceral, rimada como esta frase ou estilhaçada na busca do cerne essencial, até que resolveu que a esgotara. Foi um publicitário que rejeitou a propaganda a ponto de desancá-la em dois livros definitivos, Somos todos assassinos e Sacanagem pura. Mas continua provocador da estética, poeta maldito e pai de duas safras de filhos, sendo que a primeira lhe deu Felipe, Flávia e Juliana, e, a segunda, Teresa e Alice. É um colecionador de personas com Bastunes Ião, Senião Bastunes, Sebunes Nastião e muitos outros, até mesmo Sebastião Nuvens, que é o nome que lhe deu sua santa esposa Zelinha quando o viu se dedicar à literatura infantil."

Jaime Prado Gouvêa é escritor, autor de O altar das montanhas de Minas (Siciliano) e diretor do Suplemento Literário de MG.
 
 

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