Livro 'A lição do amigo' reúne 91 cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade

Telegramas encantam pela profusão de temas, pelo linguajar e, sobretudo, pela paixão pela vida

por Ângela Faria 31/07/2015 10:00

Mário de Andrade é uma delícia. Ler as cartas que o guru do modernismo enviou a Carlos Drummond de Andrade por 20 anos – de 1924 ao início de 1945, ano de sua morte – chega a ter gosto de domingo, o dia preferido de Mário para lançar seus “torpedos de pontaria infalível”, como dizia o poeta de Itabira.


“Você sabe quanto estou ao dispor de você”, escreveu ele, intelectual respeitado, ao tímido rapazinho frequentador das rodas intelectuais da Rua da Bahia no início da década de 1920, ainda longe de se tornar ícone da literatura brasileira. Noventa anos depois, tais palavras parecem se dirigir a nós, felizes “voyeurs” das 437 páginas de A lição do amigo (Companhia das Letras), que reúne 91 cartas, telegramas e bilhetes que Drummond recebeu de Mário.


Assim como o jovem poeta de Itabira, temos ao nosso dispor um mestre gente boa, que solta seus palavrões, exalta a paixão pela vida, sofre o diabo para fechar as contas do mês. O homem, realmente, é “300, 350” – fala tanto do tricô encomendado para a filhinha recém-nascida de Carlos, dá-lhe conselhos sobre o casamento com Dolores, pede livros sobre Aleijadinho, encomenda informações preciosas sobre joias barrocas de Ouro Preto e desabafa sobre decepções políticas. Alegre, tem lá suas depressões.
Mário sabia encantar. Aliás, sabe até hoje, nesses nossos tempos em que o e-mail roubou aquela agonia gostosa de esperar o carteiro. As cartas enviadas para Drummond, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Otto Lara Resende, Murilo Rubião, Luís Câmara Cascudo e Anita Malfatti, entre outros, valem como uma enciclopédia. Não é preciso ser “culto” para desfrutar de sua erudição, cultura e inteligência. Felizmente, Mário não é para poucos, mas biscoito finíssimo para as massas – uma delícia.


Quando puxa a orelha do jovem Drummond, tão reverente aos franceses e tão avesso às coisas do Brasil, Mário parece passar um sabão na gente, com nossa mania de achar que o que é bom para Nova York é o melhor para o Brasil. Delicadamente, ele critica (sem dó) o jovem poeta, cheio de “inteligentices”, “literatices” e “sabedoria de papel”. E manda Drummond gostar de verdade da vida.


É claro que as ideias de Mário e seu nacionalismo apaixonado passaram pela “prova dos nove” do tempo. Mas ele não parecia ligar muito para a eternidade. Defendia com paixão o sonho de abrasileirar o Brasil, é cativante ao falar sobre a escrita “brasileira”. “O povo não é estúpido quando diz ‘vou na escola’”, ensina a Drummond, em sua apaixonada defesa da “aventura de estilizar o brasileiro vulgar”.

POLÍTICA As cartas em que Mário bota reparo nos versos do itabirano e suas acuradas análises dos poemas do jovem amigo valem por aulas de literatura. Drummond ainda estava longe de lançar seu primeiro livro, Alguma poesia (1930), mas o expoente da Semana de Arte Moderna de 1922 conversava de igual para igual com aquele rapazinho de 20 e poucos anos. Era assim também com Pedro Nava, em quem Mário apostava todas as fichas, com a turma da revista Verde (1927-1929), de Cataguases, e com Murilo Rubião. Aliás, os pitacos de Mário foram fundamentais para o modernismo mineiro, como observa André Botelho no oportuno ensaio Brasil caixa postal: por uma educação estética modernista, publicado em A lição do amigo.


É emocionante testemunhar a reação de Mário à Revolução de 30, que apoiou, e, sobretudo, o quanto lhe doeu a derrota da Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo se insurgiu contra Getúlio Vargas e planejou se separar do país. O autor de Macunaíma renega suas convicções e, agora se dizendo “patrioteiro” paulista, confessa: “Não sinto o imenso Brasil, não sinto a minha Paraíba, não sinto Minas, nem nada”. Derrotados os paulistas (com o apoio dos mineiros), proclama: “Também raivei contra Minas”.


Quatorze dias antes de morrer, Mário envia a Drummond a última carta. “O intelectual, o artista, pela natureza, pela sua definição mesma de não conformista, não pode perder a sua profissão, se duplicando na profissão de político”, diz, referindo-se ao 1º Congresso Brasileiro de Escritores, realizado naqueles dias em São Paulo. O encontro contribuiu para aprofundar a crise da ditadura Vargas, mas Mário já não estava aqui para ver. Ele morreu em 25 de fevereiro de 1945; o gaúcho foi deposto em outubro.


O coração, claro, matou o “ser descalibrado” que confessara ao “adversário” mineiro, no calor da derrota em 1932, “viver sempre apaixonadamente a toda hora em qualquer minuto”.

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