No ritmo do samba, Jards Macalé indaga o tempo da 'Besta fera'

Cantor e compositor lança nesta sexta (8) seu primeiro álbum de inéditas em 20 anos e diz que disco traz 'faixas que fazem barulho, mas foi construído no silêncio'

por Mariana Peixoto 08/02/2019 08:20
LEO AVERSA/DIVULGAÇÃO
Com 12 composições em parceria, disco tem lançamento hoje (8) (foto: LEO AVERSA/DIVULGAÇÃO)
“A ignorância dos homens destas eras/Sisudos faz ser uns, outros prudentes/Que a mudez canoniza bestas feras.” É sob o som do cavaquinho de Rodrigo Campos (Passo Torto) e do saxofone de Thiago França (Metá Metá) que Jards Macalé, de 75 anos, entoa os versos de Gregório de Matos. Na adaptação de Macalé, o poema Aos vícios, do maior poeta barroco que o Brasil já teve, se tornou Besta fera. É esse também o título de seu novo álbum, o primeiro de canções inéditas em 20 anos.

Com lançamento nesta sexta-feira (8) em todas as plataformas digitais – e com edição em CD e vinil – pela Natura Musical, Besta fera é um disco primordialmente de samba. Mas um samba torto, ao sabor de Macalé e da trupe que ele reuniu para o projeto. O álbum, com 12 faixas, teve direção do próprio compositor carioca, produção musical de Kiko Dinucci (também do Metá Metá) e Thomas Harres e direção artística de Rômulo Fróes.

No intervalo das duas décadas entre O q faço é música (1998), até então seu mais recente trabalho com canções inéditas, e Besta fera, Macalé continuou na ativa. De três em três anos, em média, lançou discos – com registros como intérprete, ou discos ao vivo, ou ainda projetos coletivos. Também foi visto constantemente nos palcos.

Nos últimos dois anos, encontrou-se em festivais Brasil afora com alguns dos músicos e produtores envolvidos na realização do disco – boa parte deles, por sinal, atuou nos discos Mulher do fim do mundo (2015) e Deus é mulher (2018), de Elza Soares. Thomas Harres, baterista de sua banda, convidou-o para um show experimental no Rio, ao lado de Kiko Dinucci. O terreno estava montado, conta Macalé, para fazer um novo trabalho com um grupo “paulioca”. A maioria dos envolvidos é de São Paulo; Macalé, carioquíssimo da Tijuca.

BARULHO “Este disco traz faixas que fazem barulho, mas ele foi construído no silêncio”, conta o compositor. Dono de um sítio em Penedo, na Serra da Mantiqueira, Macalé convidou Dinucci e Harres para uma imersão no local. A maneira de trabalhar foi semelhante à que experimentou, em 1998, com o pianista Cristóvão Bastos, arranjador de O q faço é música. E voltando ainda mais no tempo, para seu primeiro álbum solo, Jards Macalé (1972), reuniu-se durante três semanas com o baterista Tutty Moreno e o guitarrista Lanny Gordin no porão do Teatro Opinião, no Rio.

“A ideia é sempre chegar no estúdio com o trabalho semipronto”, comenta. Para Besta fera, houve um convite para que compositores enviassem letras. Dessa maneira, o trabalho traz parcerias de Macalé com Ava Rocha (Limite) e Tim Bernardes (Buraco da Consolação). Do encontro no sítio em Penedo saíram Vampiro de Copacabana (com Kiko Dinucci), Meu amor e meu cansaço (com Harres, Dinucci e Fróes) e Peixe (com Dinucci e Rodrigo Campos).

“Ainda fui pesquisando no meu baú. Algumas músicas estavam nele, como Obstáculos, Tempo e contratempo, Valor e Pacto de sangue (esta com letra de Capinam). Na verdade, a composição foi toda conjunta”, diz Macalé.

SAMBA Besta fera encontra parentesco com o disco de 1972, já que os arranjos foram todos coletivos. Foi no estúdio – Red Bull, em São Paulo – que a sonoridade ganhou forma. Dos muitos sambas do disco, destacam-se Vampiro de Copacabana, com a participação de cantoras da Velha- Guarda da Nenê de Vila Matilde; Longo caminho do sol, um samba com sotaque paulista – “É meio Nelson Cavaquinho, meio Adoniran Barbosa” –; De tempo e contratempo, um encontro do samba com o maxixe; Buraco da Consolação, voltado para o samba-canção. Mas nem só samba, diz Macalé. Meu amor e meu cansaço tem um clima de bolero.

Nome essencial da música brasileira, Macalé esteve ligado desde o primeiro momento ao Tropicalismo. Como arranjador e violonista, atuou, entre as décadas de 1960 e 1970, com Maria Bethânia, Gal Costa, Elizeth Cardoso, Caetano Veloso (arranjou o clássico Transa). Sua porção ator pode ser vista em filmes de Nelson Pereira dos Santos, Amuleto de Ogum (1974) e Tenda dos milagres (1977), em que participa também da trilha sonora. Mais recentemente, foi o personagem tema do documentário Jards (2013), de Eryk Rocha, e ainda viveu uma figura mística em Big jato (2016), de Cláudio Assis.

Artista completo, Macalé é conhecido por não fazer concessões ao mercado. Tanto por isso, sua produção autoral é quase bissexta. “Mesmo que eu nunca faça a mesma coisa igual, já estava cansado, havia chegado a hora de vitalizar o meu trabalho”, diz ele a respeito do material inédito.

No palco, Besta fera chega em março, com os músicos que acompanharam Macalé no registro fonográfico. “Acho que meu cantar está mais maduro. Quanto mais velho, mais pessoal fico”, conclui.

CAPA DE CAFI


A capa de Besta fera registra uma imagem de Macalé em contraluz, em que são destacados os cabelos e os óculos do compositor. Foi o último trabalho do fotógrafo Cafi, que fez o registro em 28 de dezembro. Na madrugada de 1º de janeiro, Cafi morreu de infarto, aos 68 anos, no Rio de Janeiro. Mais conhecido fotógrafo da música brasileira, ele realizou cerca de 300 capas de discos. Além de álbuns anteriores do próprio Macalé, Cafi fez história com trabalhos antológicos do Clube da Esquina – são dele as fotos que ilustram Clube da esquina (1972, o álbum de Milton Nascimento e Lô Borges com os dois garotos na capa), Milagre dos peixes (1973), Minas (1975) e Geraes (1976), todos de Milton, além do chamado “disco do tênis”, como ficou conhecido o LP que Lô lançou em 1972.


Besta fera

>> Artista: Jards Macalé
>> Natura Musical (12 faixas)
>>  sugerido: R$ 25

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