Exclusivo: EM acompanha ensaio da Orquestra Ouro Preto em homenagem a Fernando Brant

Veja o vídeo dos ensaios. Compositor, morto há dois anos, conheceu o projeto

por Ana Clara Brant 11/06/2017 07:00

“Quem perguntou por mim/Quem falou e chorou?/Quem me telefonou/Seus dramas contou/Pois se sentia sozinho/É meu amigo/É isso que eu tenho no mundo, em qualquer lugar.” Os versos da canção Quem perguntou por mim, parceria de Fernando Brant e Milton Nascimento, são uma homenagem a um amigo de Brant que vivia na França e um dia desabafou com o poeta e compositor mineiro sobre as tristezas de uma separação.

A composição acabou inspirando o maestro e diretor artístico da Orquestra Ouro Preto, Rodrigo Toffolo, e o produtor cultural Paulo Rogério Lage a batizar o espetáculo que estreia na próxima sexta no Palácio das Artes, e presta tributo a Brant, na semana em que se completam dois anos de sua morte. Quem perguntou por mim se desdobra em significados. “É uma das músicas mais ‘lado B’ dele, mas tem essa simbologia. Após sua partida, ficou a pergunta: quem perguntou por mim? E tem muita gente que não só pergunta, mas se lembra, quer saber, quer reverenciá-lo. O Brant está mais vivo do que nunca”, afirma Toffolo.

Foi em 2014 que o projeto começou a tomar corpo. Durante a cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) a Milton Nascimento, em agosto, Paulo Rogério se sentou ao lado de Fernando Brant e Tavinho Moura. “Durantes os discursos, alguns trechos de letras eram citados, como ‘amigo é coisa pra se guardar’, ‘a hora do encontro é também despedida’. E, como doutores não cantam, mas falam, eram os poemas de Brant que se ouviam sem parar. Perguntei, brincando, ao Fernando se a homenagem era ao Milton ou a ele. Foi então que pensei nessa ideia de fazer algo sobre ele com a Orquestra Ouro Preto”, recorda Paulo Rogério Lage, que assina a direção de cena.

Quando o produtor falou sobre o assunto com Rodrigo Toffolo, o regente não titubeou. “É como se eu tivesse ganhado na loteria. Depois de Valencianas, com Alceu Valença, do projeto dos Beatles e Edu Lobo, a gente queria algo que falasse de Minas Gerais, que captasse o sentimento de mineiridade na figura de um grande artista. Brant é o amálgama que liga tudo que Minas representa. Não poderia ser outro homenageado”, avalia o maestro.

Durante o processo de criação, Toffolo mergulhou de cabeça no universo do compositor. Leu seus livros de crônicas e outros textos escritos por e sobre ele. “Era necessária essa imersão para ajudar no trabalho. Toda a pesquisa me fez ter um outro olhar sobre Brant”, diz. Escolher o repertório foi uma das tarefas mais complicadas. O maestro conta que optou por canções que se tornaram clássicos, como Travessia, Maria, Maria e Canção da América, mas também escolheu algumas menos populares, como Fruta boa e Canções e momentos. “São obras musicalmente difíceis, mas de uma beleza única.

Em cena, serão 28 músicos com instrumentos de cordas e uma banda. É uma responsabilidade grande levar isso para o palco, ainda mais em um projeto que o próprio Fernando Brant começou a tocar em vida. Ele concebeu isso conosco. Não é simplesmente uma homenagem, só porque ele se foi”, salienta.

PALAVRA O foco da produção é a palavra e, sobretudo, a poesia de Fernando Brant. Por isso, a ideia foi encontrar alguém que pudesse cantar como se sua voz fosse mais um instrumento no palco. “Quando trabalhei no disco e show Amigo (1995) com o Milton, a gente tinha uma orquestra. Mas a voz do Bituca é tão potente que ofusca a sonoridade. Agora, a gente queria uma pessoa que respeitasse, no bom sentido, essa coisa do som, da harmonia, como se fosse uma coisa só. A palavra é que é a força desse espetáculo”, diz Lage.

A escolhida para os vocais foi Leopoldina, de 39 anos, que soma 15 de estrada. A cantora é de Campos Gerais, no Sul de Minas, coincidentemente a mesma região onde fica a cidade natal de Fernando Brant, Caldas. “E a minha cidade é vizinha de Três Pontas, terra do Milton Nascimento. Eu era bem menina e já cantava Maria Maria, Ponta de areia e frequentava os shows dele. São músicas que sempre fizeram parte da minha vida; é minha cama musical. O que estou vivendo é um sonho. Quando fui convidada, fiquei emocionada. Fernando Brant é o poeta de Minas Gerais. Apesar de ele não estar mais aqui fisicamente, estará de outra maneira. Podem se preparar que virá muita emoção”, afirma ela.

Responsável pelos arranjos, o violinista Mateus Freire conta que foi um desafio criar algo novo, ainda mais para músicas tão conhecidas. No entanto, acredita que o resultado ficou à altura do homenageado. “Já fizeram quase tudo em cima de Nos bailes da vida, Travessia, então não foi fácil. Mas é uma característica da própria Orquestra Ouro Preto ter essa coisa da criatividade. A gente inova, mas sem perder a originalidade, a essência”, analisa.

Paraibano, Mateus diz que sua família sempre foi muito musical e se lembra com carinho da mãe cantando Maria, Maria. “Sou fã do pessoal do Clube da Esquina, do próprio Fernando, do Milton e dessa parceria que criou obras-primas da nossa música. Nunca imaginei que um dia fosse trabalhar e escrever em cima dessas composições que marcaram a minha vida e a de tanta gente. Com esse material nas mãos, a expectativa é a melhor possível. É como ocorreu com o projeto dos Beatles. Não tem como não dar certo, porque é Beatles. Agora é a mesma coisa. É música do Fernando Brant. Não tem erro. Todo mundo gosta, se identifica.”

A estreia de Quem perguntou por mim vai representar uma dupla celebração – vai festejar, além da obra de Brant, a recuperação dos equipamentos de gravação e instrumentos musicais da Orquestra Ouro Preto, que foram furtados em março. “Recuperamos tudo. O momento é de comemorar. A ideia é que esse trabalho se transforme em um DVD, como ocorreu com o Valencianas e que circule em turnê pelo país”, diz Rodrigo Toffolo.

Quem perguntou por mim Orquestra Ouro Preto e Fernando Brant
Dias 16 e 17, às 21h, e dia 18, às 19h30, no Palácio das artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. ( 31) 3236-7400. Ingressos: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia). Vendas: bilheteria do Palácio das Artes ou pelo site www.ingressorapido.com.br

Repertório
1 – Sentinela
2 – Quem perguntou
por mim
3 – Saudades dos aviões da Panair (Conversando no Bar)
4 – Ponta de areia
5 – Canção da América
6 – Milagre dos peixes
7 – Maria Maria
8 – Nos bailes da vida
9 – Canções e momentos
10 – Travessia
11 – Encontros e despedidas
12 – San Vicente
13 – Fruta boa

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