Encontro de gerações fez da plateia de Paul McCartney um show à parte, que emocionou a todos e ao próprio artista

Fãs convidadas ao palco representaram o sentimento coletivo

por Sérgio Rodrigo Reis Carlos Herculano Lopes 06/05/2013 09:08

Euler Júnior/EM/D.A Press
Uma das autoras da campanha "Paul, vem falar uai!", Cecília Cury comemora o autógrafo de Paul, dado no palco do show (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)
Foi uma epopeia. Cecília Cury, de 21 anos, estudante de relações internacionais, conheceu em novembro de 2011, no show de Ringo Star, em Belo Horizonte, Pricila Brito, Luisa Mattos, Camila Flores, Ana Paula Teixeira e Camilo Lucas. Decidiram fazer algo para trazer à cidade o maior ídolo do grupo: Paul McCartney. Surgiu a ideia de um movimento nas redes sociais, que começou tímido e foi longe. Com 7,5 mil curtidas, a página no Facebook da campanha “Paul, vem falar uai!” foi a estrela anônima do show. Até conquistar o reconhecimento, os amigos tiveram bastante trabalho e, segundo eles, nenhuma regalia.

 

A campanha para trazer o artista para Minas se intensificou no ano passado, depois de notícias de que a equipe dele estaria em BH à procura de local para possível apresentação. Teriam ido ao Independência e o reprovado por problemas de visibilidade. “Quando surgiu o assunto, resolvemos pegar pesado e ampliar o movimento. O objetivo foi mostrar que BH tem público para Paul, que não seria um show vazio, pois Minas tem a tradição de admiração dos Beatles desde o Clube da Esquina. Trabalhamos muito para trazê-lo aqui”, diz ela, que custou a acreditar quando o pai lhe contou sobre a confirmação do megashow. “Não acreditei! Na hora, parei na pista da Avenida Cristiano Machado com pisca-alerta ligado e foi um choro só”, lembra.

 

Os últimos dias foram mais intensos. Cecília Cury foi para a fila do Mineirão na quarta, montou barraca, dormiu lá, e passou a se revezar com duas amigas. Era a oitava. Na sexta, saiu cedo e chegou à porta do Ouro Minas às 9h17. “Vi o Paul primeiro. Aquela foto dele acenando ao chegar foi para nós”, conta. Àquela altura, já havia feito o cartaz com a frase: “I have this tattoo!”, contando da tatuagem dos Beatles feita há um ano na costela. “Meu namorado me deu de presente. Custou R$ 300. Doeu demais. Inspirei-me numa das fotos mais conhecidas deles. Compensou”, diz a estudante, feliz com o desfecho da aventura.

 

Cecília estava na porta do Ouro Minas, hotel onde o músico se hospedou, quando um cinegrafista da equipe do artista viu o cartaz e a chamou para dar um depoimento. Ela levantou a camisa e mostrou a tatuagem. Ninguém falou mais nada. Depois de realizar o sonho de ver de longe o ídolo saindo do hotel, às pressas, num carro para a passagem do som, ela voltou para a fila do Mineirão. Quando os portões se abriram, conseguiu correr e chegar até a grade bem próxima ao palco. Ali ficou até que, no meio da apresentação, seguranças a convidaram a subir no palco com as amigas. “Segurei-me para não chorar. Fiquei ali atrás do palco, quando Paul falou da campanha e nos chamou. Nos deu os parabéns e disse: ‘Thank you!’ e autografou no meu corpo. Foi o momento mais épico da minha vida. Estou agora à procura de um tatuador. Não vou tomar banho até conseguiu fazer a tatuagem. Para mim, essa admiração significa o elo com minha família, pois cresci ouvindo meus pais cantando Beatles”, conclui.

Sérgio Rodrigo Reis/EM/D. A Press
A médica Carla Corina Barroso considerou uma honra receber Paul em Belo Horizonte (foto: Sérgio Rodrigo Reis/EM/D. A Press )

Sem medo de ser feliz

Pessoas se abraçando, se beijando, se confraternizando com amigos e com estranhos, como se fossem íntimas; algumas sem conseguir conter as lágrimas, que rolavam sem constrangimento, sem vergonha de mostrar felicidade. Enfim, um espetáculo grandioso, para ficar no coração e nas mentes de quem teve o privilégio de passar a noite de sábado em boa companhia.

 

Em meio a essa multidão, que parecia não acreditar que estava ali, bem em frente ao grande ídolo, se encontrava a médica cirurgiã Carla Corina Barroso. Acompanhada de uma amiga, tão empolgada como ela, disse que estava vivendo um momento único na sua vida, do qual jamais vai conseguir se esquecer, por mais que o tempo passe. “É fantástico, é uma grande honra recebê-lo aqui em BH, parece um sonho.”

 

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O casal Roberto Nascimento e Mariana Moraes veio de São Paulo para ver o show (foto: Sérgio Rodrigo Reis/EM/D. A Press)
De São Paulo, especialmente para assistir ao show, veio o casal Roberto Nascimento e Mariana Moraes, que também estava aproveitando para conhecer um pouco mais da cidade. Jornalista, Roberto disse que estava impressionado com a recepção dos mineiros a Paul. “Ele está sendo recebido de maneira emocionante, acho que isso não ocorreria em São Paulo, estamos adorando”, disse. Para Mariana, que trabalha em uma ONG, foi grande privilégio assistir ao show. “Estou encantada, nunca pensei que pudesse ver algo assim tão grandioso e belo”, disse.

 

Também de São Paulo veio o coordenador de eventos Thiago Ebisui, de 26 anos. Ele aproveitou a vinda à cidade para ver o ídolo de perto. “Estar de frente para uma lenda viva, poder ouvi-lo cantar e se dirigir tão simpaticamente às pessoas é uma grande alegria.” Já o contrabaixista Paulinho Carvalho, que vive em BH, estava às lágrimas. “Só posso dizer que esta é uma coisa fabulosa, um momento único na minha vida. Já assisti a seis shows de Paul, mas recebê-lo aqui, na nossa casa, é uma coisa especial, inesquecível.”

 

Da mesma forma estava a cantora Ilana Horta, de BH. Fã do cantor desde a infância, disse que estava encantada em poder vê-lo de perto. “Até já chorei, acredita?” O empresário José Tolentino e sua mulher, a médica Cláudia Drummond, de BH, também não escondiam a emoção. “Este foi o melhor show que já vi na minha vida, Paul é único”, resumiu Cláudia.

 

A grande festa no Mineirão foi também, antes de tudo, um encontro de gerações. Pais, filhos, sobrinhos, tios, todos unidos pelo mesmo objetivo: o amor incondicional ao ídolo. “Nasci em 1956, vivi a época de ouro dos Beatles. Aquilo foi tudo, nunca imaginei que poderia algum dia assistir a um show de Paul. Ainda nem estou acreditando”, conta Mônica Malta, de BH, que estava na companhia dos parentes Lúcia Silva e de suas filhas Thaís e Flávia.

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Família reunida: Debora Gondim, Tais Batista, Ana Cristina Avila Batista, Monica Malta, Margareth Almeida, Flávia Batista e Lucia Silva (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Problemas de infraestrutura
Carlos Herculano Lopes, Guilherme Paranaíba, Ivan Drummond e Sérgio Rodrigo Reis

Se os fãs e Paul McCartney deram show de emoção, organização, simpatia e carisma, o estádio do Mineirão, mais uma vez, mostrou problemas relacionados à infraestrutura – dois meses depois de inaugurado e a 40 dias da Copa das Confederações. Houve problemas também provocados por parte da produção do espetáculo. Falhas na acessibilidade incomodaram portadores de necessidades especiais e também quem pagou o ingresso mais salgado do show (R$ 600). A fila da pista premium fazia caracóis ao lado da água de esgoto que escorria pela calçada. Além do mau cheiro (tinha muita gente tapando o nariz e arregaçando as calças), o esgoto que estourou na parte interna do estádio, na região entre os portões 125 a 127 e 128 a 130, não só dificultou a formação da fila como o acesso às lanchonetes e aos banheiros da pista premium.

 

Enquanto a maioria imaginava que essa pista seria a de acesso mais fácil, o que se viu foi verdadeira desordem na fila, eliminada apenas dois minutos antes da primeira música. “Isso aqui é a fila do INSS?”, questionava a empresária Cecília Ramirez, de 44 anos. Ela conversou com a reportagem por volta das 19h40 de sábado, horário mais crítico na fila da pista premium. A farmacêutica Patrícia Quintão, 36 anos, e o técnico de informática Alexandre Santarosa, 29, sugeriram que o problema das filas poderia ter sido resolvido com maior número de funcionários para orientar o público e organizar a entrada.

Cadeiras O produtor musical Guilherme da Cunha, 27, reclamou da superlotação na área de cadeiras. “A produção vendeu mais ingressos do que cabia no Mineirão. Vi várias pessoas passando mal, eu mesmo tive que sair porque não aguentei tanta gente”, contou. E a bancária Rogéria Alves ficou decepcionada por ter pago R$ 340 e ter acesso às cadeiras, mas acabou ficando em pé. “Está tudo lotado e as pessoas estão guardando lugar para outras e não há ninguém da organização para resolver.” Já o casal Cristiano Moysés, 40, e Marcela Tavares, 40, levou os filhos, Bia, de 5, e Theo, de 7, às cadeiras superiores e não se arrependeu. “Não temos nada do que reclamar, só exaltar este show maravilhoso”, diz Marcela.

 

O velho problema do equipamento de leitura do código digital dos ingressos voltou a ocorrer, atrasando a entrada. Mas outros deslizes contribuíram para atrapalhar o acesso. Os chamados "Posso ajudar?" muitas vezes mostravam-se perdidos, dando informações desconexas e enviando pessoas para os lugares errados. Também os responsáveis pela revista do público pareciam despreparados. Houve gente entrando com canivetes, com tesoura, faca, abridor, saca-rolhas, sem falar nas garrafas de vinho e champanhe. Também não era fácil comprar bebida e comida dentro do estádio ou ir ao banheiro. Em alguns setores, as filas eram enormes.

Trânsito Fora do estádio, o que mais chamou a atenção foi o trânsito tranquilo na chegada, graças aos horários diferentes em que o público se dirigiu ao show. Na saída, a realidade foi outra, principalmente por conta dos estacionamentos ao longo das vias, que dificultaram a mobilidade dos veículos. Diferentemente do que ocorreu na partida entre Brasil e Chile, no dia 24, não foram registrados problemas no trânsito na chegada do público. Vias como as avenidas Antônio Carlos e Carlos Luz e o Anel Rodoviário operaram sem nenhum congestionamento, possibilitando a chegada tranquila das pessoas sem atraso ao estádio.

 

Na saída, o congestionamento foi grande. Ruas de acesso às principais avenidas ficaram bloqueadas, afinal, eram mais de 50 mil deixando o local na mesma hora. O comandante do 34º Batalhão da Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Idzel Fagundes, responsável pelo policiamento no entorno do Mineirão, informou que não houve ocorrências maiores durante o show. Seis flanelinhas foram presos, além de dois cambistas flagrados por policiais militares. Segundo o comandante, 300 homens fizeram a segurança no local e outros 28 camuflados ficaram no rastro dos cambistas.

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