O disco que completa a trilogia ao lado da banda – depois de Cê (2006) e Zii e zie (2009) – chega puxado pela celebração de A bossa nova é foda, canção que abre o show e explicita os recursos musicais da parceria. O cantor emenda com Lindeza, do disco Circuladô, de 1991, como se propusesse um diálogo das duas vertentes bossa-novistas:a força irruptora masculina (pouco falada) e a suavidade (feminina) que chega operando um recuo no tempo. Mas, é importante notar, mesmo quando vai à memória, ela é sempre marcada pela musicalidade contemporânea. O novo e a tradição se comunicam no tempo. Fechando o momento, a sensual Quando o galo cantou, uma espécie de síntese em torno da bossa de ontem e de hoje, inclusive em relação à letra da nova canção.
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O disco tem canções tristes e, mesmo nas mais movimentadas, não está distante a melancolia. Maturidade sem muitas concessões ao consolo da sabedoria. Ainda assim, é notável a capacidade de renovação e invenção de Caetano Veloso e seus músicos, num show em que cada canção carrega uma dose evidente de trabalho prévio. O repertório, que das canções do disco deixou de fora Vinco, de Caetano (com sofisticada letra drummondiana), seguiu com Abraçaço, com direito à coreografia dos músicos atrás de Caetano, movimentando os braços como um polvo cheio de afeto – recurso utilizado na capa do álbum – e Parabéns, dedicado aos aniversariantes da noite, que ganham votos de uma alegria excelsa, traduzida modernamente por “tudo megabom, gigabom, terabom”.
De Abraçaço estão ainda no roteiro Estou triste, Gayana, de Rogério Duarte, O império da lei, Quero ser justo, Funk melódico e O comunista, em homenagem a Marighella, “o mulato baiano”, que ganha um jogo de luz expressivo, em vermelho escuro, destacando o tom narrativo da canção que traz a experiência e as reflexões de Caetano sobre a política do período da ditadura (“os milicos”) e a ausência de sonhos dos nossos dias. Como puxado pelo tema, o cantor recupera a partir daí canções setentistas, com destaque para Triste Bahia, do disco Transa, de 1972, época de seu exílio (que é cantado em O comunista: “O mulato morreu e eu estava no exílio”). Grande momento do show, a guitarra de Pedro Sá recria a sonoridade afro da gravação original, em diálogo com a bateria e a percussão. Ainda dos anos 1970, Caetano recupera Você não entende nada, De noite na cama, Escapulário e Alguém cantando, homenagem à irmã Nicinha. Dona Canô também é lembrada com emoção em Reconvexo e Mãe, canção gravada por Gal em Caras e bocas e que foi reposta em cena no novo show da cantora, Recanto, que tem a marca de Caetano.
Caetano sobe ao palco do Palácio das Artes hoje, às 21h, despedindo-se do público de Belo Horizonte. Os ingressos já estão esgotados.