SPFWN45: Ronaldo Fraga valoriza arte manual mineira das bordadeiras de Barra Longa em desfile

Da lama às passarelas: na coleção As Mudas, designer apresenta trabalho em parceria com comunidade do município mineiro atingido em cheio pelo rompimento da barragem de Fundão, uma das maiores tragédias ambientais do país

por Laura Valente 26/04/2018 16:57
Nelson Almeida/AFP
(foto: Nelson Almeida/AFP)
Estilista também conhecido como um grande contador de histórias, Ronaldo Fraga já usou a moda para chamar a atenção da sociedade para temas áridos como xenofobia e transexualidade. Há pouco, emocionou o público mais uma vez ao lançar um novo olhar para a tragédia ambiental do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em desfile na São Paulo Fashion Week (SPFW), maior plataforma de lançamentos de moda da América Latina. 
A coleção desfilada, chamada As Mudas, é fruto de um trabalho realizado em parceria com As Meninas Bordadeiras de Barra Longa, grupo de artesãs do município de apenas 7 mil habitantes e um dos mais devastados pelo mar de lama que varreu a região, em 2015. “Observei a história de longe até conhecer o trabalho dessas mulheres, um ofício ancestral que foi levado para a região por meio da colonização portuguesa, no século 18, e vem sendo repassado de geração em geração. Barra Longa já foi conhecida como um polo de bordados, principalmente aplicados em barrados de paramentos religiosos, uma trajetória que não poderia ser esquecida sob os escombros da tragédia que também afetou o âmbito cultural pois muitas memórias foram soterradas, muita gente pensou em deixar o município”, frisa. 
Com a expectativa em alta, o designer reforça o propósito da parceria. “Quis, principalmente, lançar mão da poesia como forma de resistência, o que creio fazer parte do meu papel como designer, que é criar pontes entre os diferentes Brasis, do rural ao industrial, do artesanal ao tecnológico, além de ajudar essa comunidade na retomada de geração de emprego e renda”. 
AFP/Nelson Almeida
(foto: AFP/Nelson Almeida)
 

Arte manual

 

Com a parceria, o trabalho artístico das bordadeiras que desenvolvem tramas de rendas nas técnicas richelieu e livre foram aplicados nos

100 modelos que compõem a coleção. Os desenhos remetem a espécies vegetais conhecidas na região mineira como espada de São Jorge, comigo ninguém pode e coroa de cristo, além de galhos, folhagens e raízes. Talhados em linho e em seda rústica nas cores marfim, off white e preto, vestidos, camisas e outras peças “com modelagem que remete às camisolinhas de batismo, às camisas de padre e a aventais” serão comercializadas a partir do próximo mês na loja do estilista, Grande Hotel Ronaldo Fraga, no bairro Funcionários.
 
Na quarta-feira, 11 bordadeiras do grupo embarcaram para SP a fim de participar do desfile, no Parque do Ibirapuera. “Nós passamos dois anos praticamente paradas, sem bordar. Eu ficava voltando o pensamento para a lama... Eis que o Ronaldo Fraga apareceu e mudou tudo, nossa autoestima está lá em cima. Que dia imaginaríamos vir para São Paulo? Nunca. Mas estamos aqui, um grupo de Barra Longa, cidadezinha com menos de 7 mil habitantes. Agarramos a oportunidade e, agora, muita coisa boa pode surgir desse projeto maravilhoso”, registrou Maria Magali Lana, uma das bordadeiras de Barra Longa que viajou ao lado da irmã, Maria Aparecida Lana. “O bordado é a arte em que acredito, é minha vida e o trabalho por meio do qual estamos resgatando nossa autoestima, impulsionando nossas vidas e superando o desastre. Mostrar nossa arte para o mundo traz uma sensação espetacular, maravilhosa”, descreveu Magali. 

Novo olhar

 
Fraga reforça ainda que a ideia de “lançar poesia sobre um tema tão árido” objetiva resgatar e valorizar o ofício artesanal do bordado, além de promover a autoestima das bordadeiras. “Quando você lança luz e mostra possibilidades de trabalho como um instrumento de resistência, ajuda a promover a renovação. Essa comunidade maravilhosa estava sofrida e aí você vai lá, oferece a mão e chama para virem junto. A experiência tem sido emocionante e, certamente, terá desdobramentos com a criação de novos modelos e produtos”, avisa. 

O estilista que esteve no município várias vezes durante o desenvolvimento da coleção prefere ressaltar o que viu pelo lado positivo. “A reconstrução do município que fica em região linda, exuberante, está caminhando bem, tanto que se não soubesse do desastre não perceberia a destruição, apesar de a marca da tragédia estar lá, na história de cada um, nas memórias daquilo que a lama levou. No entanto, meu papel não é reforçar a dor, mas, sim, oferecer a mão para transportar aquela arte manual a um outro lugar, para que as bordadeiras possam tecer outras memórias e a nova geração de estilistas saiba que é possível levar a moda a outros caminhos”. 

Consumo com significado

Meninas Bordadeiras de Barra Longa/divulgação
Detalhe de bordado handmade (foto: Meninas Bordadeiras de Barra Longa/divulgação)
 

O grupo As Meninas Bordadeiras de Barra Longa foi reunido a partir de trabalho da Associação de Cultura Gerais (ACG), entidade conhecida por elaborar projetos de transformação social em várias comunidades do país, e recebeu estímulo da Fundação Renova. 
Também conhecidas como as aranhas de Barra Longa pelo ofício de tecer teias por meio das técnicas de bordado manual, as mulheres que compõem o grupo estão inseridas na história cultural da região e executam um trabalho que tende a ser cada vez mais valorizado. “Em um mundo tecnológico e veloz, as pessoas estão se voltando para um estilo de vida mais natural, valorizando a responsabilidade social e ambiental nos processos produtivos, buscando artigos que não tenham só grife, mas história. O bordado delas, sem dúvida, remete a hábitos e costumes ancestrais que não podem correr risco de extinção e, nesse sentido, o apoio do Ronaldo Fraga é muito importante” afirmou o presidente da associação, José Carlos de Almeida. 

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