Onda da cerveja artesanal motiva consumidores a se tornarem produtores

Amantes da bebida passam a querer produzi-la em casa e aqueceram o mercado de cursos que ensinam a fazer o produto em BH

por Pedro Galvão 10/11/2017 09:10
Fernanda Gontijo /Divulgação
Formado em letras, Rafael Reis se especializou no mercado cervejeiro e oferece cursos de fabricação da bebida. (foto: Fernanda Gontijo /Divulgação)

Autêntica paixão nacional, a cerveja vem experimentando há um bom tempo uma nova fase em seu relacionamento com os amantes da bebida. Novas cores e sabores passaram a encher os copos – que, aliás,  deram lugar às taças – e fábricas de pequeno e médio portes começaram a pipocar pela Região Metropolitana de BH, que se orgulha de ser a “capital da cerveja”, enchendo as prateleiras dos supermercados e cardápios dos bares de novos rótulos.

A variedade de lúpulos, maltes, teor alcoólico e também de preço inspiraram parte dos consumidores a trocar de lado no balcão. O interesse em saber como produzir a própria cerveja, seja para comercializá-la ou para o próprio consumo, acabou criando um novo mercado – o de lojas de equipamentos e insumos para a fabricação cervejeira e também de escolas voltadas para o assunto.

 

O Mercado Central conta, desde o ano passado, com uma loja que, além da bebida pronta, vende ingredientes, aparelhos para a fabricação caseira e também conhecimento voltado para a cerveja. Neste sábado (11/11), a Dünn Cervejaria realiza mais uma edição de seu curso introdutório à fabricação de cerveja, oferecendo noções teóricas sobre a diferenciação dos estilos ale (alta fermentação) e lager (baixa fermentação), técnicas de brassagem, mosturação, maturação e envase. A duração é das 8h30 às 18h30, com intervalos, e a inscrição custa R$ 350.


“Muita gente que começa a beber cerveja artesanal muda o paladar e se interessa mais. Percebemos que hoje há dois nichos – a pessoa que quer fazer cerveja para o consumo doméstico e aquelas que querem entrar no mercado. Nesse momento, queremos oferecer um curso básico para quem quiser fazer a cerveja em casa. Posteriormente, faremos um curso avançado”, afirma Macoud Patrocínio, sócio-proprietário da Dünn Cervejaria. Na loja da marca no Mercado Central, o kit de equipamentos para quem se aventura na produção caseira sai a R$ 1.660. Já o kit de insumos necessários para produzir 20 litros de cerveja custa R$ 80.

Quem também apostou no mercado do conhecimento cervejeiro foi o Experimente, conhecido do público “lupulomaníaco” pela feira gastronômica que reúne marcas artesanais periodicamente em BH. Em março deste ano, a empresa abriu a Escola Experimente numa casa no Bairro Santo Antônio. A proposta é oferecer especializações, tanto para quem nunca fez uma cerveja quanto para aqueles que desejam aprimorar o negócio já existente com cursos de marketing e gestão empresarial. São 17 modalidades, entre workshops e cursos, com carga horária variando entre três e 30 horas. A próxima edição do curso Produção de cerveja caseira, de abordagem prática, será realizada no dia 18 (das 9h às 18h) e em 9 de dezembro (das 9h às 12h). A matrícula custa R$ 400.

HOBBY
“Nossa ideia não é ser um centro profissionalizante, que demanda investimento alto. A gente quer trabalhar com um público mais amplo, que tem na cerveja um hobby ou que quer simplesmente entender mais do assunto. A ideia é aproximar pessoas do universo cervejeiro”, diz Rafael Reis, coordenador da escola. Formado em letras, Rafael também é professor de redação. Há 10 anos, começou a mergulhar no universo da cerveja, e o hobby acabou virando outra especialidade.

“Fiz todos os cursos que pude, me formei sommelier pela escola alemã Doemens e hoje sou pós-graduado em tecnologia cervejeira. A sala de aula sempre me puxa, e hoje consigo unir duas paixões”, afirma o professor, que tem sua própria marca, a Cerveja dos Reis. Imerso no ambiente de negócios da cerveja artesanal há alguns anos, ele identifica um novo momento no consumo do produto.

“No momento de crise, o pessoal segura o dinheiro, e a possibilidade de fazer a própria cerveja, em vez de ficar gastando muito em bares e supermercados, torna-se mais forte à medida que vão vendo que não é um bicho de sete cabeças. Já passou o momento da descoberta da cerveja, da novidade. Agora o pessoal quer mais conhecimento de causa, falar com mais propriedade. A gente brinca que teve a fase da cultura cervejeira e agora é a fase da educação cervejeira.”

Nessa tendência, duas marcas fortes do comércio cervejeiro se uniram em BH para criar o Centro Cervejeiro – a Lamas, especializada em insumos, e a Confraria do Malte, conhecida pela variedade de rótulos engarrafados ou na pressão. A loja de 600 metros quadrados inaugurada em dezembro de 2016 oferece, além de carta de chopes e cervejas, equipamentos e ingredientes para a produção da bebida em casa. Há ainda uma programação esporádica de cursos e workshops. No dia 19, será oferecido no local o curso Como fazer cervejas (das 9h30 às 17h; R$ 380).

É o mercado da produção caseira que vem alavancando o negócio neste primeiro ano de atividades. “Nosso ramo é supérfluo, e a crise acaba afetando a venda da cerveja. Mas temos trabalhado bem essa parte de cursos, exatamente para dar um fôlego maior. Abrigamos em nosso espaço cursos de escolas de outros estados, além dos realizados por nós mesmos. Temos em média 45 alunos em cada um deles, e o público é bem variado, principalmente nos cursos de produção caseira”, diz José Bento Valias, sócio do Centro Cervejeiro.

O empresário afirma que tem visto “cada vez mais gente com interesse em investir na cerveja, ter bar, ter cervejaria, investir em negócios cervejeiros”, mas avalia que “esse público não está preparado, tem ilusão de que a cerveja que está produzindo é excelente, que vai dar muito dinheiro, comparando muito com as grandes cervejarias, mas é um negócio muito diferente”.

AUTODIDATAS Para matar a sede de conhecimento, há quem prefira aprender por conta própria, aproveitando as facilidades que a internet oferece. É o caso do analista de sistemas Luiz Bueno, de 28 anos, que começou a fazer a própria cerveja em março passado, depois do incentivo de um amigo, que já produzia. “Comecei observando-o e, um dia, encomendei algumas garrafas para uma festa de família. Ele sugeriu que eu mesmo fizesse e se dispôs a me ensinar, usando os equipamentos dele”, relata.

Como o primeiro lote feito a quatro mãos foi um sucesso, Bueno comprou um kit de aparelhos que produz até 40 litros e começou a se debruçar sobre o assunto em sites especializados. Seu preferido é o blog Concerveja, editado pelo carioca Daniel Dinslaken, que conta também com um canal no YouTube. Embora esteja satisfeito com suas receitas depois de mais de seis meses de aprendizado, ele descarta produzir comercialmente. “Meu propósito é mais artesanal mesmo. Minha família sempre produziu queijo, licor e isso me inspirou. No começo foi difícil. Muitas receitas deram errado. Tive que jogar fora. Mas hoje está dando certo, e é muito gratificante quando um amigo bebe e gosta de uma cerveja que você mesmo fez.”

MÃO NA MASSA

Confira opções para aprender a fazer sua própria cerveja


>> Dünn Cervejaria
(Mercado Central, Centro)

Curso de produção de cerveja artesanal – amanhã (11/11), das 9h30 às 18h. R$ 350 (inclui café da manhã, apostila e certificado). Mais informações: (31) 3274-9600.

>> Escola Experimente
(Rua Marquês de Maricá, 616, Santo Antônio)
Curso Produção de cerveja caseira – dias 18/11 e 9/12.
Carga horária: 12 horas. R$ 400. Mais informações: (31) 2516-9331.

>> Centro Cervejeiro
(Rua Gonçalves Dias, 1.754, Lourdes)
Como fazer cerveja, o curso (realizado pela Lamas Brew Shop) – dia 19, das 9h30 às 17h30. R$ 380. Mais informações: (31) 3245-5077

>> Comcerveja

Blog especializado: www.youtube.com/concerveja e concerveja.com.br

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