Em seu último show na capital mineira, João Gilberto entoou Oh, Minas Gerais

Muitas lendas cercam o cantor em Minas. Amigos levando maconha pra ele no hotel, em BH

por Ângela Faria 07/07/2019 06:00
Carlos Altman/EM/D.A Press -  9/3/02
João Gilberto "enfeitiçou" a plateia no Minascentro em sua apresentação, em março de 2002 (foto: Carlos Altman/EM/D.A Press - 9/3/02 )
Não foi um show. Foi uma catarse coletiva, baixinho, do jeito dele. No início dos anos 2000, vi João Gilberto no Minascentro, em BH. A última vez em que ele se apresentou na cidade. Meu único encontro com ele. Boba de mim, que cheguei a duvidar da comoção das pessoas que já tinham visto João tocar e cantar. Estava ali, a poucos metros, um dos maiores artistas do mundo. Foi uma noite mágica. Transcendental. Mesmo.

O show anterior dele na cidade foi complicado. Chegou atrasado, reclamou do som, ouviu muxoxos de desagrado da plateia. Depois arrasou. Mas no meu sábado, não. Atraso de pequenos minutos, um João carinhosíssimo com os mineiros. Deu uma aula de Geraldo Pereira, o sambista maravilhoso nascido em Juiz de Fora. Citou gente que admirava de Minas, como Ary Barroso. E cantou Oh, Minas Gerais pra gente, e com a gente.
Como sempre, João estava sozinho no palco. Sozinho? Havia vários violões naqueles 10 dedos. E a batida? E aquele canto baixinho, que nunca se rendeu ao mais do mesmo? O perfeccionismo, o rigor, aquele jeito de cantar diferente as mesmas canções... Não, ele não era o chato, apenas fazia de tudo para entregar notas perfeitas pra gente...

Quem sabe faz ao vivo, diz o clichê. E João, pasmem, comandou um caraoquê. Ele tocando aquele violão perfeito, e a plateia cantando vários de seus clássicos. Foi mágico. O coro afinado enfeitiçado pelo mestre. Em certo momento, pediu desculpas porque o dedinho estava machucado, não podia tocar como queria... Ouviu-se um “óóóóó” de toda a plateia, sobretudo feminina. Tadinho, pensamos todas.

Muitas lendas cercam João Gilberto em Minas. Amigos levando maconha pra ele no hotel, em BH... Um desses casos já virou história e este tem h maiúsculo. Meio deprê, veio passar uns tempos com a irmã, em Diamantina. Ficava horas no banheiro ensaiando, aproveitando a boa acústica. Quando voltou pro Rio, a batida perfeita já estava inventada.

MOÇA DO SALTO ALTO A lembrança mais bonita que trago do último show dele em BH, além da performance mágica no palco, ocorreu no banheiro, por incrível que pareça. Ficava no segundo andar, lá no fundo do teatro. Uma garota linda subia as escadas descalça, levando as sandálias na mão, com todo o cuidado pra não fazer barulho. Explicou que não queria, de jeito nenhum, atrapalhar o show com seu salto alto.

Com esse gesto delicado, aquela moça de Minas reverenciou João com algo precioso: o silêncio. O mesmo silêncio que o feiticeiro das batidas e do canto soube burilar tão bem. Ao sair, lembro-me da expressão de êxtase do compositor Chico Amaral, o quinto Skank. Do jornalista João Paulo Cunha em alfa. De amigos com lágrimas nos olhos. E até da bela lua daquele sábado. Obrigada, João!

Repercussão

 “Meu vovô foi o vovô mais amoroso e carinhoso que eu podia ter tido. Meu amado vovô virou uma estrelinha, a estrela mais brilhante do céu”
l Sofia Gilberto, neta de João Gilberto

“O meu pai já faleceu. A sua luta foi nobre, ele tentou manter a dignidade à luz de perder a sua soberania”
l João Marcelo, filho de João Gilberto

“Foi-se João Gilberto, o maior gênio da música brasileira. Influência definitiva no meu canto. Fará muita falta, mas seu legado é importantíssimo para o Brasil e para o mundo”
l Gal Costa, cantora

“‘Vai minha tristeza e diz a ele que sem ele não pode ser’. Um gênio que revolucionou para sempre a música popular brasileira. João criou a bossa nova e me influenciou imensamente. Um dia ele me disse que eu era de sua família. E sou mesmo. Ele nos ensinou a cantar da forma mais bela do mundo. Vá em paz, mestre!”
l Daniela Mercury, cantora

“Apesar de não ter contato pessoal com ele, minha admiração, respeito e carinho por João Gilberto são inabaláveis. Não tem como não me sentir entristecida com a notícia. Que ele descanse em luz”
l Maria Rita, cantora

“A música mundial perde um grande talento. Tive a oportunidade de conhecê-lo em 1956, em Diamantina, onde morou por uns tempos. Naquela época, ele ainda não era famoso. Portanto, muita gente nem sabia que ele estava residindo lá”
l Pacifico Mascarenhas, empresário e compositor mineiro

“Fim de uma era. RIP João Gilberto”
l Lulu Santos, cantor

“Sábado triste: morreu João Gilberto, o pai da bossa nova. Ele cantou um tempo de paz e amor que já vai longe”
l Glória Perez, autora de novelas

“Obrigado, João!”
l Samuel Rosa, cantor, vocalista do Skank

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