Não entre e fique à vontade: estabelecimentos minúsculos fazem sucesso na Savassi

Nanocafeteria, miniloja de pokes e karaokê bar que funciona num corredor são exemplos de empreendimentos com poucos metros quadrados e milhares de clientes

por Pedro Antunes/Estadão Conteúdo Mariana Peixoto 02/02/2018 08:00
FOTOS: MARCOS VIEIRA/EM/D.A PRESS
Estabelecimentos são quase vizinhos, no coração da Savassi (foto: FOTOS: MARCOS VIEIRA/EM/D.A PRESS)
O que é possível fazer num espaço de 2,3 metros quadrados? Mil e quinhentos cafés por mês. Essa é a média da bebida servida no Copo Café. Inaugurado há dois meses na Praça da Savassi (no quarteirão fechado das ruas Antônio de Albuquerque e Alagoas), o espaço se autodenomina nanocafeteria. “Pleiteamos ser a menor cafeteria do mundo e, até que se prove o contrário, somos”, brinca Bruno Taunay, que se uniu a Felipe Brazza, do Café das Amoras, na empreitada.

A dupla não está sozinha na busca por empreendimentos em espaços muito pequenos. No mesmo quarteirão, logo em frente, foi inaugurado o Poke Sim, há duas semanas. À frente da loja de 22 metros quadrados está Gabriela Harue, da família do tradicionalíssimo restaurante japonês Sushi Naka. “Queria ter a experiência de uma loja menor para otimizar o trabalho”, diz ela, que tem entre os sócios Thiago Guerra, do Alma Chef.

Bem próximo deles, também na região da Praça da Savassi (só que no quarteirão de Antônio de Albuquerque com Paraíba), o Calabouço Karaokê Bar vem fazendo sucesso na noite. A despeito do nome, que remete a um lugar meio obscuro, o espaço, criado há sete meses por Valéria Dolabella, é um corredor branco, iluminado com luzinhas coloridas e muitos enfeites fofos. No fundo, a máquina de karaokê, com 10 mil músicas, funciona sem parar. Como o lugar é pequeno, o pretenso cantor só não deve esperar uma plateia grande – meia dúzia de amigos podem ser espremer para acompanhar a performance.

A crise, claro, é apontada como uma das razões para a criação de negócios de porte tão reduzido. Com investimento pequeno, o retorno pode vir mais rápido. O Copo Café, por exemplo, funciona numa antiga loja que vendia capas para celulares.

A despeito do espaço pequeno, onde só cabe uma pessoa, Stephanie Tollendal não tira o sorriso do rosto para servir boas opções de cafés e bebidas derivadas: espresso (R$ 5), coado (R$ 3,50, o pequeno; R$ 4,50, o grande), macchiato (R$ 6), cappuccino (R$ 8, tanto a versão tradicional quanto a vegana), espresso tônica (R$ 8, espresso, tônica e gelo), açaína (R$ 9, espresso, açaí e água de coco) e coffee shake (R$ 9, espresso, base de baunilha, caramelo e gelo).

Só é preciso ter alguma paciência nos horários de pico, pois há apenas uma pessoa na produção e atendimento. A ideia da nanocafeteria veio de Felipe Brazza, quando ele esteve numa feira em Seattle, nos EUA.

“A ideia é fazer café totalmente to go (para levar)”, conta Bruno Taunay. Mas a ideia também é mostrar ao mineiro que ele pode e deve beber um bom café.

“Nosso objetivo é que todo mundo comece a tomar café especial. As pessoas que há muito já tomam vinhos e cervejas de qualidade, consomem pães e queijos de qualidade, ainda procuram o café industrializado, comprado no supermercado. As cápsulas tiveram e têm papel importante no desenvolvimento do paladar, mas sabemos dos problemas ecológicos, de conservantes”, comenta Taunay.

O Brasil, não custa nada lembrar, é o maior produtor mundial de café – e Minas, o maior produtor brasileiro. Todos os grãos da loja são do Café das Amoras, produzido em São Gonçalo do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira. Disponível em Inhotim, na gelateria Lullo e na Pãodequeijaria, ele ainda não tinha loja própria.

HAVAÍ
O Poke Sim também pretende inovar com algo já conhecido. Prato surgido no Havaí entre surfistas que procuravam uma cozinha saudável, o poke é basicamente peixe servido com arroz ou folhas e alguns acompanhamentos.

“Trouxe muito do que já vinha trabalhando no Sushi Naka para a loja. O que servimos tem mais características orientais do que os outros pokes”, comenta Gabriela Harue. São três versões de poke: salmão, atum e vegano. Ou, então, a pessoa pode montar com o que lhe convier (além da proteína e do arroz ou folhas, há frutas da estação, ervilha, abobrinha, berinjela, mais um molho e uma opção de crocante, como granola, chips de raízes ou pipoca de arroz). Cada poke custa R$ 32.

Outra opção é o futomaki, versão maior do maki. “Em BH, não conheço ninguém que venda futomaki”, diz Gabriela, comentando que o enrolado é muito comum no Japão – onde as pessoas costumam comprá-lo na rua. O futomaki é servido no mesmo esquema do poke (salmão, atum ou vegetariano). Cada peça custa R$ 22.

“O que estou tentando trazer é uma comida extremamente fresca no formato fast-food”, conta Gabriela. Ela, que só trabalha com folhas agroecológicas e frutas da estação, não tem nem congelador na loja. O público de BH ainda é resistente à proposta to go, diz. Tanto que ainda neste mês a pequena loja vai ganhar algumas mesas no quarteirão fechado da Antônio de Albuquerque.

Fila de espera na calçada
Quanto vale a música? R$ 1. Cobrando bem pouco, o Calabouço Karaokê Bar já virou o preferido dos notívagos da Savassi. São pelo menos 300 canções por noite – e esta, nos fins de semana, não raro chega até os primeiros raios de sol.

“Muita gente acha que karaokê está ultrapassado. Mas você vê, meu bar nunca fica vazio. A verdade é que cantar faz bem para a alma. No ano passado, quando comecei, a crise estava no auge. As pessoas iam mesmo para extravasar. A música faz esse bem para a gente”, conta Valéria Dolabella.

Se você for ao Calabouço nas noites de sexta e sábado, certamente encontrará uma fila de espera. Cada grupo pode escolher até cinco canções (ou seja, R$ 5). Valéria, ou um funcionário, fica na porta do espaço de 30 metros anotando o nome dos “cantores”. As preferências são bem extremas: ou rock ou sertanejo.

Para esperar, só mesmo na calçada em frente. O bar conta com 10 mesas, servindo, a noite inteira, cerveja, destilados e tira-gostos simples – batata ou espetinho. “Tudo tem que ser assado, pois só tenho forno elétrico e micro-ondas”, explica ela.

Com o sucesso do bar, Valéria colocou um karaokê, menor, que fica na entrada da loja – ou seja, do corredor. Dali é até possível cantar para uma plateia maior. Mas quando chega a madrugada, só a máquina maior, no fundo da loja, funciona. Todo cuidado é pouco com o barulho na rua, mesmo naquele quarteirão supermovimentado.

Agora, com o carnaval, Valéria já vem se preparando. Como boa parte da folia belo-horizontina acontece de dia, ela vai abrir o bar já de manhã. Daí, os pequenos cantores também poderão colocar o gogó à prova.

CALABOUÇO KARAOKÊ BAR
Rua Antônio de Albuquerque, 380, Savassi, (31) 98464-5410. Aberto de segunda-feira a sábado, das 19h30 ao último cliente.

COPO CAFÉ
Rua Antônio de Albuquerque, 626, Savassi, (31) 99587-7041. Aberto de segunda a sexta-feira, das 12h20 às 18h, e aos sábados, das 10h20 às 16h.

POKE SIM
Rua Antônio de Albuquerque, 629, Savassi, (31) 99728-9490. Aberto diariamente, das 11h às 20h.
 

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