Cem anos de Revolução Russa: sangrenta guerra civil consolida governo socialista

Em 1921, após a vitória do Exército Vermelho de Lênin, russos começam a reconstrução de sua economia

03/11/2017 07:00
Com a fome se impondo, em fevereiro de 1917 explodiram as primeiras revoltas na capital Petrogrado, sempre acompanhadas por implacável repressão. Numa das greves, o czar Nicolau II mandou que os militares contivessem os manifestantes, mas parte do Exército aderiu à revolta. O exemplo se alastrou rapidamente para outras cidades e, especialmente, para outros corpos do Exército russo. Na frente de guerra contra a Alemanha e a Áustria, os soldados russos se recusaram a lutar. Em 27 de fevereiro do calendário juliano, soldados e trabalhadores com bandeiras vermelhas invadiram a Duma (Parlamento), exigindo o fim do czarismo. O movimento rebelde criou então o Conselho de Representantes dos Operários e Soldados (Soviet) de Petrogrado, que, dali em diante, tornou-se o centro da revolução.

Aconselhado a abdicar por seus mais importantes generais, Nicolau II foi pressionado a criar um governo provisório sob a liderança do príncipe Georgy Lvov, na tentativa de se reconstituir, no médio prazo, uma monarquia constitucional, ainda que naquele momento tivesse o esboço institucional de uma República.

As ordens emanadas do governo provisório se chocaram com o soviet de Petrogrado, que reivindicou para si a legitimidade de governar. O governo de coalizão, sustentado por burgueses urbanos e nobres rurais, ficou imobilizado e sem poder para efetivar as medidas que diminuiriam as tensões sociais. No plano externo, o governo não conseguiu acabar com a guerra, porque seus aliados e credores ingleses exigiam a manutenção da frente ocidental para novos financiamentos. Internamente, a aliança com a nobreza impedia a reforma agrária reivindicada.

A falência do sistema de abastecimento continuou a provocar descontentamento, saques nos centros urbanos e a fome debilitava vastas parcelas da população. Nesse cenário de descrédito, o governo provisório se tornou inoperante. Defendendo a saída da Rússia da guerra, Lênin, que estava exilado, negociou com os alemães, que desejavam o mesmo, o seu retorno à Rússia. Providenciaram apoio, recursos e proteção para sua volta e, em abril de 1917, Lênin desembarcou na Estação Finlândia. Junto aos bolcheviques, lançou as “Teses de Abril”, defendendo a tríade “paz, pão e terra”.

A proposta de Lênin defendia o acordo de paz com a Alemanha, para solucionar o abastecimento, a inflação e promover a reforma agrária. Essas palavras soaram como música para os soldados, cansados de uma guerra em que 4 milhões já tinham morrido.

Os bolcheviques perceberam que, ao inflar o poder dos soviets, seria inevitável o confronto com a Duma e com o governo provisório, preocupados com a convocação de uma Assembleia Constituinte para definir a arquitetura política da nova Rússia. Para fomentar a revolta e desacreditar o governo vigente, os soviets se concentraram nos problemas de sobrevivência imediatos da população. O conflito entre esses dois polos de poder marcou a história da Rússia de fevereiro a outubro no calendário juliano – março e novembro no gregoriano.

Com os soldados se recusando a lutar nas frentes e com os marinheiros em revolta na fortaleza de Kronstadt, em final de outubro, os anarquistas, os socialistas revolucionários e os bolcheviques decidiram que era chegada a hora de romper com o governo provisório. Entre 25 e 26 de outubro (do calendário juliano), tomaram Petrogrado. No primeiro dia, todas as agências do governo, correios e telégrafos, bases militares e prédios do governo civil foram controladas pelos soviéticos. No dia subsequente, o Palácio de Inverno, sede do governo provisório, foi invadido, e vários ministros presos. A tentativa de resistência de grupos militares não foi capaz de mobilizar as bases e fracassou. Lênin estimulou a ideia de “todo poder aos soviets” e ordenou o fechamento da Assembleia Nacional Constituinte. A partir desse momento, o conflito não poderia mais ser resolvido no campo da política, mas apenas pela via militar.

Após a tomada do poder, o governo soviético adotou medidas que consolidaram o apoio de boa parte dos soldados. De um lado, o chamado Exército Vermelho, comandado por Lênin e os bolcheviques, e apoiado pelos anarquistas e os socialistas revolucionários, que dominavam os grandes centros urbanos, especialmente a capital Petrogrado. De outro, denominado Exército Branco, os mencheviques, a nobreza e os kulaks (camponeses ricos) predominam no campo e em outras cidades importantes, não russas como Kiev e Helsinque. Potências ocidentais, entre elas os Estados Unidos, a Inglaterra e a França, apoiaram os “brancos”.

A guerra civil entre os dois exércitos foi sangrenta e durou anos. Após a vitória do Exército Vermelho, em meados de 1921, os russos começam a reconstrução de sua economia, consolidando a mais importante revolução do século 20, que determinou o ponto de inflexão na história do mundo. (BM e EG)

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