Mostra exibe filmes de Luis Buñuel produzidos no período em que viveu exilado no México

Cineasta surrealista incorporou ao seu estilo elementos da cultura latino-americana. Programação começa nesta sexta (28), no Cine Humberto Mauro

por Walter Felix 28/09/2018 13:00

FCS/Divulgação
'Os esquecidos' abriu portas para a carreira de Buñuel no México (foto: FCS/Divulgação)
O cineasta Luis Buñuel (1900-1983) foi um nômade da sétima arte. Nascido em Calanda, no interior da Espanha, mudou-se para Madri ainda jovem, onde concluiu seus estudos. Durante os anos 1920, após o início da Guerra Civil Espanhola, buscou refúgio na França, onde desenvolveu a maior parte de sua carreira – iniciada com Um cão andaluz (1929), marco do cinema surrealista. Na década seguinte, emigrou para os Estados Unidos. A reconhecida amizade com Salvador Dalí (1904-1989) fez Buñuel ser classificado como comunista, o que o levou a buscar exílio na América Latina.

O período em que se estabeleceu no México foi marcado por efervescente criatividade. Um recorte desta fase em sua trajetória entra em cartaz a partir desta sexta (28), no Cine Humberto Mauro. A programação conta com 19 filmes produzidos entre 1946 e 1965, incluindo clássicos como O anjo exterminador (1962).

“A carreira mexicana, com todas as dificuldades técnicas, falta de recursos e adversidades próprias de uma condição à margem dos grandes estúdios mundiais, foi uma escola perfeita para que ele vivesse sua fase áurea”, afirma Bruno Hilário, curador da mostra. “O período, de tão bem-sucedido, lhe permitiu retornar à Europa anos depois, alcançar a mise-en-scène perfeita e a maturidade que vemos em A bela da tarde”, diz Hilário, em referência a uma das mais célebres e sensuais produções de Buñuel, feita na França, em 1967, com Catherine Deneuve no papel principal.

 

Títulos como esse, apesar de cultuados, ficaram de fora da seleção. A curadoria privilegiou os filmes realizados por Buñuel durante o exílio no México, época em que realizou praticamente um filme por ano. O período é marcado não apenas pela produtividade, como também pela pluralidade de estilos adotados pelo cineasta. As produções selecionadas pela mostra passam pelo drama, o erotismo e a comédia, sem perder de vista traços surrealistas, movimento que teve Buñuel como representante máximo no cinema.

EXÍLIO Hilário chama a atenção também para os reflexos da experiência do exílio na obra do artista. “É interessante como o cineasta aborda a cultura latino-americana. Ele dialoga com essa cultura, ora de forma complexa, ora cometendo alguns exageros. Buñuel teve que aprender a dialogar com várias instâncias de produção dos estúdios mexicanos e, por vezes, adaptar a sua linguagem ou mesmo superar as condições que lhe eram impostas”, aponta o curador.

Quando chegou ao México, no fim da década de 1940, Buñuel já era um expoente do cinema, o que aguçou o desejo de parceria em atores e fotógrafos locais. O período no país, que poderia ter sido traumático, revelou a paixão do cineasta pela cultura local. “Buñuel era muito convicto de suas posições e opções estéticas. Em sua autobiografia, diz ter um carinho especial pela cultura latino-americana, o que se nota neste que é um dos pontos mais ricos de sua carreira.”

Ainda sobre o caráter plural da obra de Luis Buñuel, Hilário cita que há filmes pretensiosos, baseados em clássicos da literatura – caso de Robinson Crusoé (1954), adaptação do romance homônimo de Daniel Defoe, e Escravos do rancor (1954), releitura de O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. Há também dramas marcados por questões políticas e denúncia da desigualdade social nos países subdesenvolvidos. E, por fim, exemplos de comédias e produções menos densas. “Na mostra, será possível ver um outro Buñuel, não só o contestador.”

FCS/Divulgação
Surrealismo se faz presente em 'O anjo exterminador' (foto: FCS/Divulgação)
ESQUECIDOS Os esquecidos (1950) é possivelmente o mais cultuado de seus filmes realizados no tempo de exílio. Ambientado no subúrbio da Cidade do México, o longa acompanha um grupo de delinquentes juvenis e retrata o apagamento da infância na vida dos indivíduos marginalizados. Com apoio de outros cineastas, a produção conquistou o mercado europeu, rendendo a Buñuel o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes, em 1951.

Os esquecidos tem uma importância muito grande, por ser o primeiro grande filme feito por ele no México. Os trabalhos anteriores – Gran Casino (1947) e O grande pândego (1949) – não tiveram grande recepção se comparados à repercussão imediata conquistada por esse filme. O sucesso abriu espaço para que ele dirigisse tantos outros”, analisa Bruno Hilário.

Ainda no México, após Os esquecidos vieram Susana, mulher diabólica (1951), A ilusão viaja de bonde (1954), Nazarin (1959), entre outros. Já de volta à Europa, recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro por O discreto charme da burguesia (1972). Também disputou a estatueta com Tristana, uma paixão mórbida (1970) e Esse obscuro objeto do desejo (1977), seu último filme. Buñuel morreu aos 83 anos, na Cidade do México.

Goza Zaragoza/Divulgação
Buñuel morreu na Cidade do México, aos 83 anos (foto: Goza Zaragoza/Divulgação)
ERRANTE Segundo Luiz Nazario, professor do Departamento de Cinema da UFMG, a itinerância de Luis Buñuel imprimiu à sua filmografia uma rica diversidade cultural. “Era um cineasta errante”, define Nazario. “Em cada país em que ambientou seus filmes, reunia características da cultura local, o que é notado, especialmente, na França e no México.”

Para o professor, a fidelidade ao movimento artístico que ajudou a definir é a principal marca do legado de Buñuel. “Foi praticamente o único cineasta surrealista na história do cinema. Seu imaginário e estética sempre estiveram ligados ao movimento francês. Seus filmes produzidos na França são puramente surrealistas, enquanto que, no México, fez melodramas populares, mais realistas, mas, ainda assim, com elementos surrealistas inseridos.”

Como exemplos dessa seara, Nazario cita O anjo exterminador (1962) e Simão do deserto (1965). O mais representativo do período, na opinião do professor, é O rio e a morte (1964), que abarca tanto a estética surrealista quanto o interesse do diretor pelos costumes mexicanos. “O filme, que narra o conflito entre duas famílias ao estilo shakespeariano de Capuleto versus Montéquio, mostra a cultura de celebração da morte, tão forte no México. O rio e a morte acaba sendo surrealista, porque, na história, Buñuel leva essa particularidade ao exagero”, observa Nazario.

Confira os filmes deste fim de semana no Cine Humberto Mauro:
>> Sexta-feira (28/9)
16h: Gran casino (1947)
18h: O grande pândego (1949)

>> Sábado (29/9)
20h: Os esquecidos (1950)

>> Domingo (30/9)
16h: Susana, mulher diabólica (1951)
18h: A filha do engano (1951)
20h: Subida ao céu (1952)

MOSTRA 'BUÑUEL NO MÉXICO'
Até 18 de outubro. Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes. Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. (31) 3236-7400. Entrada franca. A programação completa está disponível no site www.fcs.mg.gov.br.

ESPANHA NO MIS
Ao longo desta semana, o país de origem de Luis Buñuel esteve em cartaz no MIS Cine Santa Tereza (Rua Estrela do Sul, 89, Santa Tereza) com a 15ª Mostra de Cinema Atual Espanhol. A programação chega ao fim nesta sexta (28), com exibição dos dramas
A noiva (2015), de Paula Ortiz, às 17h, e A colmeia (1982), de Mario Camus, às 19h – este, inclusive, ambientado no pós-Guerra Civil Espanhola. Entrada franca, com retirada de ingressos 30 minutos antes de cada sessão. Informações: (31) 3277-4699.

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