'Coração de cowboy' aposta no 'cinema sertanejo', com trama voltada para o interior do Brasil

Estrelada por Gabriel Sater, produção traz hits de Chitãozinho e Xororó

por Ângela Faria 27/09/2018 08:00

Zezé di Camargo e Luciano “bombaram” com 2 filhos de Francisco, filme dirigido por Breno Silveira lançado em 2005. Treze anos depois, Chitãozinho e Xororó e sua “matadora” Evidências inspiram Coração de cowboy, longa de Gui Pereira que estreia nesta quinta-feira (27) em BH. Ao contrário do blockbuster embalado pelo mega-hit É o amor, não se trata de cinebiografia, mas de um drama romântico. O protagonista é Lucca, jovem ídolo do “popnejo”, refém da ambiciosa empresária e da milionária engrenagem marqueteira que movimenta o mercado musical.

Fotos: O2/divulgação
Fotos: O2/divulgação (foto: Fotos: O2/divulgação)

Romântico, leve e “sessão da tarde”, Coração de cowboy chega para brigar pelo espaço do cinema sertanejo nacional – no rastro de O menino da porteira, 2 filhos de Francisco e dos filmes de Mazzaropi. É o primeiro longa dirigido por Gui Pereira, de 27 anos, radicado há uma década em Los Angeles. Graduado pelo Art Institute of California, o paulistano trabalha numa produtora em LA. Ultimamente, tem “morado” na ponte aérea.

Nos EUA, o universo country faz sucesso (e dinheiro) na telona. Só para lembrar, Coração louco levou duas estatuetas do Oscar em 2010: melhor ator (Jeff Bridges) e canção original (The weary kind). No Brasil, o cinema sertanejo é quase raridade, apesar da força do gênero musical, o mais ouvido no país.
“O potencial desse segmento é enorme. O cinema sertanejo tem um público fiel e apaixonado”, enfatiza o diretor paulista, observando que as produções brasileiras se concentram no universo urbano e, sobretudo, no eixo Rio-São Paulo. Coração de cowboy levou dois anos para ficar pronto, custou cerca de R$ 1 milhão e, de acordo com Gui, não contou com recursos das leis de incentivo.

SÍTIO

“Meu filme foi financiado aos trancos e barrancos. Conseguimos o apoio de pessoas que acreditaram na gente”, explica o diretor, citando parceiros brasileiros e americanos. Boa parte das cenas foi rodada em Jaguariúna, no interior de São Paulo. O sítio do tio onde Gui passava as férias quando era criança serviu de cenário.

Chitãozinho e Xororó “deram um superapoio”, mas não estão entre os investidores, informa o diretor. O superapoio se traduz em canções. A música é personagem da trama, observa Gui. Além de Evidências (“e nessa loucura/ de dizer que não te quero/ vou negando as aparências”), estão lá os hits Saudade de minha terra, Não desligue o rádio e Deixei de ser cowboy por ela. A trilha sonora é assinada por Lucas Lima, genro de Xororó e marido de Sandy. O CD chega às lojas junto com o filme.

CONFLITO
O violeiro, cantor e compositor Gabriel Sater interpreta Lucca, o “popnejo arrependido”, em conflito com Iolanda (Françoise Forton), a empresária ambiciosa. Ela lhe deu fama, a bela cobertura onde mora e o carrão, mas o obriga a gravar músicas-chicletes (como a hilária Curtição no Guarujá), a dividir microfones com funkeiros tatuadíssimos e participar de reality shows pra lá de bregas.

Lucca, coitado, quase leva vaia ao tentar mostrar seu repertório “de raiz” aos fãs baladeiros, que só querem saber da “pegação” no Guarujá. Abandona tudo, joga o celular pela janela da caminhonete e volta à cidadezinha natal em busca da identidade perdida. É rejeitado pelo pai, Joaquim (Jackson Antunes), que o acusa de trocar a família pela fama, mas acolhido pela amiga de infância e ex-parceira Marcelle (Thais Pacholek). A mocinha da história é uma “onça” chamada Paula (Thaila Ayala), que não perde a chance de ironizar o galã popstar.

“Lucca é um artista que se perdeu no meio do caminho, manipulado pela empresária, vítima da própria vaidade. Ele está em busca de sua autenticidade”, diz Gabriel Sater, que estreia como protagonista de um longa-metragem. O ator e músico, de 36 anos, atuou na novela Meu pedacinho de chão (TV Globo, 2014) e fez uma ponta como violeiro no filme Malasartes e o duelo com a Morte (2017), de Paulo Morelli. No teatro, estrelou o musical Nuvem de lágrimas (2016).

Gabriel conta que “parou tudo” por quatro meses, para se dedicar full time a Lucca. Aproveitou a “bagagem intensa” do aprendizado com Luiz Fernando Carvalho, diretor de Meu pedacinho de chão, pesquisou dezenas de referências – dos filmes de Mazaroppi que ama assistir desde pequeno a séries da Netflix sobre o universo country, além de filmes como o premiado O segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Além disso, vasculhou o cancioneiro nacional. Ouviu cerca de 50 duplas do chamado neossertanejo.

O ator e violeiro avisa: o Lucca que aparece cantando no cinema não tem nada a ver com o Gabriel Sater que se vê em shows pelo Brasil. “Foi bacana o desafio de criar um outro músico, arriscar”, diz. De acordo com ele, Coração de cowboy é um “romance musical” dedicado ao interiorzão do Brasil. E contracenar com o experiente Jackson Antunes, de 58 anos, foi “de arrepiar”.

“Jackson é alma iluminada”, diz Gabriel. Os momentos mais fortes da trama envolvem justamente o quebra-pau entre pai e filho. Mineiríssimo de Janaúba, Jackson rouba todas as cenas como o sujeito turrão e sem papas na língua que diz verdades na cara de Lucca, moço atormentado por traumas do passado. Não vale spoiler, mas é legal ver Jackson soltar a voz, acompanhado pela viola de Lucca.

 

 

 

GALÃ

“Herdeiro” de Almir Sater – o “peão-alfa” Trindade de Pantanal (1990), marco da teledramaturgia brasileira exibido pela extinta TV Manchete –, Gabriel não parece muito entusiasmado com o posto de galã sertanejo da vez. Diz ficar lisonjeado com os elogios, mas garante: o importante é ser reconhecido por seu trabalho. “Meu desejo é me tornar um ser humano melhor. Quero trazer delicadeza para as pessoas, pois a vida está muito dura pra todo mundo”, afirma.

Na opinião dele, Coração de cowboy chega num momento especial para este Brasil baixo-astral, marcado pela intolerância. “É a consciência de que você tem de buscar a verdade nesta vida. A história faz a gente refletir sobre princípios e valores que realmente importam. Nosso país vive um momento meio apocalíptico, espero que a eleição seja uma luz no fim do túnel”, afirma Gabriel, que prefere não declarar seu voto para presidente da República.

DURONAS

Se o feminejo dá o tom nos palcos brasileiros, com as letras empoderadas de Marília Mendonça, Maiara & Maraísa e Naiara Azevedo, as garotas de Coração de cowboy não deixam por menos. A começar pela vilã, a determinada Iolanda (Françoise Forton, foto), empresária que transformou o interiorano Lucca em astro. Paula (Thaila Ayala) é mocinha determinada, sem mimimi. Dona de bar, espanta brigões com um baita taco de madeira. É ela quem pula a janela do quarto do rapaz... Já Marcelle (Thais Pacholek) não dá mole para o marido caminhoneiro. “Faltam mulheres fortes no cinema”, diz o diretor Gui Pereira. “Fui criado vendo filmes dos anos 80, Bruce Willis, valentões e coisa e tal”, comenta, lembrando que o mundo mudou. “No meu filme, as duronas são elas, fundamentais para a evolução dos personagens. Obrigam os homens a amadurecer.”

SERTÃO NA TELA

TRISTEZA DO JECA (1961)
Clássico de Mazzaropi, foi o primeiro filme colorido lançado pelo produtor, cineasta e ator paulista (1912-1981), ícone da cultura caipira. Com direção de Milton Amaral, conta a história de um simpático capiau manipulado por dois políticos durante a campanha eleitoral.

O MENINO DA PORTEIRA (1976)
O cantor e compositor Sérgio Reis faz o papel de Diogo, peão boiadeiro em conflito com o dono da Fazenda Ouro Fino, que oprime pequenos sitiantes. Diogo faz amizade com Rodrigo (Márcio Costa), o menino da porteira. A direção é assinada por Jeremias Moreira Filho. O roteiro se inspirou no clássico da música sertaneja composto por Luizinho e Teddy Vieira

2 FILHOS DE FRANCISCO (2005)
Dirigido por Breno Silveira, o filme se inspirou na trajetória de Zezé di Camargo e Luciano. Na época de seu lançamento, foi a maior bilheteria do cinema brasileiro desde a retomada, em 1995. Em seus 10 anos, bateu 5 milhões de espectadores só nas salas de exibição. Os irmãos goianos formam a bem-sucedida dupla sertaneja que lançou os hits É o amor e No dia em que eu saí de casa.

O MENINO DA PORTEIRA (2009)
Jeremias Moreira Filho dirigiu a nova versão de seu filme lançado em 1976. No remake, o cantor Daniel faz o papel principal – o peão Diogo –, que entra em conflito com o poderoso Major Batista (José de Abreu) e faz amizade com o garoto Rodrigo (João Pedro Carvalho).

O pesadelo do pop

O “lado comédia” de Coração de cowboy mira naqueles artistas “popnejos” meio artificiais, fabricados por empresários, gravadoras e mídia. O próprio Lucca, ao chegar à sua cidadezinha, é “zoado” por jovens, ironizado pela mocinha e fustigado pelo pai por trair a cultura de raiz. Na divertida cena em que ele e colegas sertanejos falam de suas influências, Michael Jackson, Justin Bieber e Justin Timberlake são citados como fontes de inspiração.

O diretor Gui Pereira afirma que a intenção não é desmerecer o neossertanejo. Muito menos comprar briga com fãs do gênero, que dialoga com pop, rock, funk, eletrônica e até rap.  “Apoio o neossertanejo, inclusive cantores neossertanejos estão no meu filme. O problema é o artista perder sua personalidade, sua autenticidade, sua identidade. Coração de cowboy é um filme sobre isso”, reforça.

A trilha do filme reverencia clássicos caipiras, destaca o cancioneiro de Chitãozinho & Xororó e valoriza a sonoridade country. Estão em cena Família Lima, Marcos & Belutti, Rick (da dupla Rick & Renner) e Rionegro & Solimões.

Gui Pereira conta que o “estalo” para o roteiro, assinado por ele, Lara Horton e Jonathan London, veio enquanto escutava música no iPod. “Começou a tocar Fogão de lenha”, revela, referindo-se ao sucesso de Chitãozinho e Xororó cuja letra fala de um sujeito que volta para casa, na roça, doido por um bule de café quentinho e a rede na varanda.

Antes de estrear no Brasil, Coração de cowboy rodou por festivais nos Estados Unidos, Portugal, Itália e França. Gui Pereira conta que o longa levou o prêmio de melhor filme num festival realizado em Nevada, nos EUA. No Tennessee, conquistou troféus de melhor longa/júri popular e de melhor ator (Gabriel Sater). Isso, com legendas, sem dublagem. “Falamos em português e conquistamos os americanos”, orgulha-se o diretor.

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