Em novo filme, Helena Ignez faz reflexão sobre a condição feminina na ''sociedade do desempenho''

'A moça do calendário', que estreia nesta quinta (27), tem roteiro de Rogério Sganzerla

por Silvana Arantes 27/09/2018 10:00

A moça do calendário é a imagem da fantasia pregada na parede da oficina mecânica Barato da Pesada, onde Inácio (André Guerreiro Lopes) movimenta seus braços apertando parafusos, ouve desaforos do patrão e precisa se desvencilhar de seus avanços, troca ideias com os companheiros de trabalho, come sua marmita e sente a cabeça doer todos os dias.

MERCÚRIO PRODUÇÕES/DIVULGAÇÃO
A atriz Djin Sganzerla é a moça do calendário no filme ambientado em São Paulo (foto: MERCÚRIO PRODUÇÕES/DIVULGAÇÃO)

O longa de Helena Ignez, que estreia hoje em Belo Horizonte (Belas Artes, 17h30), começa com a imagem de Inácio regendo a sinfonia de buzinas executada pelos carros retidos no trânsito do Minhocão, esse monumento ao automóvel que se tornou, com o tempo, também o símbolo da falência de uma certa ideia de progresso na cidade conhecida como a “locomotiva do país”.

Aos poucos, o apito dos carros dá lugar a uma peça verdadeiramente musical, e Helena Ignez anuncia, assim, seu propósito de substituir a feiura pela beleza e o concreto pelo simbólico, que será desenvolvido ao longo de todo o filme.
O roteiro de A moça do calendário foi escrito por Rogério Sganzerla (1946-2004) em 1987, a partir de contos de Luis Antônio Martins Mendes. Helena Ignez adaptou-o, incluindo nele ecos claros do livro A sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han, a quem ela dedica o filme.

A ideia, emprestada de Han, de que a doença particular do século 21 é de ordem psíquica está expressa na trama por meio das constantes dores de cabeça de Inácio, dos tratamentos alternativos com que ele busca compreender e sanar seu problema e nas músicas Neuronal, composta por Ignez e Dan Nacagawa, e Tarja preta, de Ignez e Iara Rennó, que declara: “A sociedade do desempenho produz depressivos e fracassados”.

Helena Ignez usa também sua própria voz em off para assinalar outras ideias, como a de que “o ritual burguês de passagem para a vida adulta passa a ser a carteira de habilitação”. Não é aleatório, portanto, o fato de que Inácio se movimente por São Paulo a pé, de ônibus e de bicicleta sempre que circula desacompanhado.

Quando coloca seu protagonista dentro de um carro, a diretora refuta as associações desse meio de transporte com um signo de prestígio e um artefato de proteção e isolamento. É junto com amigos que Inácio está a bordo de uma lata velha e com pneus gastos, num passeio noturno em que fumam maconha. Nessa cena, o espectador ouve a batida do funk que lista os benefícios da substância para a ampliação das perspectivas e sua “popularidade”: “Ela rola na favela; também rola entre os bacanas. Alguns tentam criticar, mas não sabem o mistério. Na verdade ela é pra nós como se fosse um remédio. Ela tranquiliza a mente e acalma o coração. Isso não é apologia; é liberdade de expressão”.

 

 

 

POTÊNCIA

A São Paulo pela qual Inácio se move está perpassada pelo ativismo em favor de questões nas quais Helena Ignez parece identificar a potência que se contrapõe ao massacre da vontade pela “sociedade do desempenho”: a luta pela terra, o combate ao racismo, a acolhida aos imigrantes, a igualdade de gênero.

Numa “ponta” como frequentadora do Bar do Bigode, que cumpre na trama o papel de segundo lar de Inácio, Helena Ignez faz um “brinde ao fracasso” e exalta a vivacidade das “matriarcas de Pindorama”, ao lado da amiga Vera Valdez.

Casado, Inácio verá a mulher encontrar uma “saída para o casamento” correspondente à sua convicção de que “somos movidas por forças que não controlamos”. Uma conclusão a que o mecânico chega é que “a alegria é um carro difícil de manobrar”. Mas ele terminará embarcando em outra relação com uma mulher que não abre mão de estar ao volante e avisa sem rodeios: “Não me peça para ser diferente. Eu sou assim”.

A moça do calendário se constitui como a expressão de um feminismo que sabe ser ao mesmo tempo irredutível em seus compromissos e suave em seus modos, capaz de reconhecer a face da injustiça nas formas que a desigualdade de gênero assume nos campos profissionais e sociais, mas apto a enxergar também a face do desejo, quando um homem e uma mulher são atraídos um pelo outro e se rendem reciprocamente ao fato de que “meu coração, não sei por que, bate feliz, quando te vê”.

Responsável pela seleção musical de A moça do calendário, Helena Ignez escolheu a canção Será o amor?, de Péricles Cavalcanti, cuja letra menciona “um filme de Sganzerla” para embalar as dúvidas sentimentais de Inácio, numa das mais belas cenas de um longa pródigo em tê-las.

Ao fim e ao cabo, um filme escrito por Rogério Sganzerla e Helena Ignez, que incorpora sem dificuldade imagens de Tudo é Brasil e Sem essa, Aranha, tem Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes como protagonistas e Sinai Sganzerla como produtora nos lembra que, por mais difícil que seja manobrar a alegria, há pessoas que se tornam bons pilotos de sua vida e da obra que constroem com ela. Helena Ignez é uma delas.

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