Inspirado em história real, 'A cidade do futuro' mostra a família pouco convencional

Longa narra o relacionamento formado pelo trio Milla, Gilmar e Igor no sertão baiano

por Mariana Peixoto 26/04/2018 07:00
Coisa de Cinema/divulgação
O casal Milla, Igor e Gilmar enfrentou preconceito em Serra do Ramalho, mas pretende voltar a morar lá (foto: Coisa de Cinema/divulgação)
A família é o que move o filme A cidade do futuro, produção baiana de Cláudio Marques e Marília Hughes que estreia nesta quinta-feira (26), no Cine Belas Artes. Não se trata do clã convencional – pai, mãe e filho –, mas de uma nova configuração familiar, só tornada possível graças à resistência dos protagonistas.

Milla Suzart, Gilmar Araújo e Igor Santos são três jovens baianos de Serra do Ramalho, na região de Bom Jesus da Lapa. O município de Serra do Ramalho foi criado em 1989, mas há famílias naquela área desde 1973. Há 45 anos, terras do Médio São Francisco foram desapropriadas pelo governo militar para a construção da Usina de Sobradinho. Milhares de ribeirinhos se viram assentados em outras localidades, com a promessa de que viveriam perto do São Francisco.

As famílias enviadas para Serra do Ramalho se descobriram a 20 quilômetros do rio – e a 800 quilômetros da região onde originalmente viviam.

Milla, Gilmar e Igor são filhos e netos daqueles ribeirinhos. Foram descobertos por Cláudio Marques e Marília Hughes (que estrearam em longa com Depois da chuva, de 2013), quando o casal de cineastas chegou a Serra do Ramalho para uma pesquisa ligada ao documentário Sobradinho.

“Tínhamos resistência de ir até lá por causa da distância”, conta Marília. O trajeto Salvador/Serra do Ramalho leva 14 horas. “Descobrimos que a promessa dos militares (nos anos 1970) era de um lugar onde seria construído o futuro. Conhecemos primeiro o Gilmar e vimos como os jovens estavam inseridos em atividades culturais, apesar de viverem numa cidade precária. Ficamos encantados e decidimos fazer um filme de ficção abordando a juventude que, pra gente, já era o futuro”, diz a diretora. O documentário acabou adiado – Sobradinho deve ficar pronto até dezembro.

A dupla de cineastas fez várias viagens até a cidade, onde vivem cerca de 30 mil pessoas. No meio do processo de produção eles receberam um telefonema de Gilmar. “Ele nos disse que sabia que queríamos fazer um filme com eles, mas havia surgido algo para atrapalhar os planos. Milla estava grávida”, relembra Marília, que logo perguntou sobre o pai. Gilmar respondeu que era ele. E Igor também.

“Na hora em que nos contou isso, vimos que não iríamos perder um filme, mas fazer outro”, relembra a cineasta. Partindo do zero, pois o roteiro anterior já estava pronto, os diretores decidiram construir a nova história em conjunto com os três jovens baianos. A cidade do futuro é um filme de ficção a partir do que o trio viveu. Os três interpretam personagens batizados com seus próprios nomes.




CORAGEM
Milla estava grávida de Gilmar. Os dois não tinham propriamente um relacionamento amoroso, eram amigos. Gilmar namorava Igor. Ao descobrir a gravidez, o trio decidiu criar a criança. “Quisemos contar essa história extremamente corajosa, pois eles estavam construindo uma família enfrentando o modelo tradicional da sociedade local. Naquela região, a mulher é muito massacrada. Eles queriam romper com o modelo, mas faziam isso sem levantar bandeira alguma”, continua Marília.

Os diretores – também um casal; Marília, como Milla, estava grávida durante as filmagens – vão mostrando o desenvolvimento dessa relação, bem como o preconceito enfrentado pelos três. Ao mesmo tempo, usam como pano de fundo a história da criação de Serra do Ramalho. Elenco e figuração são pessoas da região, incluindo a família dos personagens, interpretados pelos próprios parentes.

“A estrutura familiar de Serra do Ramalho é outra. O homem está sempre ausente, ou porque trabalha fora ou porque foi embora. Cabe às mulheres, às mães, dar assistência para a família”, observa Marília.

Os realizadores chegaram a enfrentar alguma resistência de pessoas convidadas a participar do filme. “Principalmente dos mais velhos. Ao mesmo tempo, conseguimos envolver a comunidade por meio das oficinas, conversando sobre cinema. Foi uma entrada bem gradativa”, revela Marília Hughes. Aliás, bem-sucedida – Cláudio Marques virou jurado da vaquejada, a principal atividade cultural da região.

Casamento em BH
A história de Milla, Gilmar e Igor não termina com A cidade do futuro. Os três estão juntos até hoje, mas vivendo em lugares diferentes. Atualmente, a família tem quatro pessoas. Em 27 de julho, o filho Heitor completará 3 anos. Nesse dia, Gilmar e Igor vão se casar. Em Belo Horizonte.

Há dois anos, Gilmar é professor de português do ensino médio. Dá aulas na Escola Estadual Laudieme Vaz de Melo, no Bairro União, na capital mineira. O menino Heitor vive com ele, pois Milla faz graduação em artes cênicas em Goiânia. Igor continua em Serra do Ramalho, onde trabalha como diretor de Cultura do município.

“O filme propõe outros lados para a questão da família, contribui para a evolução do pensamento. Pra mim, isso vale a pena, mesmo com a exposição que tivemos. A contribuição social do filme motiva muito mais do que as críticas que recebo. E são muitas”, comenta Gilmar.

Quando os três decidiram viver juntos, houve reações diversas. “A mãe da Milla ficou sem falar com ela um tempo. Na cidade, pessoas apontavam para a gente na rua. A Milla foi acusada de fazer barriga de aluguel, de querer vender o filho”, revela o professor.

A intenção dele e de Milla é voltar a morar em Serra do Ramalho. “A cidade precisa de nós, de jovens que de fato signifiquem mudança social, que contribuam para a melhoria do lugar. Quando voltarmos, estaremos mais qualificados”, continua Gilmar, que planeja fazer mestrado.

Por ora, os planos se concentram no casamento com Igor. Em julho, familiares e amigos de Serra do Ramalho virão a BH para a cerimônia. E os diretores Cláudio Marques e Marília Hughes estarão entre os padrinhos.

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