Estudos da Nasa trazem nova perspectiva sobre o glaucoma e a promoção da qualidade de vida

Ao longo dos anos, alguns astronautas em missão espacial voltaram à Terra com problemas de visão, o que despertou o interesse da Medicina para a busca de tratamento


Astronautas podem ser a chave para quebrar paradigmas e auxiliar na promoção da saúde humana. Pesquisa da Nasa apresenta nova forma de abordar o glaucoma, doença ocular silenciosa que compromete o nervo óptico e vai diminuindo a visão periférica do indivíduo.

Estudos constataram que profissionais que participaram de missões espaciais por mais de três meses retornaram com problemas de visão provocados por aumento da pressão intracraniana (ao redor do cérebro), o que abre nova perspectiva para a medicina. Durante anos, acreditou-se que o glaucoma era causado exclusivamente pelo aumento da pressão intraocular. Surge, então, uma abordagem diferenciada para o diagnóstico e, consequentemente, o tratamento.

“O ganho obtido pelas pesquisas espaciais é muito grande, tanto para o ser humano como para evoluções tecnológicas”, diz a coronel médica Katia Mello e Alvim, diretora do Instituto de Medicina Aeroespacial (Imae), braço da Força Aérea Brasileira (FAB). Apesar de ser um processo bastante dispendioso e nem sempre rentável, ela destaca a grande importância de se realizarem os experimentos científicos. “Devido às condições diferenciadas a que nossos corpos são expostos no espaço, é possível encontrar novas e inovadoras soluções para antigos problemas”, finaliza.
Valnice Gonçalves/Divulgação
Depois de 10 anos de perda gradual da visão, José Luiz Carneiro fez o tratamento contra o glaucoma e voltou a enxergar (foto: Valnice Gonçalves/Divulgação)


José Luiz Carneiro, de 65 anos, que o diga. Ele não é astronauta, mas passou por uma jornada que o fez repensar o futuro: o glaucoma, em conjunto com a catarata, quase o deixaram cego. Bancário aposentado e morador da cidade de Santo Antônio do Amparo, no Oeste do estado, ele foi percebendo piora gradual em sua visão nos últimos 10 anos.
Aos 19 anos, começou a usar óculos para miopia, fator de risco para o desenvolvimento de glaucoma. Aos 33, passou por uma cirurgia refrativa. Imaginou que não se preocuparia mais com os olhos, mas, aos 50, começou a perceber a visão comprometida, o que, para ele, seriam sintomas da idade e da vista cansada.

Renovou a carteira de motorista aos 55, quando ouviu da oftalmologista do Detran o alerta de que poderia haver algo mais grave. Em vez de procurar um especialista, José Luiz deixou o tempo seguir seu curso. Dez anos depois, de novo no Detran, a sentença: ao realizar outro exame para a renovação da carteira, não só perderia o direito de dirigir, como estava prestes a ficar cego. Ele nunca voltaria a enxergar. Sem esperanças, vendeu o carro e deixou de sair de casa. A visão estava tão debilitada que nem a cor do céu conseguia ver. A família demorou a perceber. “Como ele não reclamava, a gente achou que ficou mais recluso porque quis, depois que se aposentou”, diz a filha, Sabrina Carneiro.

Determinada a mudar a situação do pai, ela resolveu levá-lo ao Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães, em Belo Horizonte, onde houve a confirmação do diagnóstico. Quem o atendeu foi Rubens Grochowski, especialista em glaucoma. Felizmente, a cirurgia foi um sucesso.

Segundo o médico, é uma doença traiçoeira, pois quase não apresenta sintomas. Trata-se de uma neuropatia óptica, que vai diminuindo o campo visual do doente. “Há uma estatística que estima que 50% das pessoas afetadas não sabem que têm o problema”, alerta.

O outro lado da Lua


Quando descoberto, é tratado com colírios, laser ou cirurgia. Sebastião Cronemberger, médico titular do Departamento de Oftalmologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), esclarece que as técnicas servem para baixar a pressão intraocular e controlar o avanço da degeneração. E que, até hoje, não existe outra forma comprovadamente eficaz de lidar com a situação. Assim, voltamos para o espaço e a pesquisa da Nasa. Cronemberger atesta que estudos já estão sendo realizados nos Estados Unidos e no Brasil sobre o tema e eles apontam para um aspecto não explorado até hoje.

Graças a essas descobertas, o médico americano John Berdahl se referiu ao glaucoma como “the dark side of the moon” (o lado negro da Lua). A referência vem do fato de só vermos um lado da Lua e, durante anos, também só termos analisado um aspecto da degeneração ocular. Além disso, foram os astronautas que exploraram o outro lado, tanto do satélite natural como do glaucoma. Esse aspecto oculto, no caso da visão, é a pressão intracraniana como também possível responsável.

Em família


Os especialistas destacam a necessidade de exames periódicos com o oftalmologista e citam a ocorrência de grande prevalência do glaucoma em pessoas da mesma família. “As pessoas precisam divulgar que têm o problema, porque terão a possibilidade de melhorar a vida de um familiar”, diz Rubens Grochowski.

Esse é o caso de José Luiz. Segundo ele, seis dos 11 irmãos também sofrem de glaucoma. Ele lamenta que, apesar de saber da existência do problema e do consumo de colírios pelas irmãs, tenha deixado chegar ao ponto de quase perder completamente a visão. “Senti-me dependente e inútil”, desabafa. Agora, restabelecido, José Luiz pretende voltar a dirigir e se alegra de conseguir ver, depois de muitos anos, o azul do céu.

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