Dormir se tornou um luxo para boa parte da população

Pesquisa recente aponta que 73 milhões de brasileiros têm dificuldades para ter uma noite saudável de sono

por Otávio Augusto 25/07/2017 12:11

Minervino Junior/CB/D.A Press
Maria Eduarda Bueno, de 22 anos, toma remédio há um ano, mas não gosta: "Só uso quando estou no meu limite" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Muita gente perde o sono pensando nele. Mas, com insônia ou sem ela, dormir é um ato necessário ao organismo e intimamente ligado às condições emocionais e de estilo de vida. Há quem durma três horas e se sinta satisfeito. Os jovens boêmios acham que é perda de tempo. Os que têm poucas horas querem mais cinco minutos todas as manhãs. E existem aqueles que não dormem. O sono voltou aos holofotes nas últimas semanas com a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a produção e comercialização de um novo medicamento para insônia no Brasil. Dias antes, a Associação Brasileira do Sono fez um alerta: 36,5% dos brasileiros sofrem com o mal.

Dorme-se pouco em troca de trabalho, estudo, ascensão financeira e tantos outros motivos. A sociedade parou de valorizar o sono como um componente da qualidade de vida e se priva dele. Muitos de nós, realmente, sofrem com insônia crônica – uma doença que exige tratamento e, em casos extremos, até o uso de remédios. Mas ir para a cama e pregar o olho é um desafio cada vez maior e exige uma mudança de comportamento que pode não vir de caixas vendidas nas farmácias.

UMA LUTA NOTURNA

Rita Lee, a rainha do rock brasileiro, expressou em forma de música o quão sofrido é não dormir. A música é inspirada em “minha pessoa”, como conta a artista. Ela canta assim: Insônia, minha namorada/Insônia de madrugada/Rolando na cama, estou tão cansada/Mas ela me chama/Ai, ai, insônia.

Como na canção, 73 milhões de brasileiros, segundo estimativa da Associação Brasileira do Sono, não conseguem dormir. O número é a soma dos habitantes dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Os dois primeiros são os mais populosos do país.

Uma das pessoas nessa multidão é Maria Eduarda Bueno, de 22 anos. Formada em direito, ela administra a empresa da família e estuda para concurso. Quer seguir a carreira de policial. O combustível para a insônia dela é a ansiedade. “Lidar com a pressão do estudo e da frustração de não passar numa prova é difícil”, conta. A jovem sorridente e descontraída já ficou três noites sem dormir. “Assisti a sete episódios de uma série numa noite” – cada capítulo tem cerca de 45 minutos. E emenda: “Deito uma hora antes da hora em que eu quero dormir. Apago as luzes, tento ler. Mas, quando não é dia de dormir, não tem jeito. Quando vejo, são 5h e tenho que me levantar”, reclama.

A celeuma noturna começou há um ano e meio. Na época, Duda, como é conhecida, estava finalizando o trabalho de conclusão de curso. A situação degringolou de tal forma que a moça passou a tomar remédios. “Uma vez, parei no pronto-socorro com dores na cabeça por estar há muito tempo sem dormir. Teria que tomar remédio todos os dias, mas não gosto. Só uso quando estou no meu limite. Eu tinha noites esporádicas em que não dormia, mas isso foi se acentuando. Nunca fui de dormir muito, mas não imaginava chegar a esse nível”, explica. Para Duda, uma noite bem-dormida tem, em média, quatro horas de sono.

Duda prefere terapias alternativas. Diariamente, ingere cápsulas com extrato de maracujá. O composto homeopático é usado como tranquilizante. “Antes de dormir, a sensação do remédio não é boa. Já acordei deitada no chão e tive alucinação”, reclama.

Quando o sono não vem
Em alguns casos, a insônia aparece como causa - ela é a doença propriamente dita. Em outras situações, é consequência da manifestação de males de saúde, como a ansiedade

Mais de 11 milhões de brasileiros, o equivalente a 7,6% da população, usam medicamentos para dormir. O índice é um dos destaques da mais recente Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até o fim do ano, uma nova droga deve chegar às farmácias. A ramelteona - que será produzida por um laboratório em São Paulo - imita mecanismo de ação da melatonina, isto é, desacelera o sistema nervoso central e contribui para a regulação do ciclo natural de sono. A ação é caracterizada no iniciar do sono.

Os cientistas que desenvolveram a ramelteona garantem que a substância pode evitar os efeitos colaterais atordoantes dos medicamentos sedativos, que funcionam retardando o sistema nervoso central. Desde 2005, o medicamento é comercializado nos Estados Unidos.

A ramelteona é inspirada no funcionamento do hormônio responsável pela desaceleração do sistema nervoso central e a indução do sono, a melatonina. Em vários países, a droga é vendida há mais de uma década. No Brasil, em outubro do ano passado, uma juíza do Distrito Federal chegou a determinar que a Anvisa autorizasse a comercialização e a produção da melatonina.

A medicina elenca três tipos de insônia: a “inicial”, quando se demora a pegar no sono; a de “manutenção”, quando há interrupções; e a “terminal”, que se caracteriza pelo despertar precoce, ou seja, acorda muito antes do horário que se deve. O que ocorre é que há situações em que a insônia aparece como causa – ela é a doença propriamente dita. Já em outras, é consequência – agravos de males de saúde, como a ansiedade.

NO CONSULTÓRIO

Com mais de 20 anos de profissão, o neurologista especialista em medicina do sono Ricardo Teixeira, do Instituto do Cérebro de Brasília, faz uma estimativa do que vivencia no consultório. “De cada 10 pacientes, oito são pessoas com ansiedade, depressão - que levam à insônia -, e duas com apneia e outros distúrbios do sono. Dorme-se pouco voluntaria e involuntariamente”, explica.

Para o tratamento de qualquer um dos casos, os médicos apostam na higiene do sono. O apelo para as drogas é tido como saudável somente em casos extremos. “O grande problema dos remédios para dormir é que eles são fáceis de introduzir e difíceis de ser retirados. Não é recomendado tratamento extenso. Fico espantado quando ouço histórias de gente que toma esse tipo de droga há 10 anos”, critica Geraldo Lorenzi, diretor do Laboratório do Sono do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Há, porém, quem defenda uma análise menos ortodoxa. “O homem moderno veste roupa, mora em casa, usa óculos e, por vezes, precisa se valer de medicações para consertar determinadas situações. Por isso, o remédio deve ser melhor tolerado”, defende Almir Ribeiro Tavares, coordenador do Departamento de Medicina do Sono da Associação Brasileira de Psiquiatria. Apesar da naturalidade com que o médico trata o assunto, há quem já sofreu preconceito por usar esse tipo de medicamento (leia depoimento).

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Sidneide de Sousa Moares acorda várias vezes durante a noite, mas prefere não fazer uso de medicamento (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Apesar de ter dificuldades para manter o sono, a dona de casa Sidneide de Sousa Moraes, de 64 anos, não quer saber de remédios. “Há quem fica viciado e quem tem complicações. Prefiro não usar.” Entretanto, acorda várias vezes durante a noite e tem o sono muito “leve”. O preço por não investir num tratamento medicamentoso é alto. “Não consigo relaxar. Se tiver cansada, sinto mais dificuldade”, conta. Logo no início da entrevista, ela destacou que, naquela noite, havia dormido apenas três horas. “Acordo durante o sono e parece que eu dormi bastante, mas ainda é madrugada”, detalha.

Experiência totalmente oposta da bancária aposentada Eneida Embiruçu Caldas Almeida, de 50. Há 12 anos, ela não dorme sem remédio para induzir o sono. “Comecei a ter insônia na adolescência. Acordava no meio da noite e não voltava a dormir. Depois, isso se agravou com um quadro de depressão”, conta.


A aposentada já sofreu com efeitos colaterais, mas não abre mão da ajuda. “Já fiquei sonolenta o dia todo, por exemplo. Uma vez, tomei o comprimido, conversei com meu marido e no outro dia não me lembrei nada que falei.” Atualmente, Eneida dorme por volta das 2h.

Dúvidas comuns

Exercício antes de dormir ajuda ou atrapalha?

Estudos recentes indicam que, ao contrário do que se imaginava, praticar atividades físicas leves ou moderadas antes de dormir não atrapalha o sono. Até ajuda a relaxar depois de um dia estressante de trabalho. É o que sugere pesquisa da Fundação Nacional do Sono, maior instituição americana dedicada a investigações nessa área. Mas isso vale apenas para pessoas saudáveis. O intervalo entre a malhação e os lençóis deve ser de, no mínimo, três horas. Menos que isso, é possível que o estado de agitação provocado pelo exercício dificulte o embalo no sono.

Qual o melhor dia para dormir?

As noites de domingo são as piores para dormir. Pelo menos é o que diz uma pesquisa realizada no fim do ano passado. O levantamento ouviu 4.279 americanos e britânicos e, desses participantes, 49% disseram que o domingo é a pior noite da semana para dormir. Em segundo lugar veio a combalida segunda-feira, com 17% dos votos. A noite de quinta-feira foi eleita como a melhor para dormir. Com apenas 5% dos entrevistados apresentando insônia durante a noite.

Depoimento
Preconceito no trabalho

“Fui diagnosticada com depressão grave e síndrome do pânico em 2014. Na ocasião, o médico da emergência me disse para procurar um hospital psiquiátrico, pois só poderia me dar o atestado para aquele dia e a receita para um antidepressivo. Tirei licença médica por 15 dias e, em seguida, 30 dias de férias. Depois desse período de afastamento, pedi demissão da empresa em que trabalhava e consegui outro emprego. Após ser aprovada no processo seletivo, durante o exame admissional o médico não recomendou minha contratação porque eu usava antidepressivos e remédios para dormir. Ele disse que eu era depressiva e não poderia desempenhar um bom trabalho. Meu futuro chefe - um anjo - brigou pela minha contratação e garantiu ao RH que eu estava apta para a função. Só descobri isso no meu primeiro dia de trabalho. Em 2015, já em outra empresa, minha coordenadora direta soube desse problema de saúde e comentou com uma colega que eu usava remédio controlado e, por isso, era muito desorganizada. Ou seja, usou um problema de saúde meu, um fato íntimo, para desqualificar meu trabalho. Pessoas com depressão, ansiedade e síndrome do pânico sofrem preconceito e assédio moral. Senti isso na pele. Não é fácil. Mas venho aprendendo muito com todas essas experiências, boas ou ruins.”

* A assessora parlamentar, de 32 anos, preferiu não se identificar

Rotina para dormir
A Academia Americana de Medicina do Sono considera como período ideal sete a oito horas por dia. Menos que isso, há graves danos ao sistema imunológico e risco à saúde

Quem conhece a cantora Geórgia W. Alô, de 43 anos, estranha a reclamação de noites maldormidas. Ela era o tipo de gente que “onde encosta, dorme”, como caçoa o ditado popular. Contudo, as noites já não são as mesmas. Há três anos, Geórgia está em crise com os lençóis. Acorda várias vezes à noite, tem sono inquieto e se irrita na tentativa de dormir. “A sensação que tenho é de que vivo em estado de cansaço extremo. Físico e mental.”

A falta de rotina, chamada de higiene do sono por médicos, é o que atrapalha a cantora. “Durmo tarde. Isso deixa as coisas ainda mais difíceis”, assume. O encontro de Geórgia e a cama não ocorre antes da 1h da madrugada. O mea-culpa é ancorado em avaliações médicas. “Já me receitaram remédios, recomendaram fazer exercícios físicos e a organizar meus hábitos. Apostei em chás e na homeopatia, mas nada trouxe resultado.”

Para frear os prejuízos da insônia, Geórgia vai passar por uma polissonografia, exame usado para a investigação de vários distúrbios do sono. “Em alguns momentos, cheguei a ir para a sala, sentar no sofá e chorar a madrugada inteira. O corpo está cansado, a mente está cansada e você não consegue dormir. Isso gera um desespero enorme. Interfere na minha voz, fico irritada e tenho lapsos de memória”, conta. Ela desconfia que, aliado ao cotidiano desregrado, a oscilação do ciclo pré-menopausa pode ter influenciado o sono.

Carlos Vieira/CB/D.A Press
"A sensação que eu tenho é que vivo em estado de cansaço extremo. Físico e mental" - Geórgia W. Alô, cantora (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Geórgia está enveredando pelo caminho correto, diz Geraldo Lorenzi, diretor do Laboratório do Sono do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “É preciso manter horários regulares, não tomar bebidas cafeinadas, desligar celular e relaxar uma hora antes do sono. Temos que criar condições psicológicas para dormir. Não é desligar a luz e dormir”, explica.

As míseras quatro horas de sono de Geórgia estão longe do ideal. Há poucas semanas, a Academia Americana de Medicina do Sono voltou a reafirmar que o período ideal é de sete a oito horas. Menos que isso, há graves danos ao sistema imunológico, aumento das chances de doenças cardiovasculares e de obesidade. “Diversas funções ocorrem durante o sono, como a liberação de alguns hormônios e as conexões neurocerebrais que ocorrem quando se está dormindo. Não é um estágio de hibernação. O sono ruim deixa o organismo mais vulnerável”, reforça Luciane Mello, coordenadora do Ambulatório do Ronco e Apneia do Hospital Federal da Lagoa (RJ).

• Consequência da vida moderna

Os efeitos colaterais da modernidade impõem duras penas às noites de descanso. A quantidade de gente que não consegue relaxar avoluma a cada dia - alguns médicos arriscam dizer que aceleradamente. “As pessoas são estimuladas a conquistar outros mundos. Acho que cada vez mais vai haver mudanças induzindo o homem a não dormir”, pondera Almir Ribeiro Tavares, coordenador do Departamento de Medicina do Sono da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Médicos especialistas fomentam a necessidade da mudança de comportamento e de como a sociedade contemporânea está tratando o sono. “Paramos de valorizar o sono. Ele não é visto como um benefício essencial, que faz parte da qualidade de vida. Um erro que pode ocasionar muitos prejuízos.”

Insatisfação no emprego, desgaste no relacionamento amoroso, barulho, estresse, falta de tempo e uma série de outros contratempos do cotidiano atrapalham a relação edredom-travesseiro-cama. “Vivemos com tablet, celular, computador e televisão emitindo luzes dentro do quarto de dormir. Comemos mal, fazemos pouco ou nenhum exercício. A situação é preocupante. A qualidade do sono está cada vez pior. A privação de sono é porta de entrada, por exemplo, para todas as doenças psicológicas”, alerta Almir.

Além dos agravos, distúrbios do sono, como apneia (falha da respiração enquanto se dorme), paralisia do sono (falta de mobilidade do corpo por um momento, normalmente ao acordar), síndrome das pernas inquietas (desconforto que leva a uma necessidade compulsiva de mexê-las), sonambulismo, terror noturno (movimentos anormais durante o sono, como gritos e desespero), entre outras, estão entre os mais corriqueiros. “Temos que nos preocupar com a quantidade, mas também com a qualidade do sono. Os dois aspectos estão prejudicados.”

SAIBA MAIS
Luminosidade atrapalha

A luz das telas de aparelhos eletrônicos, como tablets e celulares, pode causar insônia. É que a luminosidade alta prejudica na hora de dormir, já que compromete a produção do hormônio responsável pelo sono. Segundo especialistas, quem avisa ao cérebro que é hora de dormir é um hormônio chamado melatonina, que relaxa o corpo e induz ao sono. A produção dele é prejudicada pela presença de luminosidade. A recomendação é que o uso desses equipamentos seja interrompido uma hora antes de ir para a cama.

Dicas para uma boa noite de sono

» Fixar um horário certo de ir para a cama e de acordar » Evitar dormir durante o dia

» Evitar o consumo de bebidas alcoólicas por, no mínimo, seis horas antes de dormir

» Fugir das refeições pesadas antes de dormir e evitar o uso de bebidas estimulantes, como café, chá-preto, verde ou mate e energéticos por no mínimo seis horas antes de dormir

» Melhorar o ambiente do sono. O quarto em que se dorme deve ser confortável, silencioso, escuro e com temperatura adequada

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