Ouvir é diferente de escutar: processo pode ser aprimorado com exercícios desafiadores

Novas técnicas melhoram as habilidades auditivas do cérebro

por Lilian Monteiro 25/05/2017 15:18
Reprodução/Internet/F5 Notícias
(foto: Reprodução/Internet/F5 Notícias)

Fique atento aos sinais. Quando começar a fazer muito “hã?” durante uma conversa, pedir para aumentar o volume da TV ou do rádio ou quando tiver mais de uma pessoa falando e você não conseguir compreender o que está sendo dito, principalmente numa situação de ruído, ligue o sinal de alerta porque pode ser perda auditiva. É possível treinar o cérebro para escutar melhor? Partindo do princípio que a parte do nosso sistema que ouve é o ouvido e a que escuta é o cérebro, é possível sim treinar o cérebro a escutar melhor, uma vez que, ao ser estimulado, ele pode aumentar suas conexões e criar novas redes neuronais. Quem garante é a fonoaudióloga Katya Freire, especialista em audiologia.

“No entanto, esse aprendizado ocorrerá sempre que existir um desafio e repetição de estímulos. O pulo do gato para fazer o cérebro escutar melhor é propor exercícios que tenham desafio e repetição. É como alguém que vai à academia e deseja aumentar seus músculos e atingir um bom condicionamento. É necessário desafiar a intensidade dos exercícios e ir aumentando o nível de dificuldade, conforme seu desempenho”.

A fonoaudióloga explica que para garantir um bom processo de escuta é preciso que a engrenagem da audição esteja funcionando em perfeito estado. Isso inclui a parte que chamam de sistema periférico, que tem a cóclea, órgão onde estão situadas as células auditivas sensoriais, responsáveis pelo “ouvir”; o sistema central, onde estão situadas todas as áreas do cérebro que são responsáveis pelo “escutar” e, por fim, é necessário ter muita atenção, intenção, memória e linguagem. “Somente com o perfeito funcionamento dessa engrenagem é que se pode ter uma compreensão satisfatória da fala. O processo de 'escuta' pode ser aprimorado por meio de muitos exercícios desafiadores, que podem melhorar as habilidades auditivas do cérebro. Justamente com o objetivo de treinar o cérebro a escutar melhor é que foi desenvolvido o Treinamento Auditivo Musical (T.A.M.).”

Audicare/Divulgação
Método ajuda a treinar o cérebro para escutar melhor por meio de desafios e repetições (foto: Audicare/Divulgação)
Katya Freire conta que o T.A.M. foi idealizado para ajudar, principalmente, as pessoas que ouvem, mas não entendem a mensagem, ou que têm alterações das habilidades auditivas do cérebro. “Para isso, foram desenvolvidos oito exercícios com mais de 1.300 variações, que desafiam o cérebro a cada nível de dificuldade. O T.A.M. é composto por sons instrumentais, música e imagens que, com a estimulação e interação de várias áreas do cérebro, como auditivas, motoras e visuais, irão propiciar uma melhora das habilidades auditivas. Para cada exercício, existem vários níveis de dificuldade a serem treinados e superados, tudo de forma randomizada e interativa, visando sempre desafiar o cérebro e a escuta. O T.A.M. tem um datalloging que irá registrar todo o desempenho dos exercícios feitos, a fim de que o profissional, ou o próprio paciente possam acompanhar a evolução do desempenho das atividades”, explica.

A fonoaudióloga informa que o desenvolvimento do T.A.M foi baseado em sua tese de doutorado, intitulada “Treinamento Auditivo Musical: uma proposta para idosos usuários de próteses auditivas”, defendida na Unifesp, em 2009, e inicialmente lançado em sete DVD’s. Agora, já há a segunda versão do T.A.M., totalmente on-line e interativa. O usuário pode treinar o cérebro a escutar melhor dentro de casa, no seu computador ou até mesmo em consultório ou escola, com o acompanhamento de um profissional.

A fonoaudióloga diz que ouvir é diferente de escutar. “Ouvir é um mecanismo passivo, que dá acesso apenas ao sinal de fala ou música. E o escutar é um mecanismo ativo, que depende de atenção e intenção do ouvinte. Quando realmente escutamos, temos a compreensão de todo o conteúdo que foi apresentado. E, não fazemos a famosa 'cara de paisagem', com apenas cara de conteúdo, fingindo que escutou.”

DEPRESSÃO

Katya Freire enfatiza que uma das maiores queixas dos pacientes no processo de reabilitação auditiva é o tipo de material utilizado pelos profissionais. Por exemplo, nos casos em que a pessoa tenha muita dificuldade de compreender a fala no ruído, faz-se necessário a realização dos exercícios com outra estimulação, diferentes da fala e do ruído, pois é exatamente nessas situações que existe a dificuldade. “Na minha pesquisa, foi constatada a relevância e eficácia de utilizar a música para atingir a percepção de fala, uma vez que existem áreas do cérebro que são comuns tanto para a fala, como para a música. Sendo assim, um grande diferencial do T.A.M é utilizar apenas sons instrumentais e arranjos musicais que são muito mais prazerosos para estimular as mesmas áreas da percepção de fala, do que usar um ruído de fundo competitivo com sons de fala.”

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Clique para ampliar (foto: Audicare/Divulgação)

O T.A.M, conforme Katya Freire, é indicado para crianças acima de 7 anos, adultos e idosos, com ou sem perda auditiva, pessoas com alteração de Processamento Auditivo Central (PAC), usuários de próteses auditivas, implantes cocleares, pessoas com dificuldade de foco e atenção, estudantes e amantes da música ou simplesmente quem deseja aprimorar o cérebro a escutar. A fonoaudióloga conta que por causa do T.A.M, fruto da sua tese de doutorado, foi premiada quando apresentada no 18º Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia, em Curitiba, em 2010. “A perda auditiva é um problema de saúde pública, em que temos quase 10 milhões de brasileiros sofrendo com esse problema por diversas causas. O ruído é o grande vilão da atualidade, sendo o grande causador até mesmo em jovens, com perdas auditivas induzidas por ruído. Além do que temos muitos idosos com a presbiacusia, envelhecimento do sistema auditivo. Com a ocorrência da perda auditiva, perde- se o 'ouvir' e, com isso, consequentemente, temos muitos problemas do 'escutar', que são consequências diretas da lesão das células auditivas, independentemente da causa.  Com o T.A.M. trabalha-se diretamente nas alterações auditivas do cérebro (o 'escutar'), evitando as consequências psicossociais da deficiência auditiva, como isolamento social, frustração e até mesmo depressão.”

DEPOIMENTO
G.T, de 86 anos*

“Meu otorrino indicou o uso de próteses auditivas e fui encaminhado para a Katya Freire para fazer adaptação e a avaliação. Ela recomendou o T.A.M para eu fazer uma vez por semana, por uma hora. Após oito semanas praticando,melhorou muito a minha capacidade de detectar os sons, principalmente na orelha esquerda, a que mais apresentava dificuldade. Agora consigo escutar melhor com o aparelho a fala e identifico melhor os sons. Comecei a compreender mais rapidamente as informações. O resultado me surpreendeu e resolvemos aumentar a frequência, comecei a praticar todo dia.”

* O personagem não quis se identificar

COMO TER ACESSO AO T.A.M

Basta acessar o site www.treinamentoauditivomusical. com.br e fazer uma assinatura. Lá há opções de planos para uso pessoal ou para profissionais, que queiram utilizar e fornecer o T.A.M. em sua clínica. O acompanhamento pode ser feito pelo próprio usuário por meio do datalogging no site ou por um profissional/fonoaudiólogo cadastrado. Para o acesso pessoal anual, o investimento é de R$ 380, o equivalente a R$ 31,60 por mês.

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