Site dá importantes dicas para quem assume a criação dos filhos

A experiência de pai solteiro levou Rafael Andrade a fundar o Sem Choro, voltado para pais e mães que, na nova sociedade, encaram o desafio de participar

por Lilian Monteiro 02/05/2017 14:09
Frederico Mucceli/Divulgação
Rafael Andrade faz questão de ser presente em todos os momentos da vida do filho João, de 9 anos (foto: Frederico Mucceli/Divulgação)

O que é ser pai? Se para a maioria das mulheres esse papel é intrínseco à sua existência, para o homem é uma descoberta. Um aprendizado para aqueles que se propõem a assumir um protagonismo que, na maioria das vezes, infelizmente (oxalá a sociedade está mudando!), não é encarado como natural. Isso porque barreiras absurdas foram criadas e impostas pela sociedade, que vão desde machismo, preconceito, falta de interesse e compartilhamento do homem, proteção excessiva da mulher, e você pode aumentar essa lista o quanto quiser. A boa notícia é que tudo muda e, apesar dos obstáculos, muitos pais decidiram ter voz ativa e participam ativamente da criação dos filhos, quando não são eles os verdadeiros criadores.


Se ainda não é tão comum, é certo que vivemos uma nova paternidade. Rafael Andrade, de 32 anos, é um exemplo. Fundador do site Sem Choro, empreendedor, diretor da Agência iMAGON, foi pai solteiro de João, de 9, e, agora com uma família, espera a chegada de Marcelo, em setembro, ao lado da mulher, Izabela Loureiro.

Rafael conta que se separou da mãe biológica do João quanto ele tinha pouco mais de 1 ano. E mesmo durante esse tempo as principais tarefas, em sua grande maioria, foram feitas por ele. “Consultas, levar e buscar da escola, colocar para dormir, acordar à noite, ler história, trocar fralda... Depois da separação, voltei a morar com minha mãe e dois irmãos e, apesar de ter auxílio e ajuda, continuei com todas as principais tarefas. Com o tempo, decidi entrar com a ação na Justiça pedindo a guarda legal. E em 5 de agosto de 2011, eu passei a ter a guarda individual dele.”

Izabela surgiu na vida de Rafael quando João tinha 1 ano e 8 meses. “A Bela se tornou uma espécie de 'pai de fim de semana', suprindo uma necessidade de uma figura materna com amor e carinho. Nos casamos no dia do aniversário dele de 5 anos e esse apego naturalmente só aumentou. Hoje, as principais tarefas continuam sendo exercidas por mim, mas de fato não sou mais pai solteiro. Como ela gosta de dizer para o João: “Não te carreguei na barriga durante nove meses, mas vou te carregar pra sempre no meu coração”.

Rafael conta que João tem TDAH, o que aumenta muito o desafio da criação e o faz estudar sobre esse transtorno para saber como lidar no dia a dia e como auxiliá-lo nas questões em que ele tem mais dificuldade. “Minha mulher é pediatra e ajudou muito no diagnóstico precoce da doença. Como não tinha contato com outras crianças na época, não conseguia identificar as dificuldades e atrasos que ele apresentava com 2/3 anos. O TDAH me deixa sempre apreensivo sobre o futuro. Envolve muitos desafios psicológicos, bullying na escola, dificuldade de aprendizado... Não tem como se preparar. Cada criança é de um jeito e elas não vêm com manual. Meu segundo filho nasce em setembro e não me lembro de mais nada sobre bebês. Será, sem dúvida, um novo desafio”, diz.

Os ganhos da paternidade para Rafael foram gigantescos. Inclusive, a percepção do que é ser pai e mãe. “O que mudou bastante foi minha visão de mãe. Os ditados mais famosos sobre mãe e pai são: 'Mãe é mãe' e 'Pai é quem cria'. Esses ditados foram desconstruídos pela minha experiência. Tanto o pai quanto a mãe só terão o respeito e o amor do seu filho conquistado no dia a dia, na criação. Adaptei o ditado para: 'Mãe e pai é quem cria'.”

Arquivo Pessoal
(foto: Arquivo Pessoal)

Filho, para os pais, é sinônimo de tanto amor que dói. Rafael se lembra de que João lhe fez uma pergunta parecida um dia desses em um restaurante. “'Pai, como é ter um filho?' Eu achei graça da pergunta. Mas respondi apenas com: 'É ter força e motivação todos os dias para ser um bom exemplo'.”

Em sua história ao lado de João, Rafael diz que a mais emocionante talvez tenha sido a do parto. Momento que não consegue resumir, mas que contou com detalhes no site Sem Choro e pode se emocionar no link www.semchoro.com.br/blog/ele-nao-chorou. Mas uma bem engraçada foi quando João tinha 7 anos. “Estávamos indo para a escola e, após algum longo silêncio, ele perguntou com voz séria: – Pai, qual o seu maior medo? Após alguns segundos de reflexão, respondi: – De perder minha família. Principalmente você e a Bebela. Em seguida, o silêncio se prolongou e logo me arrependi da resposta. 'Onde eu estava com a cabeça? Traumatizei o menino! Passei meu medo pra ele,' pensei. Quebrando o silêncio, ele perguntou, ainda bem sério: – Sabe qual é o meu maior medo? – Não, João. Qual é o seu maior medo? – Meu maior medo é de ganso! Ganso é muito perigoso! Esses momentos, essas histórias, são de uma riqueza que não tem preço.”

PRECONCEITO

Rafael se preocupa, atua, se impõe contra o preconceito em relação ao protagonismo do pai. O mundo é instituído como mãe criando filho. Mas já não é bem assim. “Hoje, a paternidade está começando a ser vista de uma forma diferente, assim como o papel da mulher. Passei por situações embaraçosas e curiosas durante toda a vida do João. Na maternidade não existia banheiro masculino. Em restaurantes, o trocador na maioria das vezes fica no banheiro feminino. Esse tipo de situação está mudando lentamente. Essa geração de pai descobriu o prazer que é acompanhar os passos do filho. Meu pai não passou por isso como pai por trabalhar fora, e hoje faz questão de estar presente em cada momento na vida dos netos. Ainda é um modelo novo de família, mas já é uma realidade. Eu me tornei um cara muito mais sensível depois de ser pai. E não tenho vergonha de afirmar que sou capaz de me emocionar com um simples bilhete ou uma nota alta em uma matéria que o João tem dificuldade.” Para Rafael, esse novo modelo é um caminho natural. “E se posso dar uma dica aos pais é: assuma esse papel que é sua função. É muito difícil. Muito mesmo. Mas é emocionante e não tem preço”, afirma.

Sem choro

A ideia de Rafael Andrade criar o site Sem Choro foi em 2011. Ele passava o carnaval em Belo Horizonte e todos os dias ele ia a algum restaurante com um amigo e o João. “Não conseguia encontrar informações na internet de restaurantes que tinha espaço kids. Tinha que procurar na rua mesmo. A ideia inicial era apenas compartilhar com pais e mães informações de bares e restaurantes que tinham espaço para as crianças. Hoje, o Sem Choro é um espaço que reúne inúmeras informações úteis para pais, mães, tios, avós, irmãos e todos aqueles que têm por perto uma criança com a sua inesgotável energia.” Assim, nasceu uma espécie de guia.

Palavra de especialista
Carla Ribeiro, psicóloga clínica e hospitalar voltada para a saúde do homem

“Não tem quem faz melhor, e sim quem quer fazer”


“A maioria das mulheres acredita que são as maiores responsáveis pela criação dos filhos e ofuscam o trabalho dos pais. Ainda que um filho seja responsabilidade de ambos, pela capacidade atribuída à mulher de gerar um bebê, a sociedade passa todas as dúvidas e preocupações à mãe e deixa o pai em segundo plano. Na maioria das vezes, a própria mãe faz com que o papel do pai seja menos visto. E isso não é verdade. Alguns pais veem a necessidade de responder prontamente às questões referentes ao bebê junto com a mãe. Mas a maioria acredita que a mãe é o personagem mais importante. A mulher já pode até nascer com o instinto materno, mas o pai pensa muito sobre as necessidades que a criança terá em relação ao seu papel. E homens modernos querem desenvolvê-lo.

A figura da mulher, como mãe principalmente, é vista como o ser que oferece o corpo para o desenvolvimento e o alimento para o crescimento da criança. A amamentação natural possibilita apenas à mulher esse contato com o filho, mas ela pode ocorrer com o pai. Seja amamentando com a mamadeira ou participando com a mãe da amamentação pegando na mão da criança, fazendo carinho, e pelo toque, por exemplo, fazer com que ela perceba que existe uma terceira pessoa, que é o pai. O pai deve fazer atividades com o bebê para que ele perceba que essa necessidade e dependência que tem com a mãe acaba com o tempo. Isso irá moldar um adulto independente, seguro de si e forte emocionalmente. A mulher tem a ideia errônea de que ela sabe fazer tudo melhor, o que gera nela um estresse, cansaço e esgotamento maiores, que passam para o casamento e para o bebê. O pai tem a mesma preocupação que a mãe. Infelizmente, não é um movimento de todos, já que os próprios pais se deixam inibir pelo pensamento imposto de 'a mulher faz melhor', mas não tem quem faz melhor, e sim quem quer fazer.”

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