Segunda infecção por Aedes aegypti pode agravar o quadro clínico

Pesquisa mostra que paciente pode desencadear manifestações neurológicas, como a síndrome de Guillain-Barré

por Paloma Oliveto 21/11/2016 14:00

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Isadora Siqueira / Divulgação
Médico da equipe da infectologista Isadora Siqueira analisa exames neurológicos de paciente de zika no Hospital Roberto Santos, na capital baiana (foto: Isadora Siqueira / Divulgação )
Em maio do ano passado, a infectologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz da Bahia Isadora Siqueira começou a receber pacientes em dois hospitais de Salvador com estranhas manifestações neurológicas. Até agosto, ela atenderia 21 pessoas que, além de sintomas como movimento anormal dos olhos e descoordenação motora, tinham em comum a suspeita de terem sido alvo de alguma doença transmitida pelo Aedes aegypt. Naqueles quatro meses, a cidade registrou um surto tríplice de dengue, zika e chicungunha. A cientista desconfiou que havia uma relação entre essas ocorrências. Ela estava certa.

Amanhã, no congresso anual da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene, Isadora Siqueira vai apresentar um trabalho que sugere que as manifestações neurológicas podem estar relacionadas a uma infecção prévia. Uma pessoa que já teve dengue e que, depois, é infectada por zika ou chicungunha — ou mesmo é coinfectada (leia mais ao lado) — estaria mais sujeita a desenvolver problemas neurológicos, como síndrome de Guillain-Barré. Além dessa enfermidade, o grupo de pesquisadores de Salvador, coordenados pela infectologista, detectou duas doenças raríssimas, também associadas aos arbovírus: a síndrome de opsoclonus-mioclonus (OMS) e a encefalomielite disseminada aguda (Adem).

Isadora Siqueira conta que 13 dos 21 pacientes atendidos durante o surto tríplice na Bahia apresentaram sintomas de Guillain-Barré, três tiveram encefalite, dois mielite, dois OMS e um Adem. O quadro que ela considera mais interessante, e que será tema de um estudo de caso a ser publicado, é o de um paciente de opsoclonus-mioclonus, doença que provoca movimentação anormal dos olhos. Ele não só teve dengue e chicungunha, como foi infectado pelos dois vírus ao mesmo tempo.

Os exames sorológicos mostraram que apenas seis pessoas com sintomas neurológicos não apresentavam anticorpos para os três arbovírus. A cientista, porém, não descarta que elas também tenham sido infectadas. “Os métodos de detecção que existem ainda não são os melhores possíveis. O fato de os exames não terem dado positivo não quer dizer muito”, afirma.

Epidemia
Isadora destaca o caráter atípico da epidemia do ano passado. “Naquele momento (entre maio e agosto), estava tendo muitos casos das três doenças. Mas não era uma epidemia de zika, não era uma de dengue e uma de chicungunha. Era uma epidemia concomitante, de zika, dengue e chicungunha”, lembra. “Os três vírus estavam circulando ao mesmo tempo; algumas pessoas tiveram duas ou três infecções no mesmo período”, diz.

Segundo a médica, muitos pacientes, ao serem examinados, diziam que, pouco antes de os novos sintomas surgirem, haviam tido febre, melhorado, e sentido tudo de novo. Isso sugere que foram infectados por um vírus, sarado e vitimados por outro. Em agosto, houve o último caso de doenças neurológicas atípicas — justamente quando os surtos estavam no fim.

O quebra-cabeça das arboviroses ainda não foi totalmente solucionado pelos cientistas, mas há algumas teorias mais prováveis para explicar as complexas consequências que vêm sendo observadas desde que zika e chicungunha passaram a circular pelo mundo. A pesquisadora da Fiocruz explica que, provavelmente, o que ocorreu com os pacientes estudados foi uma reação autoimune, semelhante à dengue hemorrágica. “Quando a pessoa tem dengue uma vez, por exemplo, ela pode ser benigna. Mas se essa mesma pessoa tem dengue duas, três vezes, isso já aumenta a gravidade porque o organismo começa a produzir muitos anticorpos. Imaginamos que esteja acontecendo o mesmo com essas doenças, principalmente no caso de dengue e zika, que são vírus muito parecidos”, diz.

O organismo, para se proteger, desencadeia uma resposta exagerada e acaba por se prejudicar. Segundo Isadora, esses anticorpos produzidos afetam especialmente as células do sistema nervoso central, o que explica o fato de os pacientes apresentarem síndromes neurológicas. Porém, diferentemente dos fetos de gestantes infectadas por zika, cujos cérebros em desenvolvimento são permanentemente prejudicados pelo vírus, os casos acompanhados pela equipe da Bahia foram todos reversíveis e não houve sequelas.

Vacina

Trabalhos que associam uma infecção anterior de dengue a consequências mais graves em uma segunda infecção, por zika ou chicungunha, têm levantado dúvidas se é seguro tomar vacina contra a dengue — afinal, ao fazê-lo, a pessoa está incentivando o organismo a produzir anticorpos que, teoricamente, poderiam potencializar o efeito dos demais vírus. O infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, não recomenda, por exemplo, que gestantes façam essa imunização.

“Tem um estudo muito inicial do Rio de Janeiro que mostra que mulheres infectadas por zika durante a gravidez e que transmitiram a infecção para seu feto, 88% delas tinham anticorpo contra a dengue. As que não transmitiram, ou seja, tiveram zika comprovadamente durante a gravidez, mas não transmitiram para o feto, só 9% tinham anticorpo de dengue. É uma evidência inicial, não vou dizer que é uma evidência científica estabelecida, mas é um dado que precisa ser levado em consideração. Esse é um campo que precisa ser muito melhor estudado”, diz. Isadora Siqueira ressalta, porém, que o estudo baiano apresentado nos Estados Unidos não investigou essa relação da vacina com risco de complicações neurológicas.

Contágio simultâneo
Outro estudo apresentado no congresso da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene indicou que o mosquito Aedes aegypt é capaz de carregar os vírus zika e chicungunha simultaneamente e infectar humanos com as duas doenças ao mesmo tempo. O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Colorado, que investigam o que ocorre com o mosquito quando ele encontra mais de um arbovírus ao mesmo tempo.

Em um experimento controlado, o cientista Greg Ebel permitiu que o mosquito se alimentasse de amostras de sangue contaminadas com dengue, chicungunha ou zika, tanto individualmente ou contendo mais de um vírus. Até agora, os testes mostram fortes evidências de que o Aedes é capaz de transmitir zika e chicungunha ao mesmo tempo, algo que ainda não havia sido confirmado antes, dado à chegada recente do zika nas Américas.

“A saliva do mosquito claramente testou positivo para os dois vírus, o que poderia significar que pessoas picadas por ele podem ser infectadas por ambos ao mesmo tempo”, disse Claudia Rückert, pesquisadora que apresentou os resultados do trabalho no congresso. Não está claro, porém, se os mosquitos carregam os três vírus concomitantemente. Um estudo prévio, porém, também conduzido em ambiente controlado, descobriu que o Aedes pode levar dengue e chikungunha simultaneamente, observação confirmada pela equipe da Universidade Estadual do Colorado.

No mundo real, fora do ambiente de laboratório, um estudo feito na Nicarágua revelou que um em cinco pacientes que testam positivo para dengue, chikungunha ou zika também têm uma coinfecção com pelo menos um dos outros dois vírus. Alguns chegam ter anticorpos para os três. “Precisamos entender mais o que acontece tanto nos mosquitos quanto nas pessoas quando todos esses vírus estão circulando muito próximo”, diz Rückert.

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