Nem líquidos nem românticos: amores de hoje não se encaixam em fórmulas

O fato de que já não existe um modelo ideal de relacionamento afetivo não significa que o mundo ama menos. Cada encontro é único e cada par acha o seu jeito de expressar os sentimentos

por Juliana Contaifer 17/10/2016 16:00

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	Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press
Pedro Araújo e Fernanda Jardim (foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press)
“Na hora de cantar, todo mundo enche o peito nas boates, levanta os braços, sorri e dispara: ‘Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também’. No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração ‘tribalista’ se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição.” O texto, popular nas redes sociais (e que já foi creditado a Paulo Coelho e até a Arnaldo Jabor), chama a atenção para a modernidade dos relacionamentos. Muito se fala sobre falta de compromisso, sobre desapego.

Em tempos de Tinder e Happn, quando se escolhe um futuro parceiro pelas fotos estilosas e não pelos interesses em comum, as pessoas estão perdidas. São muitas as opções, falta coragem ou abertura para dizer o que se sente e é difícil encontrar o tom certo em conversas virtuais — é mais fácil fingir que não se está nem aí.

A teoria do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre o amor atual ser líquido é uma das mais comentadas e respeitadas quando o assunto é relacionamento moderno. Seria algo fluido, rápido, que dura pouco. “Ele acredita que a facilidade que as tecnologias do mundo globalizado trouxeram são transportadas para as relações e que as pessoas acabam tratando umas às outras como mercadorias: têm um tempo de vida útil e, no surgimento de algo mais interessante ou diante de alguma pequena insatisfação, são descartadas”, explica a escritora e pesquisadora Laura Pires, especializada em amor e relacionamentos.

Para a coach de relacionamentos Miria Kutcher, que tem um trabalho voltado para o aconselhamento de mulheres, a ideia de Bauman é que falta densidade e profundidade. “É algo marcado por uma característica da época em que vivemos: as coisas vão passando; as marcas não são tão intensas; as pessoas não se jogam mais da mesma forma. Acho que é algo que tem dois lados”, afirma.  

E qual seria a outra face? O sociólogo britânico Anthony Giddens afirma que a liquidez tem, sim, uma parcela positiva. Com toda a liberdade e cada vez mais longe da pressão de se casar e formar logo uma família, é possível encontrar alguém realmente especial. Segundo Laura Pires, nos relacionamentos modernos, as pessoas “não ficam presas a relações insatisfatórias, pois se sentem no direito de ir em busca de algo melhor quando alguma coisa não estiver dando certo”.

A coach Miria Kutcher recorre ao exemplo de um filme para ilustrar a mudança ocorrida nas últimas décadas. Em Mensagem para você, Meg Ryan e Tom Hanks se apaixonam trocando e-mails. Sofriam com a espera da resposta. Animavam-se com o barulhinho da mensagem. Suspense. “Hoje, anos depois, quanta coisa mudou. E uma das inovações está na tecnologia, no fácil acesso em conhecer pessoas do outro lado do mundo. O jogo de um relacionamento hoje é muito diferente. A mulher tem que ter uma agilidade inicial muito mais dinâmica, com uma participação muito mais ativa do que no passado, quando ela só ficava esperando o parceiro convidar, propor”, analisa.

Os coaches de relacionamento Mariana Viktor e Marco Antonio Beck, criadores do Eu & Nós, o primeiro site de relacionamentos do Brasil, contam que, líquidas ou não, relações positivas são aquelas em que as pessoas estão bem consigo mesmas. “A não realização dos próprios potenciais acarretará na ‘liquefação’ de relações que poderiam dar certo, porque a pessoa projeta no outro a causa de sua sensação de vazio e infelicidade”, ponderam.

Um dos maiores problemas que a geração chamada de Y, ou millennials (nascida entre a metade da década de 1980 e meados dos anos 1990), vem vivendo no quesito relacionamentos é a redefinição do que é de fato um relacionamento de sucesso. Nesse teste em busca da relação ideal, os encontros vão se tornando efêmeros. “Pode ser uma coisa ruim, se as pessoas não se tratarem com respeito e honestidade — acontece muito de ir em busca de amor romântico, que não existe, e depois culpar o amor líquido. Pode ser muito bom, se não houver a expectativa do amor romântico. Por que durabilidade tem que ser sinônimo de qualidade numa relação? Acho que perdemos muito tempo acreditando na ideia de que existe um ‘grande amor’ e, com isso, deixamos de viver e aproveitar vários ‘pequenos amores’ que surgem”, afirma Laura Pires.  

A pesquisadora explica que a geração Y já nasce em um mundo efêmero em todos os sentidos. Espera-se que as coisas durem menos. Por isso, colocam menos expectativas em relações e em uma única pessoa. “As pessoas não são mais ensinadas a idealizar o amor como faziam antes. A frustração entre esperar o amor romântico (que nunca existiu) em um mundo cada vez mais diferente dele é o que leva as pessoas a comprarem tão fácil o conceito de amor líquido. É aquela mágoa de querer um amor e não encontrá-lo, sem perceber que o desencontro é porque esse amor não existe — não porque vivemos em tempos em que se ama menos. Ainda se ama muito, só que de maneira mais realista”, enfatiza.

O melhor dos compromissos
A estudante Fernanda Jardim, 23 anos, e o lobista Pedro Araújo, 23, são um exemplo de que o amor está no ar entre os jovens, sim. Os dois se conheceram na escola, viraram grandes amigos e, depois de um tempo, a amizade virou paixão. E a paixão virou namoro. Já são seis anos juntos. “A gente já passou por muita coisa chata, difícil, mas a gente prefere ficar junto, se esforçar. Mais do que qualquer coisa, ela é minha companheira, minha amiga, eu posso contar com ela. Para mim, ter essa pessoa do meu lado é muito importante. A gente tem muita humildade e pouco orgulho para correr atrás”, conta Pedro.

Um dos fatores do sucesso, garantem, é terem começado o relacionamento bem novinhos. Cresceram juntos, tornaram-se quem são graças ao outro. “As pessoas estão ficando descartáveis. Por que você vai se esforçar se há milhões de opções mais fáceis? É o que o Pedro sempre fala: terminar é o caminho mais fácil. Com todas as facilidades de hoje, não se enfrentam os problemas. Nós nunca desistimos. Eu o amo, ele me ama, e eu não quero outra pessoa. Quero que dê certo”, declara Fernanda. A estudante considera que os relacionamentos novos, os efêmeros, que não dão certo, são fruto de um início vazio. Só a atração física não é o suficiente. “Paixão passa, amor fica.”

Esse amor realista é o que norteia o relacionamento de Pedro e Fernanda. Ele conta que não amou a estudante à primeira vista. Afinal de contas, não se conheciam. Amor não acontece como nos filmes. É algo que se constrói. “Para mim, é ser companheiro, ser amigo. Qualquer novidade que eu tenho para contar, ela é a primeira a saber. Confiança é fundamental, e o mais importante é o querer aprender. Em uma briga, se a outra pessoa está reclamando, é porque alguma coisa está errada e existe algum aprendizado naquilo tudo”, explica o lobista.

Outro ingrediente importante para o sucesso dos dois é a moderação nas redes sociais. É fácil mandar uma mensagem dizendo que ama, com mil corações, mas, depois de três dias, a mensagem é esquecida, fica para trás no mar de comentários feitos durante o dia. “Prefiro falar ao telefone. Eu quero ouvir a voz dele, escutar ele sorrindo no telefone, escutar a respiração. É muito melhor do que mensagem. A gente só usa para combinar algumas coisas, para compartilhar alguma coisa engraçada”, conta Fernanda.

Um modelo que ficou pra trás
O
s relacionamentos que começaram nas décadas passadas eram mais duradouros — não é raro encontrar casais com mais de 50 anos casados, ou idosos que viveram uma vida inteira juntos e morrem com dias de diferença. Mas, hoje, as pessoas se relacionam de forma diferente. “A mulher no passado aguentava calada por mais tempo. Claro que existem outros fatores, porém a mulher de hoje que sabe o que quer, tem mais independência, não precisa mais daquele homem pagando as contas dela. Ela não admite mais viver num relacionamento no qual ela não é prioridade, em que não recebe o que merece”, explica a coach Miria Kutcher.

Existia também uma pressão por parte da sociedade de que não se podia separar ou terminar um relacionamento. Mulheres e homens divorciados eram malvistos. Por isso, ficavam em casamentos infelizes por anos. Traíam muito mais. Os relacionamentos eram longos, mas não mais saudáveis. Hoje, podendo sair da relação assim que ela se torna insatisfatória, se se está namorando ou casado, é porque realmente a decisão de continuar juntos é mútua.

“Acredito, pelas minhas pesquisas, que o senso comum do que é o amor é o amor romântico lá do século 19: algo que preenche nossas vidas, nos traz felicidade, nos completa, etc. Isso é incompatível com os modos de vida das sociedades ocidentais contemporâneas. Existe um descompasso entre o que vivemos e o que somos ensinados a almejar no amor”, afirma Laura Pires. Um bom exemplo dessa mudança pode ser visto, inclusive, nos filmes infantis. A pesquisadora lembra que cresceu assistindo A pequena sereia abrindo mão da própria voz por um amor à primeira vista. O fenômeno Frozen, em contrapartida, mostra o que acontece com uma relação na qual não se conhece o outro e o cenário oposto, quando Anna constrói uma relação com Kristoff.

A perfeição acaba
Nas últimas semanas, o assunto mais comentado foi o divórcio dos atores Brad Pitt e Angelina Jolie. Bonitos, ricos, solidários, engajados, pais de vários filhos. E, mesmo assim, optaram por terminar o relacionamento. “Existe um lado positivo em terminar um relacionamento que não está dando certo, principalmente porque o ‘não’ é importante”, explica a coach de relacionamentos Miria Kutcher. Fim de casais não é o fim do amor, muito menos se o casal for famoso — não se sabe o que está acontecendo por trás dos sorrisos estampados nas revistas.  

Na arte como na vida

A televisão também vem acompanhando de perto os relacionamentos modernos. Duas séries são interessantes para quem quer saber mais sobre como os jovens namoram hoje. Love, do Netflix, conta a história de um casal completamente oposto que tenta se entender e se encaixar. You’re the worst (Você é o pior), do FX, por sua vez, une duas pessoas parecidas — e nenhum dos dois sabe lidar com relacionamentos. A série mostra as tentativas de manter a relação funcional.  


Mas afinal, o que é o amor?
Na visão do sociólogo Anthony Giddens, o amor moderno é chamado de confluente. “Trata-se de um amor baseado no conhecimento e na aceitação do outro. Não é aquela aceitação do amor romântico, que se sujeita a tudo, mas uma aceitação no sentido de respeito à individualidade daquela pessoa e não fazendo dela sua única fonte de felicidade, mas uma companheira”, explica Laura Pires. Seria um amor no qual os indivíduos são iguais, têm as mesmas responsabilidades.

Para a pesquisadora, amor é gostar de quem a pessoa é, e não uma projeção ou idealização que se faz dela, e ser correspondido no mesmo sentido, em uma situação boa para os dois lados. “Conversei com muitas pessoas sobre essa pergunta, diversas vezes, e 100% das pessoas me disseram que amor é algo inexplicável. Sinto o mesmo: além dos fatores racionais que se aplicam a mim e não necessariamente aos outros, tem algo meio mágico que a gente nunca vai saber o que é”, conta. Laura considera o amor tão misterioso que gosta de uma citação de Oscar Wilde: “O mistério do amor é maior do que o mistério da morte”.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Clara, Matheus e a filha Helena (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Construção diária
“O nosso relacionamento começou bem romântico, bem coisa de filme, em 2009. A gente passava o tempo todo junto. Mas vamos amadurecendo, ficando mais racionais. As nossas brigas eram uma desconstrução dessa idealização que a gente faz do outro. Estar em um relacionamento hoje é uma escolha diária”, conta a pedagoga Clara Neves, 23 anos. Clara começou a namorar Matheus Neves, 23 anos, ainda na escola. Eles se apaixonaram e viveram juntos todos os momentos de quem sai da adolescência e entra na idade adulta.

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Gabriela Neves e Matheus Maranhão (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Na casa dos 20 anos, descobriram-se grávidos. Helena nasceu em 2015, e, há um mês, nasceu Bernardo. O casal mora junto desde então e, este ano, mudaram-se para uma casa que construíram no terreno da mãe de Clara. A pedagoga avalia que só quando se mora junto é que se conhece de fato o outro, e o aprendizado é ainda maior. “Hoje, qualquer briga faz as pessoas se separarem, mas nós temos uma relação firme. A árvore até balança, mas a raiz segura”, explica Matheus.

Mesmo tendo seguido o caminho mais tradicional quando se pensa em relacionamento, Clara e Matheus sentem a pressão do compromisso. Mas conversam (e muito) para garantir que o que sentem está bem claro. Clara avalia que as mulheres são ainda mais cobradas. “Até com filho há uma pressão muito grande para você ser independente, para que possa cuidar dele sozinha, se alguma coisa acontecer. Tem que ter uma carreira. Depender do marido enquanto você fica em casa é uma vergonha. Mas essa pressão toda me dá liberdade, no fim das contas. Eu estou aqui porque quero, não porque preciso.”

Falha de comunicação
H
oje, a tecnologia acaba atrapalhando mais do que ajudando os relacionamentos. Para os ansiosos, é fácil monitorar onde a pessoa está, com quem está, quando está com o celular na mão, se leu a mensagem e não respondeu. Nada disso é muito saudável. Do outro lado da tela do celular, a entonação escrita não é a mesma da falada, o humor não é o mesmo, as respostas são calculadas.

“Ler é muito diferente de ouvir. Você interpreta de uma forma diferente da que a pessoa queria transmitir, as mesmas palavras podem ter significados diferentes para quem lê e escuta. Conversar pessoalmente ou pelo telefone é melhor. Quando a gente começou a namorar, não existia Whatsapp”, analisa o advogado Matheus Maranhão, 23 anos. Matheus namora a engenheira florestal Gabriela Neves, 24 anos, há oito anos. Começaram um relacionamento na época que Orkut era a rede social do momento e as operadoras tinham um plano que limitava as mensagens de texto.  

Os dois são um exemplo de que o amor na geração Y está firme e forte e realmente se distancia do romantismo açucarado. O amor de hoje é pé no chão. “A gente fica muito empolgado, pensando em ficar juntos para sempre. Mas depois você vê que é difícil. Gostar muito da pessoa não é o suficiente para dar certo”, explica Gabriela. No começo do namoro, os dois costumavam brigar por qualquer coisa, não falavam tudo o que sentiam. Foram aprendendo a confiar, descobrindo como reagem, acostumando-se com o jeito do outro. Hoje, consideram que o relacionamento segue em altitude de cruzeiro.

Matheus conta que, ainda mais em um relacionamento longo como o dos dois, amor é trabalho. “Faz parte fazer um agrado, dar um chocolate, falar uma palavra diferente, senão acaba ficando mais amigo que namorado. Quando deixar de tratar bem se torna normal, é o fim.” Animados com o futuro, mas ligados com a realidade, o casal explica que ainda não sente pressão da família em se casar, como seria o normal em gerações passadas. Espera-se que os dois, que acabaram de se formar, arrumem emprego, juntem dinheiro e, só depois, caminhem para o altar. Sem pressa.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Patrícia Cândida e Tamiris Almeida (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Liberdade para ir longe
Em tempos de relacionamentos fáceis, um dos temas mais importantes é a liberdade. E isso pode significar estar com alguém que não prenda, que não sufoque. É o caso da engenheira civil Patrícia Cândida, 24 anos, e da cientista política Tamiris Almeida, 26. As duas começaram a namorar no fim de 2014, depois de relacionamentos longos, e descobriram uma na outra uma leveza inédita. “Somos muito diferentes, mas nos encaixamos na nossa complexidade. Encontramos uma liberdade que não tínhamos, e acho que é isso que faz dar mais certo ainda. A gente confia e deixa as coisas acontecerem”, explica Patrícia.

O casal conta que a receita do sucesso é estar disposto a aprender e mudar todos os dias, a cada discussão. E a tecnologia que atrapalha a maioria dos casais acaba funcionando para Tamiris e Patrícia. Elas se falam o tempo todo pelo Whatsapp (apesar de alguns ciúmes ocasionais) e até as brigas acabam arranjando solução no celular. A cientista política gosta de reclamar logo que sente algo errado, enquanto a engenheira civil prefere absorver e pensar com calma no que responder ao vivo. Quando se encontram, já refletiram bastante e as discussões se resolvem mais rápido.

Ao contrário do que se prega, de que ser moderno é ser sozinho, ser geração “tribalista” que beija qualquer um e não está nem aí para o dia seguinte, as duas contam que o que percebem no dia a dia é exatamente o oposto. Todo mundo está buscando alguém. “Até essa coisa de Tinder: a pessoa fica solteira e já vai atrás de alguém, ainda que não tenha nada a ver com você. Cria-se uma expectativa gigante que logo se desmonta. As pessoas acham que vão viver sozinhas e ser satisfeitas, mas acho que é um balanço. Ninguém quer ficar sozinho”, conta Tamiris. Entre os amigos e amigas que são gays, ainda existe uma idealização muito grande do parceiro, que vai ser “a” pessoa certa. “Pra dar certo, é preciso uma amizade muito forte e respeito. Sem os dois, não vai longe”, finaliza Patrícia.

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