Além de não cumprirem função, antibactericidas podem causar doenças

Estudos com animais e células humanas mostram que esses produtos podem não matar bactérias e causar alterações hormonais que levam a obesidade, cânceres e outras doenças

por Paloma Oliveto 13/10/2016 16:00
SXC.hu
(foto: SXC.hu)
Anunciados como superprotetores da pele humana, os sabonetes antibacterianos estão na mira dos órgãos regulatórios. Se, nas propagandas, eles prometem 99,9% de eficácia contra micróbios, pesquisas indicam que, na verdade, podem representar um risco à saúde. No mês passado, o Food and Drugs Administration (FDA), dos EUA, proibiu a venda de sabões líquidos e em barra que contêm as substâncias triclosan e triclocarban. Agora, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estuda a necessidade de revisar, no Brasil, a regulamentação de produtos que têm esses agentes químicos na composição.

A decisão do FDA, que incluiu outras 17 substâncias encontradas em diversos antissépticos, foi justificada, em primeiro lugar, pela falta de comprovação de que eles são mais eficazes que o sabão comum (Leia mais nesta página). Contudo, o órgão também citou 70 estudos e consensos de associações médicas que sugerem ou evidenciam a ação maléfica dos agentes químicos em animais e células humanas, afirmando que, por ora, os riscos se sobrepõem aos benefícios.

Boa parte desses trabalhos se foca no triclosan, originalmente desenvolvido para profissionais de saúde em hospitais e em salas de cirurgia desinfetarem as mãos. Em número menor, mas também expressivo, artigos indicam que o triclocarban tem potencial igualmente maléfico. Esses compostos fazem parte de um grupo conhecido como disruptores endócrinos — substâncias que, em contato com o organismo, alteram a produção e o funcionamento dos hormônios. O alarme sobre esse tipo de agente químico soou há relativamente pouco tempo, e a maior parte dos estudos começou a ser produzida no fim dos anos de 1990.

O curto tempo de pesquisas, porém, foi suficiente para comprovar os prejuízos à saúde de alguns deles, que chegaram a ser proibidos em diversos países. É o caso do bisfenol A, banido do Brasil em 2012. Esse composto é utilizado na produção de plásticos e está presente em mamadeiras, garrafas plásticas, CDs/DVDs e eletrodomésticos, entre outros. As evidências de que afetam a glândula tireoide se somaram às suspeitas de que ele pode alterar o desenvolvimento fetal e favorecer o surgimento de diversos tipos de cânceres, convencendo agências regulatórias a abolir o composto.

Valdo Virgo / CB / D.A Press
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Fortes evidências
No caso dos sabonetes com antibióticos, a literatura científica é extensa: em animais e em estudos in vitro, houve evidências de alteração da regulação hormonal, com implicações sobre fertilidade, obesidade, hipotireoidismo, aumento/diminuição de produção da testosterona, câncer de ovário, mama e fígado, além de piora da asma alérgica, entre outros. Na edição de julho/agosto da revista Environmental International, pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco (EUA) fizeram uma revisão de 81 trabalhos que investigaram a ação tóxica do triclosan sobre o desenvolvimento fetal e o trato reprodutivo, concluindo que há provas suficientes de que a substância é prejudicial a animais. Por outro lado, as evidências sobre os malefícios a humanos ainda são “inadequadas”, significando, de acordo com a equipe, que o composto é “possivelmente tóxico”.

A endocrinologista Cristiane Moulin, membro e titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), reforça que, por enquanto, as constatações de que o triclosan é um disruptor endócrino perigoso se referem a animais e células humanas cultivadas in vitro. “Ainda não temos estudos comprovando que vão causar efeitos em humanos. Para isso, são necessárias mais pesquisas”, diz. Contudo, ela recomenda que se tente minimizar a exposição a esses produtos. “A grande preocupação é que os disruptores, como um todo, possam ser a causa do aumento das doenças crônicas não transmissíveis, como o câncer”, destaca. “Para algumas faixas da população, eles podem ser ainda mais perigosos, como as crianças e as grávidas. Um estudo feito com jacarés, por exemplo, mostrou que filhotes das fêmeas expostas a esse tipo de substância desenvolveram, mais tarde, câncer vaginal”, conta.

Banimento
O endocrinologista Flavio Cadegiani, especialista pela Sbem e membro da Endocrine Society, acredita que, embora as principais evidências estejam associadas a animais, elas são suficientes para recomendar o banimento dos sabonetes antibacterianos compostos por triclosan e triclocarban. “Não se sabe se os sabonetes matam realmente 99,9% das bactérias, mas descobrimos que, ao menos nossos hormônios, eles matam muito bem”, diz. O médico, que fez uma análise de publicações recentes sobre a associação desses agentes com problemas endócrinos, encontrou trabalhos que, inclusive, sugerem uma ligação com obesidade. “O triclosan está quase 70% mais presente e concentrado em obesos do que em pessoas magras”, afirma, lembrando que essas substâncias não são produzidas naturalmente pelo organismo.

Como boa parte das pesquisas foi realizada com diferentes espécies de animais, Cadegiani destaca que isso fortalece a possibilidade de humanos também serem acometidos. Para ele, o fato de a concentração máxima permitida do produto em sabonetes e outros bens de higiene pessoal ser de 0,3% não significa que há pouca absorção pelo corpo. “Estudos com humanos mostraram que o pico de concentração é 24 horas após o contato, mas a substância continua circulando por até quatro dias e é excretada pela urina”, afirma. “Há disruptores endócrinos que, mesmo em baixa dosagem, podem ter efeitos no organismo. A relação entre causa e efeito não é linear”, observa a endocrinologista Cristiane Moulin.

» Ação civil
No fim de julho, o Ministério Público Federal em Minas Gerais ajuizou uma ação civil pública para obrigar a Anvisa a proibir o uso do triclosan em qualquer tipo de bem fabricado, distribuído, comercializado e exportado pelo Brasil. No entendimento do procurador da República Cléber Eustáquio Neves, o uso cumulativo e indiscriminado dessa substância “ultrapassaria a própria vantagem consistente em sua eficácia antimicrobiana”.

Risco de super-resistência
Outra preocupação que tem sida levantada por associações médicas e foi destacada pelo Food and Drugs Administration (FDA) no documento que proibiu a venda de sabonetes antimicrobianos nos Estados Unidos é com o aumento da resistência das bactérias aos antibióticos, um problema que tem se acentuado em todo o mundo, especialmente nos países em que o consumo de medicamentos e produtos do tipo é considerado abusivo.

Luis Nova / Esp. CB / D.A Press
"É claro que é importante se lavar para evitar doenças, mas a gente acha que se sujar também é ter saúde" - Andrea Arean Oncala, mãe de Caetano, 3 anos (foto: Luis Nova / Esp. CB / D.A Press)
Embora reconheça que essa associação ainda é controversa no que se refere aos sabonetes, o FDA cita estudos que encontraram uma relação entre o uso dos produtos antissépticos e mecanismos pelos quais as bactérias se tornam cada vez mais tolerantes aos medicamentos. Na dúvida, o órgão destacou que cabe aos fabricantes provar que não há riscos — eles tiveram prazo para isso, mas não atenderam ao chamado da agência regulatória.

O especialista em dermatologia e infectologia pediátrica Jandrei Rogério Markus diz que há muito tempo o Departamento de Dermatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do qual é membro, se posiciona contra o uso de sabonetes antibacterianos. “Nos Estados Unidos, onde teve uma febre de uso de antissépticos, o número de infecções de pele subiu absurdamente. Lá, a resistência bacteriana está mais grave do que aqui, e as bactérias estafilococos estão resistentes a antibióticos que ainda funcionam no Brasil”, exemplifica.

Inverso
Outro problema, de acordo com o médico, é o aumento de infecções de crianças com dermatite atópica, um problema comum na infância caracterizado por coceiras e erupções. De acordo com Markus, as propagandas dos fabricantes costumam citar essa doença, indicando o uso dos sabonetes antibacterianos para amenizar o quadro. Contudo, se na hora ele, de fato, diminui a quantidade de bactérias que causam a dermatite, ao longo do tempo, ele vai deixando a pele mais ressecada, o que predispõe infecções em sequência. O pediatra ressalta que, na verdade, a assepsia das mãos está mais associada à forma de lavá-las, esfregando bem palmas, dorso, dedos e punhos.

Na casa da servidora pública Andrea Arean Oncala, 36 anos, sabonetes antibacterianos não têm vez. Tampouco protetor solar, desodorante, xampu/condicionador e cremes que contenham substâncias químicas associadas a riscos à saúde. “Passei a evitá-los no último ano. Trabalho na área ambiental e tive um filho que vai fazer 3 anos, então, comecei a buscar aspectos mais naturais da vida. Minha linha sempre foi a de fugir de produtos sintéticos na alimentação e, agora, nos cosméticos”, conta Andrea, que tem o total apoio do marido, o biólogo Bruno de Carvalho Filizola, 39.

Ela garante que os substitutos naturais são tão eficientes quanto, com a vantagem de não expor a família aos riscos. O pequeno Caetano Oncala Filizola, 3 anos, estuda em uma escola que valoriza o contato da criança com a terra e, por morar em chácara, Andrea acredita que é importante o filho ter contato com bactérias benéficas, tanto as do solo quanto a do cachorro que vive com eles. “É claro que é importante se lavar para evitar doenças, mas a gente acha que se sujar também é ter saúde”, diz.

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