Sutiã: ame-o ou queime-o

É difícil falar sobre sutiã sem mencionar a luta que mulheres vêm travando ao longo dos anos por liberdade e direitos iguais

por Valéria Mendes 12/09/2016 13:00

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Márcio Rodrigues
"O tempo que a mulher se aprisionava em um espartilho já passou. Hoje, na moda, o corpo é a centralidade. O sutiã não é para aprisionar o corpo e nem para criar uma forma ditada por padrões de beleza" - Lúcia Maria Martins Vieira, professora do curso de design de moda do Centro Universitário Estácio BH (foto: Márcio Rodrigues)
Em 2012, descobrimos que mulheres do século 15 (algo entre 1440 e 1485) já usavam sutiã apesar de a palavra só ter entrado para o dicionário em 1923. A descoberta arqueológica se deu na Áustria, por pesquisadores da Universidade de Innsbruck, e traz para a história da moda uma nova data para a invenção do que hoje também chamamos de lingerie. Até então, pensava-se que o sutiã tivesse cem anos de existência e tivesse surgido de uma necessidade das mulheres por mais conforto. Foram elas que ocuparam os postos de trabalho em diferentes tipos de serviços enquanto homens lutavam as duas guerras mundiais, no século 20. Por outro lado, marcava também o início do rompimento com a opressão machista e aristocrática dos espartilhos que, de tão apertados, chegaram a perfurar pulmões de mulheres. As pobres, que não tinham funcionários para fazer as amarrações que tinham o objetivo de afinar a cintura, usavam a peça virada para frente para que elas mesmas pudessem colocá-la.

O que a investigação arqueológica no Castelo Lengberg mostrou é que o sutiã de linho veio antes de a peça ser patenteada em 1914, por Mary Phelps Jacob, nos Estados Unidos. Antes dessa descoberta, a peça era datada de 1900 e o modelo tido como o primeiro era feito com dois lenços amarrados a uma fita estreita rosa. O sutiã só foi amplamente adotado em 1920 quando os tecidos dos vestidos semitransparentes entraram em voga e era preciso esconder os mamilos. Mas foi na década de 60, com a descoberta da lycra, que se deu início à versatilidade de modelos e a busca pelo maior conforto possível.

É difícil falar sobre sutiã sem mencionar a luta que mulheres vêm travando ao longo dos anos por liberdade e direitos iguais. Em 1968, ele se tornou símbolo do enfrentamento de feministas que "queimaram sutiãs" durante a realização do concurso Miss América, nos Estados Unidos, contra a hipersexualização, objetificação e mercantilização dos corpos das mulheres. Na verdade, a queima propriamente dita nunca ocorreu, mas o episódio foi assim intitulado pela imprensa.

A discussão sobre usá-lo ou não volta à cena com a hashtag que virou filme, #FreeTheNipple (ou #LiberteOsMamilos, em tradução livre), e, no Brasil, não apenas com ‘toplessaços’, mas também com as leis que garantem a amamentação em público e confrontam justamente o fato de o seio da mulher não ser visto de forma natural mesmo quando a cena é de uma mãe alimentando seu filho ou filha. “O sutiã, por mais que ele tenha evoluído, ainda carrega em si a questão da opressão por ter origem no espartilho. Mas cada vez mais esse estigma oscila para as questões que envolvem sensualidade e empoderamento”, afirma a designer de moda e professora de moda no curso de design da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), Andreia Salvan Pagnan.

University Innsbruck Archeological Institute/AP
Sutiã encontrado na Áustria data do século 15 (foto: University Innsbruck Archeological Institute/AP)
Fato é que o hábito de chegar em casa e retirar o sutiã ainda é sinônimo de liberdade, segurança, conforto e deleite para grande parte das mulheres. No entanto, quem está à frente de grandes marcas de lingerie afirma que as peças evoluíram ao ponto de as mulheres passarem o dia de sutiã sem sequer notar que aquela peça está ali. Se essa não é uma realidade na sua vida, pode ser que você não esteja sabendo escolher o melhor modelo para você.

Diretora do grupo Água Fresca Lingerie, Juliana Moraes conta que o modelo de sutiã mais simples entra em uma máquina de costura pelo menos 30 vezes. “É uma peça complexa, composta de vários ‘projetinhos’ para proporcionar o maior conforto possível. Hoje, o sutiã é um aliado das mulheres. Temos não só a tecnologia a nosso favor, mas uma variável enorme de modelagens e uma infinidade de tecidos que estão cada vez mais leves sem deixar de garantir menos sustentação. A boa escolha do sutiã é aquela em que a mulher não percebe que está usando a peça, que se torna parte integrante do corpo”, defende.

Água Fresca Lingerie / Divulgação
Um sutiã é uma peça complexa que entra mais de 30 vezes em uma máquina de costura (foto: Água Fresca Lingerie / Divulgação)
Professora do curso de design de moda do Centro Universitário Estácio BH, Lúcia Maria Martins Vieira diz que o sutiã é um símbolo das questões feministas e femininas. “A peça está incrivelmente ligada às descobertas tecnológicas, mas também às manifestações feministas. Nos anos 1940 e 1950, eles ganharam aquele formato pontudo. Nos anos 60, mulheres queimaram sutiãs em praça pública como símbolo da liberdade feminina. A peça ganha, nesse episódio, simbologia social e política. Nos anos 1990, Madona estreou ‘Blonde Ambition’, clipe em que ela aparecia com um sutiã em forma de cone e desenhado pelo estilista  francês Jean Paul Gaultier. A cantora faz uma menção crítica à mulher extremamente subjugada da década de 40. Tecnologicamente, é uma peça do vestuário feminino que vem se desenvolvendo para trazer cada vez mais conforto à mulher, da mesma forma que se renova em um conceito estético mais apurado. O sutiã não é só uma peça de sustentação do seio para trazer conforto, ele também pretende destacar a silhueta feminina e ser um elemento de sedução”, analisa.

Segundo a especialista, a tecnologia trouxe, além do conforto, outras possibilidades de formatos. “Os bojos contemporâneos são arredondados, são mais aerodinâmicos, respeitam mais o formato do corpo feminino e são ergonomicamente planejados. Existem, por exemplos, texturas de tecidos que hidratam o seio. As possibilidades tecnológicas surgem com objetivos bem claros: conforto, beleza e sedução. O tempo que a mulher se aprisionava em um espartilho já passou. Hoje, na moda, o corpo é a centralidade. A roupa (ou o sutiã) não é para aprisionar o corpo e nem para criar uma forma ditada por padrões de beleza. Hoje a roupa é pensada para valorizar o corpo que a pessoa tem, não importa o shape”, afirma.

A escolha do sutiã
Enquanto há mulheres que encaram o sutiã como uma norma imposta socialmente ao corpo feminino, além de, obviamente, movimentar um mercado lucrativo que envolve sedução, beleza e sexo, existem outras que consideram a peça indispensável no dia a dia. Se é o seu caso, a regra de ouro para você esquecer que está de sutiã é acertar no tipo que mais se encaixa ao seu biotipo. Com uma infinidade de modelos no mercado, a tarefa pode não ser tão simples. Cada vez mais, no entanto, as próprias vendedoras podem ser ótimas consultoras e te ensinar as regrinhas básicas para não desperdiçar seu dinheiro.

Juliana Moraes, explica, por exemplo, que uma mulher pode ter a mesma medida de tórax que outra, mas uma com os seios pequenos e outra com os seios grandes. Quando for assim, não é a numeração do sutiã que muda (40, 42, 44, 46, 50, 52, 54), mas o tamanho do bojo ou taça (A, B, C, D e E). “A numeração mais comum da mulher brasileira e mineira é a 42 C”, afirma Moraes. Segundo ela, ao vestir a lingerie, o sutiã tem que ficar reto em toda a circunferência do tórax. Nada de sutiã mais para cima nas costas ou um pouco caído na frente.

Para a diretora de marketing da Plié, Marilene Ramos, é fundamental compreender que o que fica bem nos outros não necessariamente ficará bem em você. “Experimentar é a melhor forma de descobrir se um modelo veste bem, pois cada mulher tem medidas únicas”, resume.

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Laterais mais largas são boas opções para seios grandes e também para os flácidos (foto: Água Fresca Lingerie / Divulgação / Plié / Divulgação)

Seios grandes
As alças são muito importantes para garantir sustentação. Assim, seios maiores pedem alças mais largas e o bom sutiã é aquele que não deixa nada sobrando atrás. Não caia na tentação de suspender as alças achando que, mais curtas, elas darão mais sustentação. Esse é um erro muito comum que, na verdade, gera desconforto, aperta e pode, inclusive, provocar dor nas costas e dor de cabeça. Além disso, o recurso do tecido duplo é uma boa opção para trazer conforto aos seios grandes e pesados.

Seios caídos
Para quem tem seios caídos, o ideal são os sutiãs do tipo push-up. Eles são projetados para levantar os seios e dar a eles um formato arredondado. Lembre-se que acertar na medida do tórax é o passo principal. Geralmente, os sutiãs têm de três a quatro ganchos atrás e um sinal de que você pode estar errando na sua medida é se a peça estiver sendo usado no ganchinho mais apertado ou no mais frouxo. A possibilidade do ajuste existe porque é importante.

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Para quem tem seios pequenos essa é uma boa opção de sutiã (foto: Água Fresca Lingerie / Divulgação / Plié / Divulgação)
Seios pequenos
É errado pensar que seios pequenos têm que ser necessariamente aumentados pelo sutiã. Se a mulher está feliz com a própria aparência, ela precisa somente de um sutiã que traga conforto e que suavize transparências. Ver beleza nas próprias curvas, pequenas ou grandes, é mais importante que ver beleza no sutiã.

Alças
Grande parte do desconforto que as mulheres sentem está relacionado às alças do sutiã. Alças reguladas de forma errada causam desconforto e pressão nos ombros. Embora possa não parecer, a pressão feita ao longo de um dia inteiro em um mesmo ponto pode exaurir e aí, você vai querer tirar de qualquer forma. Observe seus seios, se eles são mais pesados, opte pelas alças mais largas que dão maior sustentação e conforto.

Com aro (ou sem)
Existe um mito de que o aro incomoda, mas o que nem toda mulher sabe é que ele é feito de um metal flexível e ajustável ao tamanho do seio. Ou seja, antes de vestir qualquer sutiã você precisa ajustar não só as alças, mas também os aros. Sutiãs com aros são boas opções para seios grandes ou flácidos porque dão mais sustentação.

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Opção com bojo e sem bojo (foto: Água Fresca Lingerie / Divulgação)

Com bojo (ou sem)
O bojo tem a função de modelar, acomodar o seio, e valorizar o colo. Na hora de experimentar, certifique-se de que a mama não está sobrando ou o contrário, caso tenha tecido demais. O bojo só vai incomodar se não estiver na medida certa para você. Bojo é sinônimo de modelagem e é a parte do sutiã que mais evoluiu no mercado nos últimos 15 anos. Eles são ultrafinos (por isso é mito dizer que bojo aumenta o tamanho do seio), respiráveis e duráveis.

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Sutiãs de amamentação ganham rendas (foto: Água Fresca Lingerie / Divulgação)

Sutiã de amamentação
Hoje já é possível encontrar um sutiã de amamentação que seja confortável e bonito ao mesmo tempo. Nessa fase, as laterais mais largas proporcionam uma acomodação mais confortável dos seios. O que a mulher precisa lembrar é que o volume varia ao longo do dia em razão dos horários das mamadas. Dessa forma, as mamas não podem ficar apertadas dentro do sutiã. Para as mulheres que não abrem mão do bojo nem nessa fase, opte pelos que sejam forrados em algodão.

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Mulheres idosas também têm opções que se adequam às suas necessidades (foto: Plié / Divulgação)

Terceira idade
A pele fica mais fina com o avançar da idade. Assim, mulheres mais velhas devem optar pelo sutiã todo recoberto de algodão. Hoje, já existem modelos com abotoamento frontal para facilitar na hora de vestir.

Tomara que cai
Sutiãs tomara que caia pedem atenção especial à região próxima às axilas, onde não devem apertar.

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Para usar aparecendo (foto: Água Fresca Lingerie / Divulgação)

Acessório de moda
O sutiã cada vez mais tem se tornado uma peça de destaque na composição do visual. Nesse caso, as alças são geralmente mais largas e recobertas com renda. Há ainda a opção de fechamento na lateral para a peça aparecer integral se o decote é nas costas e também os modelos com renda na frente. Uma boa dica para os dias de festa é investir em um body que, além de valorizar os seios, ainda modelam o corpo.

Plié / Divulgação
Tops são boas opções para malhar (foto: Plié / Divulgação)
Hora de malhar
Um top fitness que dê sustentação sem restringir o movimento e permite a respiração da pele é essencial. Algumas marcas têm tratamento hidrófilo que permitem que a pele respire enquanto você se exercita. O modelo duplo é muito procurado e existem versões com bojos removíveis.

FONTE: Juliana Moraes, diretora do grupo Água Fresca Lingerie, e Marilene Ramos, diretora de marketing da Plié

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