Pesquisa mostra que cartilagem não se regenera; prevenção é o melhor caminho

Uma vez lesionado, o tecido que reveste os ossos de adultos não se recupera, mesmo com intervenções médicas. A constatação feita por cientistas da Dinamarca reforça a importância dos cuidados com as articulações desde cedo

por Isabela de Oliveira 14/07/2016 15:00
Carlos Moura / CB / D.A Press
Postura mais indicada é a prevenção: cuidados com as articulações, como as do joelho (foto: Carlos Moura / CB / D.A Press)
Usando datação por radiocarbono, pesquisadores da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, descobriram que a cartilagem humana raramente se regenera na vida adulta. O estudo, publicado na Science Translational Medicine desta semana, sugere que os tratamentos atuais para doenças da articulação são ineficientes, e que a prevenção é a melhor estratégia para combater as complicações que acometem 10% da população mundial e mais de 10 milhões de brasileiros, sobretudo as mulheres.

A técnica de datação de carbono-14 empregada pelo reumatologista Michael Kjaer mostra que a cartilagem é, essencialmente, um tecido permanente em adultos com ou sem diagnóstico de osteoartrite. “O fato de não existir renovação explica por que é tão difícil curar ou recuperar a cartilagem”, diz Kjaer. “A característica especial dela é que, uma vez lesionada, não há potencial de regeneração. Queríamos saber se existe um turnover muito lento no tecido que não pode ser influenciado ou então se esse tecido é fixo, imutável.”

Ortopedista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, Julian Machado explica que turnover é o nome dado ao processo natural de renovação natural das células cartilaginosas, os condrócitos. “Na prática clínica, havíamos observado que não há renovação da cartilagem. Existem muitos estudos buscando formas de fazer com que o tecido volte a funcionar. Alguns investigam células-tronco, outros, cultura de cartilagem. O trabalho desses cientistas bate de frente com tudo isso: eles dizem que não adianta procurar tratamentos, pois a cartilagem é um tecido impossível de regenerar”, explica o médico, que não participou do estudo.

A pesquisa de Kjaer usou o método do pulso de bomba, que explora o fato de que todos os organismos vivos incorporam, pela dieta, o carbono-14 da atmosfera (veja arte). Os níveis atmosféricos desse isótopo de carbono aumentaram na Guerra Fria, período em que bombas nucleares foram testadas. Estudos anteriores haviam apontado aumento na síntese de colágeno nos pacientes com osteoartrite, o que poderia representar a tentativa do tecido de se autorreparar. Mas Kjaer não detectou esse efeito após datar o carbono-14 em amostras de cartilagem de 23 voluntários nascidos entre 1935 e 1997, sendo que oito eram saudáveis e 15 tinham osteoartrite.

Cristiano Gomes / CB / D.A Press
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Basicamente, a técnica permitiu que a equipe descobrisse a idade dos tecidos e em que momento ocorreram as regenerações derradeiras nos participantes. Os últimos níveis de carbono-14 detectados nos pacientes datavam de quando tinham entre 8 e 13 anos de idade, o que sugere que eles não produziram novo colágeno após a adolescência. Kjaer acredita que os pesquisadores que o precederam analisaram medidas indiretas de turnover de colágeno nas articulações, o que explicaria os resultados divergentes. No entanto, segundo o estudo liderado por ele, nem mesmo as áreas mais lesionadas apresentam novas formações de colágeno.

Os achados explicam o sucesso limitado de transplantes de cartilagem e terapias com células-tronco para as doenças articulares, entre outras abordagens. Substâncias como glicosamina, condroitina e colágeno do tipo 2, por exemplo, podem até aliviar os sintomas. “Mas seus benefícios não têm força de evidência médica e derivam apenas de observações clínicas. Não há comprovação de que eles funcionem realmente e, por enquanto, não há cura ou tratamento realmente eficiente para esses pacientes”, ressalta Julian Machado, que também é diretor científico da regional Distrito Federal da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

Melhor prevenir
Diante disso, Kjaer acredita que a postura mais indicada é a prevenção. “Se pudéssemos medir e detectar a quantidade de cartilagem, talvez, conseguíssemos intervir nos estágios iniciais para prevenir as lesões”, supõe o autor. Richard Loeser, da Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, pensa o mesmo. “É preciso cuidar de suas articulações enquanto se ainda é jovem”, diz o reumatologista, que também não participou do estudo. “Depois de ter danos na cartilagem, não há mais chances de reparo.”

Julian Machado é mais otimista. “Acredito que, um dia, conseguiremos fazer com que a cartilagem se regenere. Hoje, temos técnicas e métodos que formam uma cicatriz parecida com a cartilagem e protege o osso, o que já contribui para a qualidade de vida do paciente”, diz o médico de Brasília. Ele também é mais cauteloso em relação ao método utilizado na pesquisa de Kjaer e diz que os resultados não devem ser interpretados a ferro e fogo. “Não há uma evidência médica, de fato, nesse trabalho. Há apenas uma observação apurada que nos desperta questionamentos sobre os tratamentos disponíveis”, justifica.

Enquanto não há tratamento que reverta definitivamente a osteoartrite, Machado recomenda atividades físicas, manutenção do peso e alimentação saudável como formas de evitar que a doença se instale. “Os exercícios devem ser sem impacto porque eles geram desgaste demais para as juntas. Há ainda substâncias que nos ajudam a produzir proteínas que contribuem para a manter a cartilagem saudável e que podem ser ingeridas por suplementos. São estratégias que garantem um turnover equilibrado e estão ao nosso alcance”, detalha.

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