Quantas vezes por semana você faz sexo?

A frequência com que o brasileiro e a brasileira fazem sexo é tema de uma pesquisa abrangente coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo. Será que existe uma medida considerada saudável?

por Gláucia Chaves 30/06/2016 13:00

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Reprodução Internet
Cena do filme Lucia e o sexo, de Julio Medem (foto: Reprodução Internet)
A pesquisa Mosaico 2.0, divulgada este mês pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), com o apoio da Pfizer, revelou a quantas anda a assiduidade do brasileiro na cama. Entre vários dados, o estudo apontou que o brasileiro faz sexo, em média, três vezes por semana. Se os entrevistados pudessem escolher a frequência ideal (caso os “empecilhos” do amor, como filhos, contas atrasadas e preocupações em geral, fossem eliminados) a história seria outra, pelo menos para os homens. Eles fariam oito vezes por semana. Para elas, a média (três vezes) já está boa demais.

A pesquisa, conduzida pela psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (Prosex), usou como base o depoimento espontâneo de 3 mil participantes entre 18 e 70 anos. Além das dificuldades mundanas, algumas disfunções podem colaborar para deixar a cama fria. É o caso da disfunção erétil: mais de um terço da amostra masculina (32,4%) relatou sofrer com o problema — a maioria, inclusive, está no Distrito Federal (39,3%). O índice de entrevistados com baixo desejo sexual (com intensidade de grave a moderada) foi de 30,9%.

A dificuldade em alcançar o orgasmo foi apontada pelas mulheres como o principal balde de água fria no desejo. Também pudera: 43% das entrevistadas admitiram sofrer com o problema. Entre os 26 e os 40 anos, a questão é interessar-se por sexo: 32,5% disseram não ter vontade de transar. O desinteresse tende a se refletir em outros aspectos da vida. O amor-próprio, por exemplo. Para mais de um quarto dos entrevistados de ambos os sexos (25,8% dos homens e 25,9% das mulheres), não transar faz com que eles se sintam menos valorizados. Homens e mulheres concordaram em apenas um ponto: para 95,3%, o sexo é importante (ou muito importante) para a harmonia do casal. Nesta entrevista, a pesquisadora Carmita Abdo analisa esses e outros aspectos relacionados à frequência sexual do brasileiro.

Divulgação
Carmita Abdo, autora da pesquisa (foto: Divulgação)
É possível falar em uma quantidade normal de sexo por semana?
Não. O que é observável e habitual é que os casais apresentem uma variação bastante ampla de frequência, que depende de uma série de fatores. Por exemplo: se (o casal) tem um local; se eles têm disponibilidade, atração, saúde; se o relacionamento é harmonioso. Tudo isso leva a variações de frequência sexual. Vamos imaginar casais padrão, que tenham atração, estejam saudáveis, tenham um bom relacionamento e que estejam interessados em sexo. Essa frequência é de uma relação sexual por semana, em média, para casais muito jovens. É o quanto eles conseguem fazer, mas gostariam de fazer mais — a frequência real não é a desejável, exatamente, porque eles não dispõem de um local, como casais com união estável. Próximo dos 30 anos, essa frequência vai ser maior e pode chegar a quatro, cinco relações por semana para casais dos 26 aos 40 anos. Essa frequência tende a diminuir aos 50, 60 anos, exatamente por conta de uma estabilização sexual natural da idade. Não há aquela necessidade de sexo diário. Esse casal vai ter uma média de duas vezes por semana. Daí em diante, a partir dos 60, 70, cai para uma vez por semana, uma a cada 10 dias e o espaço de tempo vai aumentando conforme a idade. Isso significa que os casais vão se acomodando sexualmente, mas é um comportamento muito mais caracteristicamente feminino. Quem dita a frequência é a mulher. Se ela se disponibilizasse mais vezes, o parceiro faria mais.

Mas existe uma frequência ideal?
O sexo bom, saudável, positivo é aquele que você faz na medida da sua satisfação. Não há uma regra que se possa pautar. Pode ser uma única relação e ela ser extremamente satisfatória, ou podem ser quatro semanais, mas ruins. O que acaba sendo valorizado pelo profissional que estuda o tema é quanto de satisfação se obtém no ato sexual — não a quantidade, mas a qualidade. Uma frequência alta talvez seja uma tentativa de resgatar o prazer, que pode estar esquecido.

Há como resgatar esse prazer?
Quando se percebe que o paciente está insatisfeito, parte-se para uma investigação da pessoa — o quanto ela ou ele está física e/ou emocionalmente bem — para saber se não há algum fator interferindo, como doença, medicamentos ou hábitos de vida. Diabetes, hipertensão, alterações hormonais, depressão, ansiedade, estresse, hábitos pouco saudáveis (dormir pouco, beber, fumar) — tudo isso prejudica o sexo. Pode ser que essa pessoa esteja bem nesses quesitos, mas o parceiro não. Depois vem a necessidade de uma atração mútua, sem a qual o sexo não é satisfatório. Há ainda a necessidade de uma boa convivência, uma harmonia no relacionamento. O sexo de casais em litígio pode ser intenso na hora, mas deixa a desejar depois. As mulheres evitam sexo quando têm mágoa, ressentimento, quando acontece alguma situação que deixa marcas negativas. São vários aspectos, embora seja automático iniciar uma atividade sexual. Nem sempre os resultados são positivos porque alguma questão enumerada anteriormente precisa ser resolvida. Digo sempre que solução para questões de saúde e dificuldades relacionais, nós temos. Mas não conseguimos motivar alguém para o sexo se a pessoa não tem motivação, não sente atração. Isso não temos como resolver no consultório.

A falta de sexo pode influenciar na saúde mental?
Na pesquisa, 2% dos homens e 7% das mulheres absolutamente nem pensam em sexo por isso, não se ressentem de não o fazer. Eles canalizam a libido para outras atividades, como carreira ou obras sociais. Quem se ressente é aquele que quer mais do que faz — esse, sim, fica bastante constrangido, com a autoimagem e a autoestima prejudicadas, o que traz repercussão para a vida como um todo. Temos estudos que mostram que não ser sexualmente bem resolvido acaba repercutindo em áreas não sexuais, como trabalho, convivência social e educação dos filhos.

A mídia aborda muito o assunto “frequência sexual”. Isso contribui para deixar as pessoas inseguras e ansiosas?
Acho que o cuidado que temos que ter é com regras fixas. Com respeito ao ritmo, à necessidade, ao repertório pessoal — sexo bom é esse, não aquele que a maioria pratica. Está mais do que difundido o quanto devemos respeitar gostos, interesses e diversidades em vários níveis, como hábitos de vida, escolha profissional, comida. Então, por que, sexualmente, eu deveria ter um critério fixo a seguir?

Qual é a diferença entre um hiperativo sexual e um compulsivo?
O hiperativo consegue manter as outras atividades, como trabalhar, dormir, passear, produzir e conviver com diferentes pessoas e atividades. O compulsivo vai, pouco a pouco, perdendo essa capacidade e se torna refém. Ele para de trabalhar, dorme menos, come mal, desgasta-se fisicamente. Começa a ter doenças por desgaste físico e pela imunidade abalada. Passa a não se cuidar, fazer sexo de risco por não estar sempre preparado — com uma camisinha, por exemplo —, quando a necessidade vem. Vive em função do sexo e se prejudica em diversas instâncias. Quando não o encontra, pratica sexo virtual e se torna refém da pornografia. A vida toda fica completamente voltada para a atividade, que passa de duas, três vezes por dia para 10, 15. Ele passa o dia inteiro fazendo sexo, se enfraquecendo, e acaba perdendo poder aquisitivo, emprego e convivência social.

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