Reprodução assistida: fator financeiro pode impedir sonho de muitas mulheres

Em Minas Gerais, espera pelo tratamento pelo Sistema Público de Saúde (SUS) é de três anos

por Valéria Mendes 25/04/2016 10:40

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A reprodução assistida é um sonho distante para boa parte da população brasileira, já que os custos ultrapassam os R$ 20 mil para uma única tentativa (foto: SXC.hu)
A maternidade como principal realização da vida de uma mulher ainda é um paradigma a ser desconstruído culturalmente. Se, de um lado, muitas carregam o peso do preconceito pela decisão de não ser mãe, de outro vemos o desejo de tantas outras em gestar, parir e educar meninos e meninas assombrado pela dificuldade de engravidar. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a infertilidade atinge entre 8% e 15% dos casais em idade fértil. A frustração que abala emocionalmente não só, mas principalmente as mulheres, é sustentada na visão ainda recorrente de que ‘toda mulher nasceu para ser mãe’ e que casamento sem criança é união fracassada. Fato é que ninguém passa por essa vida sem ter que encarar a pergunta: ‘quando virá o bebê?’Para aquelas que sonham ter um nos braços, mas enfrentam a infertilidade, o impacto dessa cobrança social pode ser um peso difícil de suportar.

As técnicas de fecundação assistida evoluíram muito desde o nascimento do primeiro bebê de proveta, em 1978. O 9º Relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), publicado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mostra que, no Brasil, foram realizados 35.615 ciclos de fertilização in vitro em 2015. No ano anterior, o número foi de 27.871. A agência considera como ciclo de fertilização in vitro os procedimentos médicos nos quais a mulher é submetida ao estímulo ovariano e retirada de óvulos para realizar a reprodução humana assistida.

LONGA ESPERA

Apesar dos números expressivos, a reprodução assistida é um sonho distante para boa parte da população brasileira, já que os custos ultrapassam os R$ 20 mil para uma única tentativa. A portaria nº 426, de 2005, instituiu a Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana no Sistema Público de Saúde (SUS). No entanto, a espera é longa e pode chegar a até três anos. Em Minas Gerais, é o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) que presta assistência em reprodução assistida pelo sistema público. Responsável técnica pelo programa e Reprodução Humana Assistida do HC-UFMG, Inês Katerina diz que mais de 2 mil famílias estão na fila para fertilização in vitro no estado.

O primeiro passo para ingressar no programa é uma consulta em qualquer posto de saúde. De lá, o casal é encaminhado para o Serviço de Infertilidade Conjugal do PAM Sagrada Família, porta de entrada do serviço do Hospital das Clínicas da UFMG. Para a fertilização in vitro com óvulo próprio, a idade máxima é de 42 anos para ingressar no programa. Com óvulo doado, o HC segue a resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), que é a idade máxima de 50 anos. Todo o tratamento é gratuito, mas a medicação é custeada pela família.

A iniciativa privada também tem desenvolvido programas para facilitar o acesso de casais sem condições financeiras para arcar com o custo total do tratamento. Em Belo Horizonte, o ‘Programa Bebê’, do IBRRA Medicina Reprodutiva, oferece descontos que variam de 30% a 40% a pacientes com renda familiar mensal de até R$ 5 mil.

A cabelereira Cibele de Souza, dem 36, de Manhuaçu (MG), iniciou o tratamento pelo projeto em setembro do ano passado e, na primeira tentativa, conseguiu realizar o sonho da gestação. Grávida de 34 semanas de Lívia e Laura, ela conta que, na cidade onde mora, não tem nenhum serviço de reprodução humana assistida. Desde que se casou, há 10 anos, ela e o marido nunca preveniram a gravidez e sempre falavam em ter filhos. “De seis anos para cá, as tentativas frustradas começaram a me angustiar”, relata. Foi então que o casal decidiu vir a Belo Horizonte à procura de atendimento especializado.

Rodrigo Clemente/EM/D.A Press - 2013 1/11/13
Bruno Scheffer, diretor do IBRRA Medicina Reprodutiva, afirma que 95% dos casais engravidam no primeiro ano de tentativa (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press - 2013 1/11/13)
Diretor do IBRRA Medicina Reprodutiva, médico ginecologista e especialista em reprodução humana, Bruno Scheffer afirma que 35% dos casais atendidos na clínica integram o ‘Programa Bebê’, que já existe há 13 anos.

Quando procurar ajuda
Bruno Scheffer afirma que 95% dos casais engravidam no primeiro ano de tentativa. “Quem está tentando engravidar há mais de um ano e não consegue deve procurar ajuda”, salienta. O diretor do IBRRA explica que a mulher nasce com 2 milhões de óvulos e, já na puberdade, esse número cai para 500 mil. Por isso, no caso das mulheres, a idade é um fator primordial para as chances de gravidez. “Em pacientes com até 35 anos, a chance de engravidar é uma para 25. Com 42, passa de uma para 325. Além disso, quanto maior a idade, menor a qualidade do óvulo”, diz.

Coordenadora do Centro de Reprodução Humana da Rede Mater Dei de Saúde, a ginecologista especialista em fertilidade Rívia Lamaita afirma que as técnicas de reprodução humana assistida mais utilizadas são a inseminação intrauterina e a fertilização in vitro, que pode ser do tipo convencional ou ICSI. “O grande trunfo da atualidade é a individualização do tratamento de acordo com a causa de infertilidade de cada casal”, afirma.

A inseminação artificial, segundo ela, é de baixa complexidade e consiste no estímulo da ovulação e no preparo do sêmen que será introduzido nas trompas da mulher. Já a fertilização in vitro é considerada técnica de alta complexidade. “Os óvulos da mulher são retirados e levados para o laboratório para serem fecundados. Lá, são selecionados os melhores espermatozoides. Na técnica convencional, os espermatozoides penetram naturalmente o óvulo. Já na técnica ICSI, eles são selecionados um a um e injetados diretamente no óvulo”, explica.

Vinte e quatro horas depois da fecundação em laboratório tem-se um pré-embrião ou zigoto. Com a divisão celular, a partir do segundo dia já se tem o embrião propriamente dito. “Sabemos que os melhores resultados se dão quando o embrião é transferido do segundo ao quinto/sexto dia de desenvolvimento”, diz.

No Brasil, a regra para transferência é de dois embriões até 35 anos; para mulheres de 36 a 39, três embriões e, a partir dos 40 até os 50, quatro. Já no caso da inseminação, a indução da ovulação é menor e espera-se que a mulher ovule entre um a quatro folículos. Mais do que isso, o tratamento é contraindicado pela chance alta de gestação múltipla. “Até quatro folículos, a taxa estimada de gravidez múltipla é de 10%”, afirma Rívia Lamaita.

Arquivo Pessoal
Grávida de seis meses, Daniele Antunes e o marido, Marlei Vagner Lúcio, estão felizes com o sucesso do tratamento (foto: Arquivo Pessoal )
Apesar de jovem, a recepcionista Daniele Patrícia Antunes Coelho, de 21, teve que recorrer à reprodução assistida, pelo fato de o marido ser vasectomizado. Quando se casaram, há três anos, ela acreditou que a maternidade não seria prioridade na vida dela e, como o esposo já era pai de quatro crianças, ela entendia as razões dele para não querer mais filhos. No entanto, a vontade de ter um bebê foi crescendo e Daniele começou a ficar incomodada com a situação. Nessa época, a jovem sequer sabia que seria possível engravidar do companheiro. “Mais ou menos com um ano e meio de casados, a ideia de não ser mãe começou a me perseguir e resolvi pesquisar. Foi aí que descobri que poderia ser possível”, relata.
Com a medicação para estimular a produção de óvulos, Daniele conseguiu produzir 14. Desses, segundo ela, nove foram considerados de boa qualidade. A recepcionista ficou com cinco e doou os outros quatros óvulos. “Queria muito realizar o desejo de ser mãe. Deu certo pra mim e deu certo para outra mulher”, observa.

O ginecologista Bruno Scheffer diz que o Programa de Doação Compartilhada promove o encontro de duas mulheres em prol de um mesmo sonho. “As doadoras são selecionadas dentro dos critérios da Anvisa, que incluem ter menos de 35 anos e que ela seja submetida a vários exames sorológicos, incluindo agora também o zika vírus”, salienta. Nesses casos, a mulher receptora custeia a medicação da doadora e é uma forma de diminuir os custos do tratamento.

CONGELAMENTO
A doação de óvulos ocorre quando o fator de infertilidade é masculino. “Existe a situação da mulher que está tentando engravidar e o limite dela ser financeiro. E tem aquela que precisa de uma doação de óvulo e pode custear o tratamento da doadora. Cabe ao médico infertileuta cruzar essas duas pacientes”, explica. O diretor do IBRRA Medicina Reprodutiva ressalta que a prioridade é sempre da doadora. “Uma mulher de 42 anos tem chance de 5% de engravidar com óvulo próprio. Com óvulo doado, as chances aumentam para 70%. No Brasil, as mulheres dessa idade primeiro tentam engravidar com o óvulo próprio, mas na Europa, por exemplo, elas já vão direto para a ovodoação”, observa.

Grávida de seis meses de João Victor, Daniele e o marido, Marlei Vagner Lúcio, de 41, comemoram o sucesso do tratamento. “Com a ajuda da medicina pudemos realizar um sonho. É fantástico pensar que foi possível me tornar mãe graças a uma técnica que, há um ano e meio, sequer sabia que existia”, comemora.

Com o avanço da medicina nas técnicas de reprodução assistida, uma outra possibilidade é o congelamento de óvulos para preservar a fertilidade feminina. Bruno Scheffer ressalta que, se a mulher não vislumbra a maternidade antes dos 35, mas tem o desejo de ser mãe, a técnica deve estar contemplada nesse planejamento. O sucesso está diretamente relacionado à qualidade da matéria-prima e o fator que mais influencia nesse caso é a idade. A chance de engravidar é de 40% para a mulher que congela seus óvulos antes dos 35. Para se ter uma ideia, a chance de um casal engravidar naturalmente é de 25% ao mês até os 35 anos da mulher.

No Brasil, o custo do tratamento é próximo de R$ 12 mil. Para o especialista em reprodução humana, “ninguém sabe o que pode ocorrer no futuro e congelar óvulos é congelar a fertilidade”.

Principais técnicas

Inseminação artificial
A técnica consiste em colocar o sêmen do parceiro ou de um doador dentro do útero para facilitar o encontro do espermatozoide com o óvulo. Antes disso, no entanto, o esperma passa por uma filtragem, em que são selecionados os espermatozoides com formato e movimentação normais. Os espermatozoides são injetados no útero com o auxílio de um cateter. O processo todo dura aproximadamente 40 minutos e pode ter ou não indução de ovulação.

Fertilização in vitro
Também conhecida como ‘bebê de proveta’, a técnica consiste na união do óvulo com o espermatozoide, em laboratório, para formar pré-embriões, que, posteriormente, serão transferidos ao útero.
Depois da estimulação ovariana, processo que varia entre 7 a 10 dias, uma agulha é inserida pela vagina para aspiração dos óvulos. No laboratório, os óvulos serão colocados em contato com os espermatozoides e os pré-embriões obtidos serão observados entre o período de 2 até 5 dias, para então serem transferidos ao útero.
Bruno Scheffer explica que os embriões excedentes e de boa qualidade podem ser congelados por meio da técnica de vitrificação e ser utilizados posteriormente.

Doação de óvulo
Uma mulher infértil pode gestar com a doação de óvulo de outra mulher que é fecundado em laboratório com sêmen do marido e inserido do corpo da receptora. A mulher que recebe a doação precisa tomar hormônios para preparar o corpo para receber o embrião.

Doação de espermatozoide
Quando o homem tem ausência total de espermatozoides, o casal pode comprar uma amostra de sêmen em um banco de esperma. A fecundação pode ser realizada in vitro ou por meio de inseminação artificial, de acordo com a fertilidade da mulher.

Doação de útero
Quando o útero da mulher não tem condições de manter o embrião, o casal pode recorrer à chamada doação de útero. A legislação brasileira só permite essa doação de parentes da mulher: mãe, irmã, prima e tia. Nesse caso, ocorre uma fertilização in vitro usando o óvulo da mãe e o espermatozoide do pai, e o embrião é implantado em um útero emprestado.

FONTE: IBRRA Medicina Reprodutiva

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