Rivalidade feminina é mito: você sabe o que é sororidade?

Com linguagem simples e didática, Babi Souza, jornalista e idealizadora do projeto "Vamos Juntas?", lança livro que fala da importância do apoio entre as mulheres

por Valéria Mendes 11/04/2016 10:00

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Divulgação/ Yago Barbosa
Projeto que defende a união das mulheres pela igualdade de gêneros e que virou livro já ultrapassa 300 mil seguidoras no Facebook (foto: Divulgação/ Yago Barbosa)
Esqueça as mentiras que te contaram. As mulheres não são falsas, não são rivais, invejosas ou interesseiras. Nada disso é intrínseco à condição feminina. Assim como os homens, as mulheres experimentam todos os tipos de sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Pense em alguém que estaria ao seu lado em um momento delicado de sua vida. Qual a possibilidade de ser uma mãe, uma irmã, uma amiga, uma mulher? É esse o convite que a filósofa Márcia Tiburi faz no prefácio do livro Vamos juntas? – O guia da sororidade para todas, da jornalista Babi Souza, lançado em março. Com linguagem simples e didática, a autora quer apresentar às leitoras um dos conceitos básicos do feminismo que joga por terra o mito da rivalidade feminina. Sororidade é “olhar carinhoso para outra mulher”, “a união e a aliança entre mulheres para alcançar objetivos comuns”, “enxergar outra mulher como irmã na luta por direitos iguais”, “versão feminina da palavra fraternidade”.

Para a autora, o entendimento da palavra sororidade é uma ótima forma de fazer com que novas mulheres entendam a importância do feminismo, já que o termo é ainda muito malvisto. “A rivalidade entre as mulheres é algo tão enraizado, que não se nota. Sinto que estamos perdendo tempo em alimentar esse tipo de sentimento, sendo que, juntas, somos mais fortes. O que ocorre, na prática, é que nós mesmas nos boicotamos. O mercado de trabalho é um ótimo exemplo quando escutamos mulheres dizendo que preferem um chefe homem a uma chefe mulher. Se é para se ter uma chefe mulher, que seja eu, e nunca, a outra. Quando uma mulher fala que outra dirige mal, ela está ajudando a construir a ideia de incapacidade feminina e prejudica a si mesma”, exemplifica.

Divulgação
(foto: Divulgação)
Na apresentação do livro de Babi Souza, Márcia Tiburi afirma que “muita gente foi ensinada a acreditar no mito da rivalidade feminina. Trata-se de um mito próprio da ideologia da dominação masculina, que se sustenta em mil invenções sobre uma suposta natureza feminina avessa à condição das mulheres como seres capazes de apoiar e ajudar umas às outras”. Para ela, a união de mulheres é vista pelo patriarcado como um perigo que deve se evitar. “A luta feminista se dá nas duras esferas do poder, mas também no cotidiano, ali onde é preciso mudar a cultura nas suas estruturas mais sutis, nas quais o preconceito avança”, afirma a filósofa.

LAÇOS
A jornalista Babi Souza não sabe dizer se a ausência da sororidade gera rivalidade ou se o fato de as mulheres acreditarem que são rivais é que gera a ausência de sororidade. “Não importa. O fato é que fomos ensinadas a achar que não temos motivos para nos unirmos ou, ainda, que, mesmo se quisermos nos unir, isso não seria possível, afinal, somos mulheres e apenas os homens são capazes de ter laços verdadeiros e intocáveis”, observa.

Assim, a autora defende a união como a melhor saída para as mulheres em sua luta contra o machismo e a opressão. “Machismo é o comportamento expresso por opiniões ou atitudes de uma pessoa que não aceita a ideia da igualdade de direitos e deveres entre os gêneros sexuais, favorecendo o sexo masculino”, explica.

Para ela, a crença de que não temos capacidade de ser gentis umas com as outras e de que somos naturalmente rivais ajuda a sustentar esse machismo estrutural. “A noção de que temos menos valor ou capacidade por ser mulheres nos rodeia desde a infância. Nascer um ser do sexo feminino significa para a nossa sociedade ter menos direitos, menos liberdade e mais deveres do que os homens. A maioria desses discursos já é identificada por muitas mulheres como machismo, mas a ideia de que não temos a capacidade de criar laços entre nós ainda passa despercebida por grande parte da sociedade. Uma prova disso é o fato de que, de modo geral, poucas pessoas conhecem o significado de sororidade. Nenhum fator biológico nos torna menos capazes que os homens de ser amigas, mas ouvir e acreditar nisso a vida toda, sim”, salienta.

JUNTAS E MAIS FORTES
Outra palavrinha muito em voga atualmente é empoderamento. “Empoderar significa nos apropriarmos do nosso direito de existir na sociedade”, define Babi Souza. Por isso, a sororidade é peça-chave na transformação social e luta contra o machismo, já que ela empodera as mulheres a partir da solidariedade entre elas. “É um exercício que desafia as relações patriarcais, em que o homem é tido como um ser privilegiado e detentor do poder”, diz. Assim, a sororidade traduz em sentimento a noção de coletividade e de que, ‘juntas, somos mais fortes’.


Renato Weil/EM/D.A Press
Uma das muitas manifestações em favor dos direitos da mulher, no Centro de BH (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)

Desafios frente a violência
A cada três horas, uma mulher é estuprada no Brasil. No mundo, a violência doméstica mata cinco mulheres por hora. Apenas 5% de cargos de chefia em empresas são ocupados por mulheres. O salário da mulher é 24% mais baixo que o do homem na mesma função. As mães ainda fazem quase duas vezes e meia mais trabalho doméstico e de cuidados com os filhos e filhas que seus companheiros.

Para a coordenadora do Grupo de Estudo sobre Gênero, Sexualidade e Sexo em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora da linha de pesquisa em Movimentos Sociais e Ações Coletivas da pós-graduação da Faculdade de Educação da UFMG, Adla Betsaida Martins Teixeira, o feminismo é importante para dar cara ao sofrimento das mulheres. “Nem todas as mulheres sofrem as mesmas opressões e dificuldades. Como movimento social, o feminismo expressa esse problema. O que a sororidade traz de reflexão importante é que, enquanto mulher, passamos por processos de explorações comuns. O desafio atual é enxergar, aceitar a diferença e, sempre que necessário, se posicionar enquanto grupo para levantar a bandeira de causas específicas”, pondera. No Brasil, por exemplo, as mulheres negras são mais vítimas de violência sexual e doméstica que as mulheres brancas. “Organizar-se enquanto grupo é um exercício de humildade, que prescinde na escuta e compreensão da dificuldade do outro”, pondera.

IDENTIDADE
A jornalista Babi Souza reconhece que as dores das mulheres são diferentes e que, mesmo intragênero persistem desigualdades. “Não estamos propondo que se amem todas as mulheres, mas um dos objetivos do movimento feminista é fazer com que nenhuma mulher seja odiada apenas pelo seu gênero”, pondera. Para ela, quando a mulher se identifica com a vivência de outra mulher ou se coloca no lugar da outra, a mágica da sororidade ocorre.

Dez formas de colocar a sororidade em prática:

1. Não enxergue as mulheres à sua volta como rivais só por serem mulheres
2. Não use critérios diferentes para julgar homens e mulheres
3. Quando uma menina sofrer algum tipo de assédio ou violência sexual, nunca ache que a culpa foi dela
4. Não estimule os sentimentos de inveja ou rivalidade entre as mulheres à sua volta
5. Se sua amiga for traída pelo namorado, não coloque a culpa na outra menina envolvida
6. Quando uma desconhecida precisar de ajuda, coloque-se à disposição
7. Não incite qualquer tipo de competição entre as suas amigas
8. Tente não criticar abertamente as mulheres à sua volta.
9. Não responsabilize suas amigas pelos filhos ou pela limpeza da casa
10. Na próxima vez que estiver em uma situação de risco na rua, observe: do seu lado pode haver outra mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?

FONTE: Vamos juntas? – O guia da sororidade para todas

 Yago Barbosa/Divulgação
Idealizadora do 'Vamos Juntas?' na web, Babi Souza diz que recebe, em média, 80 relatos por dia de mulheres jovens e adultas, de todo canto do país (foto: Yago Barbosa/Divulgação)


Vamos Juntas?
Babi Souza ganhou projeção nacional no ano passado, com a idealização do projeto “Vamos Juntas?”, que já ultrapassa a marca das 300 mil seguidoras no Facebook. Desde então, foi eleita pela Think Olga, ONG dedicada ao empoderamento feminino, como uma das mulheres inspiradoras de 2015. O projeto também foi um dos cinco escolhidos, entre 63 avaliados, por um grupo de 13 feministas formadoras de opinião em uma premiação da revista Elle Brasil.

O “Vamos Juntas?” é um projeto que incentiva mulheres a oferecer companhia e apoio umas às outras em espaços públicos, com o objetivo de aumentar a sensação de segurança e incentivar a parceria feminina. Tudo começou em julho de 2015, quando a jornalista publicou uma arte no Facebook, com um texto que ia direto ao ponto: “Já andou sozinha pela rua e se sentiu em situação de risco? A menina que está ao seu lado também”. A publicação repercutiu tanto entre as amigas e amigos de Babi, que a jornalista resolveu criar a página “Vamos Juntas?”. Em 24 horas, a fanpage atingiu a marca 5 mil curtidas. Em 48 horas, 10 mil. Em duas semanas e meia, 100 mil seguidores de todos os cantos do país.

IMPACTO
Desde a primeira imagem até o lançamento do livro, em março deste ano, foram oito meses. “Recebemos, em média, 80 relatos por dia e, infelizmente, nunca conseguimos zerar a caixa de entrada. São mensagens de mulheres, jovens e adultas, de todo o canto do país. Não foi à toa que, um mês depois do lançamento do projeto, optei por pedir demissão do meu emprego fixo em uma agência digital”, relata a jovem. Hoje, Babi é dona da própria empresa.

A jornalista Carla Peixoto elaborou uma pesquisa sobre o impacto do “Vamos Juntas?” na vida das mulheres que apoiavam o movimento. O trabalho desenvolvido em setembro de 2015, no curso MBA em mídias digitais da Universidade Estácio, de Recife, constatou que 91,2% afirmaram que o projeto provocou uma mudança de atitude em relação a outras mulheres e 76,1% disseram que passaram a se sentir mais seguras ao transitar pelas ruas depois de aderir ao movimento.

O outro lado da realidade
Professora da PUC Minas e coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Pesquisas Feministas (GPFEM), Anete Roese afirma que, na cultura ocidental, onde predomina o machismo altamente refinado, a ideia de que as mulheres são rivais e inimigas faz parte daquilo que se pensa e se repete sobre elas, sem que se leve em conta o outro lado da realidade. “As mulheres se ajudam mutuamente em muitas circunstâncias – como no parto, no cuidado das crianças, em casos de doenças, em sofrimentos variados. Elas constroem relações duradouras e profundas. As mulheres se respeitam, são afetivas entre si, se elogiam mutuamente, se gostam”, observa.

Para ela, a rivalidade feminina é uma construção cultural, que integra o contexto de depreciação que a mulher – seu papel, seu lugar, seus sentimentos, suas atitudes e competências – sofre na sociedade. “O que se diz sobre as mulheres, as piadas que se fazem sobre elas, os questionamentos sobre o modo como se relacionam faz parte de um padrão cultural que reinstitui cotidianamente formas de violência física e psicológica sobre as mulheres, para que antigos papéis permaneçam intocados. Assim, justifica-se sutilmente em uma cultura, o fato de as mulheres receberem salários menores, permanecerem em profissões menos valorizadas, fazerem serviços que nem sequer têm remuneração, sofrerem violência porque, supostamente, não fazem as coisas como deveriam”, afirma Anete Roese.

IRMÃS
A especialista diz que a sororidade não é uma idealização conceitual. “A sororidade é colocar-se ao lado de uma mulher como uma irmã e lutar junto com ela por algum direito, defendendo-a de alguma injustiça sofrida. A sororidade não é uma prática ou conceito feminista em si, mas o feminismo dá relevância, reconhece e aponta para algo que precisamos observar melhor. Claro, os limites do feminismo existem, pois o feminismo não é um movimento perfeito. O movimento feminista, quando se pauta em uma construção colonizadora racista e classista, por exemplo, não é sororial”, pondera.

A professora da PUC Minas afirma, ainda, que, em sua essência, o feminismo é plural e tem ajudado muitas mulheres a reconhecer e respeitar outras mulheres como irmãs, sendo de outros gêneros, etnias, classes, idades, capacidades.

#MaisAmorEntreNós
Na jornada por direitos iguais para homens e mulheres, a internet tem se mostrado um campo fértil para o debate sobre igualdade de gênero. Campanhas como #MeuPrimeiroAssédio, idealizada pela ONG Think Olga, mostrou que a idade média do primeiro assédio na vida de uma mulher é de 9,7 anos e que grande parte dos abusos (65%) são cometidos por conhecidos da vítima. Outra hashtag que invadiu as redes sociais no fim do ano passado, #MeuAmigoSecreto incentivou o debate sobre a naturalização do machismo.

Em março deste ano, em razão da celebração do Dia Internacional da Mulher, uma nova mobilização sustentada justamente pelo conceito de sororidade ganhou as redes. A ideia do #MaisAmorEntreNós é que mulheres ajudem umas às outras em diferentes tarefas. Para participar, basta que você publique a hashtag em alguma rede social, enumerando o que pode fazer por outra mulher, como cuidar de uma criança para que a mãe possa ir ao cinema, acompanhar uma mulher numa consulta médica, dar aulas de matemática ou inglês, entre outros.


Vanessa Beco, coordenadora da Organização de Mulheres Negras, gestora do Fórum das Juventudes da Grande BH e ativista do feminismo negro

A rivalidade feminina é uma construção cultural?
A ideia de rivalidade feminina está relacionada a uma construção social machista e sexista. Um estigma pesado e que não condiz com a realidade da maior parte das mulheres. Há reprodução e estigmatização, mas, por outro lado, há um cotidiano de quebra de tabus e estereótipos.

Em que medida a sororidade é uma idealização conceitual, se pensarmos que o feminismo também pode ser excludente quando consideramos a mulher negra, a mulher trans e até a mulher que é mãe?

O movimento feminista tem sua importância histórica enquanto 'movimento de direitos humanos', que vem travando batalhas em prol de uma sonhada igualdade entre homens e mulheres nas sociedades mundo afora. Porém, o movimento feminista é composto por pessoas que carregam preconceitos e, na maior parte de sua história, é um movimento de maioria branca, pertencente a camadas privilegiadas da sociedade. Essas mulheres não deixaram de expressar, em diversos momentos, racismo, homofobia etc.

É importante saber e reconhecer que, quando as mulheres brancas reivindicavam o seu direito de ir às ruas, as mulheres negras já ocupavam as mesmas ruas há anos, trabalhando de diversas formas. Esse é só um pequeno exemplo da diferença de lugares ocupados socialmente e racialmente. O que há de conquistas e avanços às mulheres negras devem-se, sobretudo, a elas mesmas.

Dentro do movimento feminista, em termos de viabilização de conquista de direitos e igualdade de gênero, qual o impacto da sororidade? A sororidade é um elemento-chave de luta?

A sororidade é uma proposta importantíssima de empoderamento de mulheres a partir de solidariedade e cumplicidade entre elas. Mas em uma sociedade em que a população negra ainda não consegue ser humana plenamente e luta cotidianamente contra o seu genocídio, não temos de forma verdadeira ainda a sororidade entre mulheres brancas e negras. O que temos dentro do feminismo atualmente e de forma bastante interessante e significativa são algumas parcerias, que têm resultado em construções coletivas importantes e que espero que fluam e culminem em um momento em que a igualdade exista de forma verdadeira ao menos intragênero. Aí, quando esse dia chegar, acho que estaremos a um passo mais curto da plena igualdade entre homens e mulheres.

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