Baixa estatura pode ser evitada com terapia de micróbios

Estudo mostra que é possível realizar uma intervenção terapêutica contra a desnutrição usando micróbios que compensem os efeitos negativos dessa condição alimentar

por Isabela de Oliveira 22/02/2016 09:30

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Ilustração: Soraia Piva / EM / D.A Press
Segundo pesquisadores, a descoberta pode, no futuro, melhorar fórmulas nutricionais infantis (foto: Ilustração: Soraia Piva / EM / D.A Press)
Três estudos publicados nas revistas Science e Cell mostram que micróbios presentes no intestino de crianças interagem com componentes da dieta para influenciar na saúde e no bem-estar dos pequenos. Em conjunto, os resultados, atingidos por dois grupos de pesquisa, demonstram como um microbioma intestinal alterado pode influenciar na estatura de um indivíduo e como determinadas estirpes de micro-organismos desempenham papel particularmente forte nesse processo de crescimento.

Na Science, a equipe de Jeffrey Gordon, da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, mostra que é possível realizar uma intervenção terapêutica contra a desnutrição usando micróbios que compensem os efeitos negativos dessa condição alimentar. Estudando crianças do Maláui, na África, os cientistas descobriram que as subnutridas têm a flora intestinal imatura, condição relacionada ao crescimento atrofiado do corpo.

Os cientistas coletaram amostras fecais de meninos e meninas entre 6 a 18 meses de idade, saudáveis e desnutridos, e transplantaram o material em ratinhos de cinco semanas de vida sem quaisquer micróbios no intestino. Os animais que receberam colônias de doadores saudáveis ganharam significativamente mais peso e massa corporal magra do que os roedores com amostras fecais de doadores subnutridos. A coabitação de ratos dos dois grupos permitiu que a microbiota saudável fosse repassada aos desnutridos, que recuperaram o crescimento.

Na revista Cell, Gordon detalha que açúcares que contêm ácido siálico, substância relacionada ao desenvolvimento normal do cérebro, e são mais abundantes no leite materno de mães com filhos saudáveis do que nas que geram crianças de baixa estatura. O estudo, também realizado no Maláui, estabelece bases para identificar que componentes do leite materno são necessários para a saúde infantil e como eles interagem com a microbiota intestinal dos bebês.

Os autores querem expandir a pesquisa para verificar a abrangência das conclusões. A partir de achados futuros será possível, segundo eles, melhorar fórmulas nutricionais infantis, bem como alimentos terapêuticos utilizados no tratamento da desnutrição. “Esse é apenas o começo de uma longa jornada. Um esforço para compreender a relação do crescimento saudável com a microbiota intestinal e sobre como podemos estabelecer se a reparação durável da imaturidade dessa microbiota pode proporcionar melhores resultados clínicos”, diz Gordon.

Em ratos
Também na Science, Martin Schwarzer, do Institut de Génomique Fonctionnelle de Lyon, na França, traz outra alternativa de uso de micro-organismos para amenizar os efeitos da desnutrição. Ele identificou duas espécies de micróbios, o Ruminococcus gnavus e o Clostridium symbiosum, que, por si só, reparam problemas de estatura provocados pelo mau funcionamento do hormônio do crescimento. Em ratos, as duas estirpes mostraram-se quase tão eficientes quanto uma microbiota completa.

“Nós prevemos que, com a terapia nutricional, intervenções microbianas que utilizam estirpes bacterianas selecionadas podem representar uma nova estratégia complementar para amenizar os efeitos adversos da desnutrição crônica em humanos. Esse problema afeta mais de 160 milhões de crianças abaixo de 5 anos em países de baixa e média rendas.”

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