Tristeza na terceira idade: entenda os perigos da depressão em idosos

Uma das maiores autoridades da psicogeriatria, Charles Reynolds trabalha para encontrar formas de prevenir a doença em países pobres

por Revista do CB 19/11/2015 15:00

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O mundo está envelhecendo — e se entristecendo. Só no Brasil, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2013 (publicada em 2014), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os idosos são os que mais sofrem com a depressão. Dos 11,2 milhões de adultos diagnosticados com a doença naquele ano, a faixa etária mais afetada foi a de 60 a 64 anos: 11,1% do total.

Divulgação /  Pittsburgh University
Charles Reynolds (foto: Divulgação / Pittsburgh University)
Charles Reynolds, professor de psiquiatria geriátrica do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, é referência nos estudos que articulam velhice e depressão. Conversamos com o médico durante a 33ª edição do Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Reynolds, diretor do Instituto do Envelhecimento da universidade norte-americana, comanda ainda o John A. Hartford Center of Excellence in Geriatric Psychiatry (Centro de Excelência em Psiquiatria Geriátrica, em tradução livre). O trabalho dele tem como foco a medicina preventiva. Luto, mudanças de humor, distúrbios do sono e distúrbios mentais na terceira idade são alguns dos temas abordados em suas mais de 600 publicações — que foram citadas em mais de 36 mil outros trabalhos. “Nossos trabalhos estão se destacando nos jornais especializados de maior impacto no mundo, como o Lancet, o The New England Journal of Medicine, o Jama e o The British Medical Journal”, enumera. “Com nossas pesquisas, tentamos atingir o público médico geral, além do público médico especializado em saúde mental.”

Cofundador do Global Consortium on Depression Prevention (Consórcio Global para a Prevenção da Depressão), uma rede que reúne investigadores das Américas, da Europa, do Japão, da Austrália e da Nova Zelândia, o médico também trabalha para encontrar formas de prevenir a doença em países com poucos recursos financeiros. Seu mais recente trabalho, publicado pela revista especializada Lancet, fala sobre os perigos da resistência ao tratamento, comum em pacientes idosos. “A resistência ao tratamento é um transtorno psiquiátrico comum e com grave risco de vida para pessoas idosas”, alerta.


A depressão em idosos está aumentando ou diminuindo?
Como as pessoas estão vivendo mais e desenvolvendo mais problemas médicos e neurológicos, podemos ver um aumento nos sintomas depressivos. Mas acho que, de alguma forma, a boa notícia é que estamos aprendendo como prevenir a depressão e já sabemos como tratar melhor a doença. Estamos tentando ensinar a nossos colegas da atenção primária a importância de rastrear a depressão para que, assim que identificada, a doença possa ser tratada adequadamente.

Idosos são mais propensos a desenvolver depressão?
Alguns idosos sim, especialmente os que estão sob cuidados médicos ou hospitalizados. Quanto mais grave a comorbidade, quanto mais incapacitante a doença que o idoso estiver enfrentando for, maiores as chances de ele desenvolver depressão. Depressão em idosos é muito mais cruel que comorbidades médicas, cognitivas e/ou incapacitantes. Se você observar a comunidade idosa como um todo, os níveis de depressão são, na verdade, menores em idosos que em adultos. Mas se você olha o cenário clínico — idosos que estão com a saúde prejudicada ou que têm problemas psicossociais —, você realmente encontra níveis maiores de depressão.

Em vários trabalhos, o senhor cita biomarcadores que seriam indicativos de depressão. A ciência já sabe quais seriam esses biomarcadores?
Temos boas pistas de quais biomarcadores podem nos dizer quem está sob risco e como os tratamentos que temos hoje realmente funcionam. São, em sua maioria, proteínas que protegem particularmente contra inflamações, preservando a saúde celular e neurovascular. Elas podem nos dizer sobre quais pacientes estão correndo mais riscos e como nossas intervenções ajudam a melhorar os tratamentos existentes.

Há algo que se possa fazer durante a vida adulta para prevenir a depressão na terceira idade?
Provavelmente, a coisa mais importante de todas é a atividade física. Achamos que níveis elevados de exercício ao longo da vida, especialmente na meia-idade, podem ser importantes para ajudar as pessoas a envelhecerem de uma maneira saudável e para reduzir incidentes de demência e outros distúrbios mentais comuns em uma idade mais avançada, como a depressão. Há um grande campo de interesse nos Estados Unidos em como a atividade física pode promover a saúde cerebral e o condicionamento cognitivo em idosos.

Uma pessoa que passou por vários episódios de depressão ao longo da vida está mais vulnerável a desenvolver depressão na terceira idade?
Sem dúvidas. Um histórico de depressão é um indicativo de que há maiores riscos de aquela depressão retornar na fase idosa da vida. Por isso, encorajamos nossos pacientes e suas famílias a terem uma perspectiva de vida a respeito da depressão.

Existe alguma diferença no tratamento do adulto e do idoso em depressão?
Os tratamentos são basicamente os mesmos. Podem ser farmacológicos ou com psicoterapia. Muito frequentemente, temos que começar com doses menores com os idosos e ir um pouco mais devagar até encontrarmos a dose ideal. O problema é ter certeza de que o paciente idoso está tomando a dose adequada e que essa dose se mantenha por um período de tempo suficiente não só para deixá-lo bem, mas para mantê-lo bem.

Em quais pesquisas o senhor está trabalhando ultimamente?
Os temas de nossas pesquisas têm a ver com prevenção e tratamento de transtornos do humor, particularmente depressão severa em idosos. Temos mostrado que bons tratamentos funcionam para reduzir os riscos de suicídio e podem ser adequadamente implementados na medicina em geral. Bons tratamentos podem, também, reduzir os riscos de recaídas e de recorrência da doença. Atualmente, estamos trabalhando nos fatores que podem identificar se um paciente poderá ou não responder bem a tratamentos específicos. Por exemplo, descobrimos que certos indicadores de performance cognitiva podem nos dizer que pacientes são mais prováveis de responder a certos tratamentos. Esse é um avanço importante.

A depressão, em idosos ou em adultos, pode causar outros problemas de saúde?
Sim, depressão é um fator de risco para infarto, por exemplo, assim como para demência. Esperamos que, tratando a depressão adequadamente e mantendo as pessoas bem de saúde, poderemos reduzir os riscos para doenças demenciais em idosos.

Já existe cura para a depressão?
Não existe, ainda, uma cura. Depressão é uma doença crônica e recorrente. Sabemos como lidar com ela, como fazer com que as pessoas melhorem, como mantê-las bem e, agora, estamos aprendendo como preveni-la. Mas não falamos em “cura”, falamos em tratamentos que poderão ajudar a administrar essa doença crônica.

Como a família pode ajudar um idoso em depressão?
A família pode ajudar encorajando o idoso a começar um tratamento e permanecer nele. Meu trabalho é muito mais simples se a família está trabalhando comigo. Se não tenho o suporte da família, é muito difícil fazer um bom trabalho. Gosto de dizer que o cuidado é focado no paciente, mas embasado pela família.

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