Leite materno: cientistas identificam 20 substâncias que protegem bebês de inflamações e infecções

Até então, sabia-se da existência de apenas três

por Vilhena Soares 26/10/2015 10:00

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Apenas o leite materno proporciona uma vantagem imunológica (foto: SXC.hu)
Com alto valor nutricional, o leite materno tem os benefícios aos bebês comprovados cientificamente. Entre eles, protegê-los de inflamações e infecções. Agora, cientistas dos Estados Unidos conseguiram identificar substâncias que estão por trás dessa vantagem imunológica. Segundo eles, o trabalho, detalhado nesta semana na revista Mucosal Imonology, pode ajudar no desenvolvimento de remédios mais eficazes de combate às duas complicações.

O estudo teve como base resultados de pesquisas anteriores indicando a presença de moléculas promissoras para o tratamento de infecções no leite materno. “Tem sido demonstrado que esse alimento natural contém nutrientes e moléculas bioativas importantes para a imunidade e o desenvolvimento infantil”, diz ao Correio Hildur Arnardóttir. Segundo o coautor do estudo e pesquisador do Brigham and Women’s Hospital (BWM), em Boston (EUA), eles avançaram ao identificar que há uma quantidade maior dessas substâncias do que a imaginada. “Um estudo anterior havia identificado apenas três. Por isso, usamos uma nova abordagem de análise em nosso laboratório e chegamos a um reservatório com cerca de 20”, complementou.

As substâncias identificadas por meio de técnicas avançadas de análise são chamadas de mediadores pró-resolução especializadas (SPM, na sigla em inglês), já conhecidas pela capacidade curativa, incluindo a melhora de infecções, a redução de inflamações e a cicatrização de feridas. “As SPMs consistem em três famílias separadas de molécula. Cada membro das famílias estimula a resolução da inflamação e da infecção. Foram encontrados alguns desses mediadores derivados de lípidos em vários outros órgãos e tecidos humanos, mas esta é a primeira vez que se identifica quase todos eles no mesmo tecido (o mamário)”, detalha Arnardóttir.

Os cientistas resolveram testar a eficácia dessas moléculas em um experimento com ratos infectados por bactérias do grupo Escherichia coli, que podem causar problemas como infecção urinária e gastroenterite. As moléculas de SPM melhoraram a condição dos animais. “Nossos resultados sugerem um papel para a SPM na modulação da inflamação e da infecção e seu estímulo durante o desenvolvimento imunológico precoce, o que reforça ainda mais a importância do leite materno para as crianças”, destacou o coautor.

Valdo Virgo / CB / D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Valdo Virgo / CB / D.A Press)


Melhor opção
Marcia Fantoni Torres, gastroenterologista, pediatra e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca a abordagem diferenciada do novo estudo. Segundo ela, após identificar os mediadores lipídicos no leite humano, eles demonstraram, por meio de experimento in vivo em camundongos, que esses fatores conseguem diminuir e, ao mesmo tempo, acelerar a resolução da infecção experimental. A confirmação de que essas moléculas ajudam a debelar uma infecção em animais é o ponto mais importante desse estudo, na avaliação da especialista.

“Esse conhecimento poderia ser extrapolado para humanos, corroborando a observação natural feita, desde os primórdios da humanidade, de que crianças alimentadas ao seio têm menor índice de infecções, que tendem a durar menos tempo”, complementa. Fantoni acredita que o estudo reforça a necessidade de ingestão do leite materno nos primeiros meses de vida. “O leite humano continua sendo a melhor e mais inteligente opção alimentar produzida pela mulher, oferecendo naturalmente todos os nutrientes necessários e balanceados, substâncias que protegem de infecções, entre muitas outras vantagens. Os resultados do estudo reforçam o conhecimento de que protege os bebês de infecções promovendo um melhor crescimento deles”, completa.

Futuros remédios
Os efeitos positivos das moléculas presentes no leite humano despertaram ainda a possibilidade de desenvolvimento de medicamentos. “As SPMs resolvem e controlam a inflamação, a infecção e a dor associada a doenças e a recuperação de lesões. Assim, elas podem ter implicações em enfermidades associadas à inflamação em seres humanos, como complicações cardiovasculares e artrites. Aproveitar essas biomoléculas e suas vias oferece novas abordagens terapêuticas promissoras para doenças inflamatórias”, destaca Arnardóttir.

Artur Timerman, infectologista do Complexo Hospitalar Professor Edmundo Vasconcelos, em São Paulo, explica que o grande diferencial das SPMs é o papel imunomodulador que desempenham. “Essa substância consegue dar uma resposta imunológica equilibrada. Muito melhor do que uma resposta intensa, que pode causar desequilíbrio. Isso ocorre por ela ser uma substância natural”, destaca o especialista.

Timerman acredita que o trabalho dos cientistas possa ser usado em etapas futuras como um auxiliar na área farmacêutica. “Trata-se de uma pesquisa extremamente promissora. Seria possível o uso dessas moléculas com os antibióticos, diminuindo doses exageradas desse medicamento”, sugere. Fantoni conta que algumas dessas substâncias já são adicionadas a fórmulas infantis e estão presentes em alimentos saudáveis, como peixes e amêndoas, que podem ser consumidos por crianças maiores e adultos. “Talvez, essas moléculas poderão ser utilizadas como coadjuvantes no tratamento e na prevenção de infecções, mas o papel desses nutrientes na modulação do processo inflamatório e infeccioso ainda está em estudo”, pondera.

O trabalho dos cientistas norte-americanos terá continuidade. A equipe seguirá dando foco às moléculas presentes no leite materno. “Mais estudos são necessários para entender o papel da SPMs em bebês e como elas podem ajudar o sistema imunológico de uma criança; portanto, esperamos que esse estudo abra novas áreas de investigações no campo”, diz Arnardóttir.

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