Quem nunca?

por Zulmira Furbino 19/10/2015 16:35

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Quinho
(foto: Quinho)


O piloto automático ocupa um lugar de destaque na aviação contemporânea. A impressão que fica é que ele faz quase tudo sozinho e os pilotos de carne e osso só são requisitados em momentos de apuro. Daí você liga o avião e pronto. Liga no automático e bom voo.

Aqui embaixo, com a segurança de quem tem os pés no chão, também estamos levando a vida mais ou menos assim. É tanto trabalho, compromissos e informação que a gente aciona o piloto automático, ajoelha e reza na cartilha do Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar...”.

Por pressa, interpretação equivocada ou escolha, porém, acabamos conduzidos para o sentido oposto. E, enquanto o sambista vai de mansinho, pessoas “normais”, como nós, mergulham na rotina e na roda viva, com “batismos” cada vez mais precoces.

Anos atrás, Cláudia, psicóloga querida que “salvou” a minha vida, tentava me mostrar a importância de mudar a rotina. Tipo: fazer trajetos diferentes daqueles com os quais eu me acostumara, escovar os dentes com a mão esquerda (sou destra), essas coisas que a gente pensa que é bobagem.

Naquele tempo, não dava muita bola pra esse tipo de conselho, não compreendia a importância de pôr um pé fora do círculo, de mudar o ângulo para enxergar o todo e, o principal, de não me acostumar.

É impossível notar a força de um furacão – e os estragos que ele pode causar – quando se está no epicentro dele. Nesse caso, a maioria faz o quê? Chama o piloto automático, delega a responsabilidade e, quando acorda, ele já tomou conta de tudo.

Até que começam a ocorrer coisas estranhas.

Outro dia, trombei com a vizinha do 702 no elevador. Estava bem vestida, perfumada e maquiada, de maneira que foi inevitável dar aquela reparada de mulher para mulher, fazer aquela análise técnica, sabe?

Usava, com exagero, joias que me pareceram extravagantes e bonitas, blusa de seda, calça flair (está super em alta), e calçava... um par de Havaianas. Devo ter sido meio indiscreta porque, no momento em que bati o olho no chinelo, ela reparou e se deu conta de que havia esquecido de calçar os sapatos.

Quem nunca?

Quem nunca, num fim de semana, no lugar de fazer o trajeto para o clube pegou a rota do trabalho e só descobriu o desvio no meio do caminho?

Quem nunca saiu de casa sabendo que precisava fazer uma coisa urgente antes de chegar à firma, tipo passar no banco pra conversar com o gerente ou entregar o material colhido para um exame de laboratório, e mesmo assim seguiu o caminho rotineiro, caindo em si somente ao chegar na porta do escritório?

Quem nunca, por mil vezes, tentou abrir a garagem do prédio do namorado com o controle remoto da própria casa e, de repente, se pegou fazendo também o contrário, ou seja, tentando abrir a garagem do próprio prédio com o controle remoto da casa dele?

Quem nunca, mergulhado no trabalho num dia de virada do horário de verão, conferiu as horas num relógio que não havia sido ajustado e perdeu um compromisso?

Quem nunca marcou um almoço de negócios e comeu antes em casa, sendo obrigado a encarar o rango duas vezes – e ainda por cima a despistar os comensais dizendo que só come salada porque faz dieta ayurveda?

Quem nunca pediu para a amiga, que está saindo da sua casa de madrugada, avisar pelo WhatsApp se o táxi chegou e, na manhã seguinte, olhou o telefone e se perguntou: por que a fulana me ligou às 2h47 da manhã?

Quem nunca, num dia de sol no clube, atendendo ao pedido do filho para cair na piscina, tirou a roupa tranquilamente e de repente se deu conta de que, no lugar do biquíni, usava calcinha e sutiã bege?

Se o piloto automático continuar como protagonista, ainda ocorrerão escorregadelas engraçadas desse tipo, mas chegará o dia em que a situação será mais séria e só poderemos culpar a máquina.

E nós seremos a máquina.

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