Queda de testosterona é comum depois dos 50 anos, mas poucos homens conhecem o problema

Diagnóstico precoce, no entanto, garante melhora na qualidade de vida

por Flávia Duarte 10/08/2015 11:00

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CB/D.A PRess
Maioria dos homens sequer ouviram falar de andropausa (foto: CB/D.A PRess)
E de repente o vigor físico já não é mais o mesmo. O desempenho sexual também deixa a desejar. Somados a isso, estão o cansaço, o aumento da gordura abdominal, a depressão, os distúrbios de sono, as alterações de humor e a libido em declínio. As queixas se tornam especialmente comuns depois da quinta década de vida e muitos homens associam tais mudanças apenas à idade. Mais do que resultado do passar dos anos, porém, o desconforto tem nome e tratamento: deficiência androgênica do envelhecimento masculino (Daem), também conhecida como hipogonadismo ou, popularmente, andropausa.

Identificada a baixa hormonal por exames de sangue, é feita a reposição por via oral, transdérmica ou intramuscular. Aparentemente simples, o tratamento adequado esbarra na falta de diagnóstico. O homem muitas vezes não se queixa. Os médicos tampouco investigam. “Os exames laboratoriais para ver as taxas de testosterona são solicitados a partir da identificação de sintomas, o que acaba fazendo com que o problema seja subdiagnosticado. Uma pesquisa publicada em uma importante revista científica de urologia apontou que entre 19% a 20% dos homens têm níveis de testosterona inferior aos padrões da normalidade”, alerta Elaine Costa Frade, chefe da Unidade de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

A constatação é reforçada por um estudo que acaba de ser divulgado pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Os dados mostram que a maioria dos homens sequer ouviram falar de andropausa. Foram ouvidos 3.200 homens com mais de 35 anos em oito cidades brasileiras. Eles disseram que, apesar de o comprometimento da vida sexual ser o maior pesadelo masculino, cerca de 57% não sabem o que é andropausa e 71% desconhecem os sintomas da doença que pode sim levar à tão temida impotência sexual.

“O hipogonadismo é doença multifatorial. Pode ser o primeiro sinal de um problema cardiovascular, por exemplo, já que uma artéria entupida que impede a ereção do pênis pode ser indício de uma coronária também obstruída”, esclarece Roni de Carvalho Fernandes, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Além disso, estilo de vida pouco saudável, diabetes, obesidade e doenças metabólicas podem aumentar as chances de desenvolver o quadro.

O mesmo levantamento da SBU mostra que eles não imaginam as causas da queda da testestosterona: cerca de 30% apostam no estresse e no excesso de trabalho como causas da doença; outros 17% acreditam que é consequência de problemas emocionais e psicológicos. Apenas 15% entendem a andropausa como resultado de mudanças nos níveis hormonais.

O desconhecimento adia o tratamento, compromete a qualidade de vida, a saúde mental e os relacionamentos amorosos. Por isso, o alerta. Ao sentir qualquer incômodo, o homem deve procurar ajuda. Por outro lado, os médicos também devem questionar os pacientes sobre a saúde física, mental e sexual deles, ainda que não apresentem queixas.

“Precisamos diagnosticar e tratar corretamente. Os especialistas também não perguntam ao homem sobre a diminuição da libido, que pode ser o primeiro indício do problema”, reforça Carlos Sacomani, médico do Núcleo de Urologia do Hospital AC Camargo e membro da Sociedade Brasileira de Urologia. “Reposição hormonal não é apenas para dar ereção, mas para melhorar a vida sexual do homem como um todo”, acrescenta o urologista Roni de Carvalho Fernandes.

ENTREVISTA
Neuton Dornelas Gomes
Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional Distrito Federal

Quando o homem deve fazer reposição hormonal? Quais são os sintomas que indicam o problema?
De maneira direta, a reposição deve ser feita quando houver deficiência do hormônio, definida pelo médico, com base em questionamentos apropriados e dosagens laboratoriais. Os principais sintomas podem ser diminuição da massa e da força muscular; redução da energia; diminuição da libido, com consequente aumento da frequência de disfunção erétil; sintomas depressivos e também eventuais ondas de calor e sudorese. Na prática clínica diária, o especialista deve fazer (mas nem sempre o faz) perguntas sobre a sexualidade: Diminuiu a libido? Tem falta de energia? Tem ereções menos rígidas? Como estão as atividades no trabalho, nos estudos e na vida cotidiana? Se usa determinados medicamentos, qual o nível de ansiedade? Com base na conjunção desses fatores e resultados laboratoriais, o médico pode definir se há indícios de deficiência hormonal.

Por que a produção de testosterona diminui com o tempo? Todos os homens, assim como as mulheres, vão passar por isso à medida que a idade avança?

A diminuição se dá por uma combinação de fatores fisiológicos próprios do envelhecimento que envolvem tanto os testículos (devido à diminuição do fluxo sanguíneo e/ou diminuição do volume e do número das células produtoras do hormônio), como também estruturas cerebrais, a exemplo da hipófise, que pode diminuir a liberação de outros hormônios estimuladores da produção da testosterona.

Embora a idade seja um fator preponderante para a deficiência — uma vez que, em homens abaixo de 30 anos, pode estar presente em cerca de 5% dos casos, e naqueles próximos de 80 chega a atingir entre 50% e 90% dependendo de critérios analisados —, no homem, não há uma parada de produção de hormônio. Assim, o termo andropausa não é de todo adequado, pois o que ocorre, de fato, é uma diminuição ou deficiência de produção do hormônio. Portanto, todas as mulheres vão passar pela menopausa, mas nem todos os homens terão deficiência total de testosterona.

Ainda há muito preconceito e desinformação por parte dos homens em associar a queda de testosterona à impotência sexual?

Fatores culturais sempre interferem no processo de conhecimento de uma doença e isso naturalmente contribui com o preconceito e dificulta o tratamento. Mas, sem dúvida, tem havido uma redução gradual da desconfiança em buscar ajuda. Muitas vezes, os homens são estimulados e até levados à consulta pelas próprias companheiras. Infelizmente, uma grande parcela dos médicos não aborda esse tema em consultas rotineiras, o que faz com que o diagnóstico muitas vezes não seja feito em fase inicial.

Como é feita a reposição hormonal? O tratamento é indicado pelo resto da vida, uma vez tenha sido iniciado?
A reposição de qualquer hormônio quase sempre indica necessidade de ser por período prolongado, muitas vezes, para toda a vida. Daí a importância de um diagnóstico correto. Assim como as doses, a maneira como vai ser feita a reposição pode ser individualizada. Existem apresentações para uso tópico e também injetável. A periodicidade também varia.

A reposição tem efeitos colaterais?
Quando bem indicada, e desde que seja feita a monitorização adequada, é segura. No entanto, pode haver aparecimento de acne e reações na pele e, eventualmente, piora na evolução de cânceres. Por isso, é contraindicada em portadores de cânceres de próstata e de mama, por exemplo.

Qual é a relação entre queda de testosterona, infertilidade, disfunção erétil e queda de libido?
O principal sintoma da queda da testosterona é a queda da libido, o que pode, com a progressão da deficiência, levar à disfunção erétil. A infertilidade, por sua vez, pode ser em decorrência de diversos outros fatores e, por isso, necessita de investigação mais detalhada.

Quais são os riscos de o paciente negligenciar o problema e não procurar tratamento?

O primeiro risco é o agravamento dos sintomas. Mas esse hormônio é importante não apenas no campo da sexualidade e da qualidade de vida. A deficiência pode levar ao aparecimento de doenças cardiovasculares e metabólicas. Assim, a disfunção erétil também é um sinal de doença cardiovascular. É preciso ficar atento, pois o homem que apresenta problemas sexuais tende a ter complicações no coração.

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