Prática do ciclismo previne contra mortalidade precoce

Estudos internacionais mostram que o ciclismo previne contra a mortalidade precoce das pessoas e do planeta, além de resultar em economia financeira. No Brasil, o potencial é grande, mas os incentivos e as pesquisas sobre os benefícios da modalidade ainda são poucos

por Paloma Oliveto 24/07/2015 11:30

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Na infância, ela é um objeto de desejo, aguardado ansiosamente no Natal e em outros dias festivos. Com o tempo, porém, a bicicleta é deixada de lado, acumulando pó em um cantinho da garagem. Um desperdício. Afinal, pesquisas indicam que pedalar não é só uma atividade prazerosa, mas faz bem à saúde, ao planeta e ao bolso. Em um mundo cada vez mais sedentário, problema que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), será o responsável por 23,3 milhões de óbitos em 2030, trocar o carro pela bike protege contra a mortalidade precoce, ajuda a reduzir as emissões de dióxido de carbono na atmosfera e ainda representa uma economia substancial para os cofres públicos (veja arte).

“Estamos muito parados e precisamos nos movimentar. Ao nos tornarmos mais ativos, já conseguimos eliminar até oito de 10 doenças atreladas ao sedentarismo, como obesidade, hipertensão e diabetes”, observa o educador físico Pedro Guimarães, especialista em fisiologia do exercício da clínica Metafísicos. “Se for analisar a bicicleta como meio de transporte de energia limpa, você vai colher diversos benefícios, emitindo menos CO2 e colaborando para um mundo menos poluído”, lembra. Assim como a camada de ozônio, que sofre com os gases de efeito estufa, a saúde humana é extremamente prejudicada por poluentes: enfermidades relacionadas à má qualidade do ar vão de asma a atraso cognitivo, com um gasto estimado, no Brasil, de quase US$ 2 milhões por ano, de acordo com um estudo publicado na revista Ciência e saúde coletiva por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade de São Paulo (USP).

A adoção da bicicleta como meio de transporte será estimulada na COP 21, a conferência mundial do clima, que acontece em Paris, no fim do ano. Para incentivar esse meio sustentável, a prefeita da capital francesa, Anne Hidalgo, anunciou que pretende limitar o trânsito por veículos motores no centro da cidade a ambulâncias, carros de residentes e de serviços de entrega. No Brasil, o potencial de uso de bicicletas como meio de transporte é enorme. Afinal, o país é o quinto maior consumidor desse veículo, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo).

Mas, por aqui, faltam políticas públicas de incentivo à atividade, assim como estudos que investiguem os efeitos das pedaladas regulares na saúde. Ao fazer uma revisão da literatura científica a respeito do tema nas três principais bibliotecas de artigos acadêmicos do mundo, cientistas da Fundação Oswaldo Cruz não encontraram nenhum trabalho brasileiro sobre os benefícios do ciclismo para o organismo. No exterior, porém, há um grande volume de pesquisas.

Benefícios
Até hoje, as evidências mais robustas do papel da bicicleta na saúde foram concluídas por pesquisadores do Centro de Estudos Prospectivos Populacionais de Copenhague. A capital da Dinamarca foi eleita pelo site Business Insider como a cidade mais amistosa à prática de ciclismo do mundo. Para avaliar os efeitos benéficos da atividade, os cientistas analisaram os registros médicos e os hábitos de transporte de 13.375 mulheres e 17.265 homens de 20 a 93 anos. Desses, 14.976 pedalavam regularmente, sendo que 6.954 iam para o trabalho sobre duas rodas.

Os participantes foram acompanhados ao longo de 12 anos. “Mesmo depois de ajustar outros fatores de risco, como tabagismo, colesterol alto e hipertensão, aqueles que não usavam a bicicleta para trabalhar tiveram um índice de mortalidade 39% superior”, observa Lars Bo Andersen, professor da Universidade do Sudeste da Dinamarca e autor do estudo. De acordo com ele, praticada regularmente e com intensidade moderada à alta, a atividade protege, especialmente, o coração. “Em uma pesquisa inglesa, foi constatado que homens que pedalam sofrem 50% menos infartos”, afirma.

 Breno Fortes/CB/D.A Press
Lídia Barbosa aderiu à bicicleta há quatro anos: "Eu me apaixonei.Por dia, faço até 40km" (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)


Vida mudada sobre duas rodas
Para o condicionamento cardiorrespiratório, os benefícios das pedaladas frequentes assemelham-se aos de uma atividade programada, como ir à academia. Na Holanda, outro país com forte tradição ciclística, cientistas demonstraram que, ao incorporar a bicicleta como meio de transporte ao menos três vezes por semana, homens e mulheres alcançaram um preparo físico semelhante ao de pessoas que se exercitam regularmente. “Nós observamos que, para pessoas que inicialmente tinham um condicionamento muito baixo, mesmo pedalar por curtas distâncias já é suficiente para melhorá-lo, desde que façam isso com frequência”, conta Ingrid Hendrdiksen, especialista em estilo de vida do Center Body and Work, um centro de pesquisas sobre atividades físicas de três universidades holandesas. “Acredito que incentivar as pessoas sedentárias a participar de atividades regulares de baixa intensidade é muito mais eficaz que aconselhá-las a fazer exercícios mais vigorosos. Mas é claro que aquelas que pedalarem frequentemente e mais intensamente, cobrindo distâncias maiores, conseguirão melhores resultados”, lembra.

Essa é uma realidade que a técnica em saúde bucal Lídia Barbosa da Piedade, 53 anos, conhece bem. Ela começou devagar e, hoje, faz percursos de até 130km em sua bicicleta. Na infância, Lídia gostava de pedalar, mas só readquiriu o hábito há quatro anos, quando viu uma turma de ciclistas passeando pelas ruas de Brasília. Entrou em uma loja, comprou a bicicleta e passou a frequentar grupos que se aventuram dentro e fora da cidade. “Eu me apaixonei. Por dia, faço até 40km”, conta. Normalmente, ela sai para pedalar à noite, com os amigos do grupo. Mas, às vezes, também vai ao trabalho, no Setor Comercial Norte, sobre duas rodas.

“Antes de começar a andar de bicicleta, eu tinha muita sinusite, rinite e crises horríveis de enxaqueca. Melhorei 100%. Agora, enfrento secura e poeira na estrada e meu nariz não escorre”, diz Lídia. As fortes dores de cabeça, desencadeadas por fragrâncias e alguns alimentos, também foram embora. “Posso usar perfume e provar coisas que eu não comia, como melão, melancia e tangerina. Nos exames de rotina, está tudo normal”, relata. Outro benefício destacado pela cilicista é o social: “Melhora muito o humor. No dia em que não pedalo, fica tudo pior. Com a bicicleta, você faz amizades, frequenta eventos, festas, conhece novas pessoas”.

O preparador físico Pedro Guimarães observa que, para usufruir dos benefícios da bicicleta, o ideal é não fazer tudo sozinho. Ele recomenda que, antes de qualquer coisa, seja realizada uma avaliação médica. Conversar com um professor de educação física também é essencial quando há objetivos específicos, como emagrecer. O especialista explica que a perda de peso não acontece apenas com exercícios aeróbicos, mas depende do balanço entre ingestão e gasto calórico e do ganho de massa muscular.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA