Células do próprio corpo podem transportar remédios contra o câncer

Resultados de pesquisa representam uma esperança a mais para o combate ao linfoma, um câncer que costuma ser mais sensível aos medicamentos

por Isabela de Oliveira 07/07/2015 15:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
CB / D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: CB / D.A Press)
Em guerra com os troianos, os gregos talharam um enorme cavalo que foi tomado pelos adversários como um troféu. Nada por acaso. Na realidade, um grupo de soldados estava escondido dentro do monumento de madeira e, na calada da noite, dominou a fortificada Troia. Embora exista uma grande chance de essa história, ou pelo menos parte dela, não ter passado de lenda, a lição ficou e é hoje motivo de inspiração para cientistas que desejam combater um dos maiores inimigos contemporâneos: o câncer. Pesquisa desenvolvida no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) indica que um grupo de células do próprio corpo pode guardar e transportar remédios quimioterápicos essenciais para o tratamento de diversos tumores — entre eles o linfoma, considerado um dos mais sorrateiros.

Os resultados, publicados pela revista Science Translational Medicine, representam uma esperança a mais para o combate ao linfoma, um câncer que costuma ser mais sensível aos medicamentos, mas tem fama de traiçoeiro, com taxas variáveis de sobrevivência. Começa nas células de defesa que normalmente circulam entre múltiplos órgãos linfoides — integrantes do sistema imunitário — e tem rota imprevisível. Os sintomas podem ser confusos e, quando diagnosticada a doença, geralmente não pode mais ser freada com cirurgia.

Nesse cenário, a quimioterapia é uma alternativa que oferece boas respostas, mas nem sempre eficientes, pois os tumores se escondem em linfonodos — tecidos humanos considerados santuários das células doentes, pois o alcance dos medicamentos nessas regiões é bastante baixo. Liderados pela pesquisadora Bonnie Huang, os cientistas dizem ter conseguido resolver essa questão utilizando células T (linfócitos) carregadas com nanopartículas de medicamentos. Nesse formato, assim como fez o cavalo de Troia, entram no reduto do inimigo para atacá-lo.

Uma vez que a função normal dos linfócitos é migrar pelos tecidos linfoides em busca de moléculas estranhas, Huang conta que ela e a equipe imaginaram que essas células — que possuem receptores específicos que as dirigem aos tecidos linfoides, mas não às moléculas estranhas, no caso, as doentes — poderiam servir como soldados em busca dos tumores. “Ao se alojar nesses ‘santuários’ e se deslocar entre tecidos, cada célula equipada com as nanopartículas funcionaria como um microdepósito de medicamentos ao redor das células tumorosas”, explica a autora.

No experimento, a equipe desenvolveu ratos geneticamente programados para terem linfoma de Burkitt, um tipo altamente agressivo de câncer que ataca as células B, outra estrutura do sistema imune. É mais comum em crianças de 5 a 10 anos e pode duplicar de tamanho em apenas um dia. Dado que o destino das células T é o mesmo das células doentes — atingem a medula óssea e o baço, mas, especialmente, os nódulos linfáticos — , a estratégia parecia ideal.

Foram, então, inseridas dentro das células T nanopartículas carregadas de SN38, substância ativa de um medicamento para o câncer que é potente, mas tem acesso limitado aos gânglios linfáticos. Mesmo encapsulada em nanopartículas, a droga apresenta desempenho ruim nesses santuários. Porém, quando acoplado nas células T, o SN38 surte efeito notavelmente superior: em 24 horas, alcançou os pontos inacessíveis do câncer, reduziu a carga tumoral e melhorou a sobrevivência dos animais. Segundo os autores, a potência que as células T conferem ao medicamento é mais de 40 vezes superior ao efeito dele sozinho.

Outras aplicações
Jeffrey Hubbell, pesquisador do Instituto de Engenharia Molecular da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, explica que o trabalho de Huang vem no rastro de uma tendência forte da ciência: explorar a capacidade inata das células T de encontrar tecidos onde os tumores se escondem. E, para que façam isso, explica o especialista, as opções são várias: é possível “treinar” células T especificamente para chegar a determinadas regiões do corpo e se infiltrar nos tumores, e até mesmo “adestrar” células que nascem dentro dos próprios cânceres para se voltarem contra seus progenitores.

O princípio pode contar ainda com um recurso inesperado, os vírus. “As partículas virais aderem às superfícies de células T que reconhecem tumores e os atacam, e são transportadas por elas. Quando chegam às estruturas doentes, podem as infectar com um gene antitumoral e as destruir. A abordagem é utilizada no tratamento de melanomas em ratos”, exemplifica Hubbell, que não participou do estudo. As células T, acrescenta o especialista, também podem ser “equipadas” com partículas de ouro que, ao serem aquecidas por raios infravermelhos, aniquilam as células tumorais.

Não existem ensaios com humanos para validar as inovações. Ainda assim, Hubbell visualiza um grande potencial não somente para o tratamento de cânceres, mas também de doenças infecciosas. “O desafio é combinar as terapias que usam nanopartículas com as terapias celulares. Talvez, seja mais fácil utilizar mecanismos moleculares de entrega de medicamentos nos primeiros ensaios clínicos em vez de células. Mesmo assim, o potencial dessa abordagem é poderoso e alto”, acredita o especialista norte-americano.


Stephen Doral Stefani, oncologista e pesquisador do Instituto do Câncer Mãe de Deus, em Porto Alegre

Estratégia sofisticada
“Fazer com que quimioterápicos cheguem a determinados tecidos do corpo, especialmente quando existe doença disseminada e em locais considerados ‘santuários’, tem sido um desafio para a ciência. Os autores do estudo em questão desenvolveram uma estratégia inteligente e sofisticada. A retirada da célula linfática (células T) e o implante de nanopartículas que, ao serem reinfundidas, carregam o medicamento até o tumor, têm um apelo muito interessante como conceito. O estudo em animais ainda é muito precoce para extrapolação para humanos e faltam várias etapas de investigação antes que se possa ser considerada uma revolução médica, mas é muito estimulante por ter mostrado não só a redução de carga tumoral, mas um aumento de sobrevida dos camundongos submetidos ao procedimento em comparação aos que usaram a mesma quimioterapia somente por método convencional, ou seja, por infusão venosa. A técnica, extremamente elegante, abre espaço para a investigação em vários tumores, especialmente os tipos cujo acesso dos medicamentos seja um ponto de dificuldade.”

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA