Detox: sim ou não?

Dietas desintoxicantes, que visam retirar as toxinas do organismo e melhorar seu funcionamento, dividem especialistas. Consenso é que nada seja feito sem acompanhamento profissional

por Carolina Cotta 03/03/2015 09:30

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Beto Magalhães/EM/D.A Press
A decoradora Denise Bethônico Dias, de 59 anos, aderiu à dieta detox e computa resultados positivos: "Emagreci mais de três quilos e fiquei muito feliz, tanto que continuei na terceira e na quarta semanas" (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)
A moda é desintoxicar. E como ocorre com todos os modismos em alimentação, os holofotes se voltam para as dietas detox, para o bem ou para o mal. Especialistas não entram em consenso. Alguns afirmam que essa “limpeza do corpo” é desnecessária, já que o organismo seria naturalmente capaz de se manter, com ajuda de órgãos dedicados à limpeza do sangue e do intestino. E mesmo os que defendem a alimentação detoxificante chamam a atenção para o perigo de fazê-la sem acompanhamento. Segundo Raquel Raizel, doutoranda em ciência dos alimentos pela Universidade de São Paulo (USP), estudos recentes verificaram uma associação entre a exposição aos poluentes orgânicos e o aparecimento de diabetes, e há hipóteses de que produtos químicos alterem a capacidade do organismo para metabolizar gorduras, induzindo ao ganho de peso. “Porém, não há evidência científica suficiente que apoie a submissão aos procedimentos chamados desintoxicantes”, alerta.

Para a nutricionista esportiva Rafaelly Cristina, existe verdade, mas também sensacionalismo sobre a dieta detox, que nada mais é do que uma alimentação com alto teor de compostos bioativos, vitaminas (principalmente as do complexo B), minerais (especialmente o magnésio), carboidratos de baixo índice glicêmico, bom perfil de lipídios e proteínas de alto valor biológico e de rápida digestão e absorção. “Ou seja, tudo em que uma alimentação saudável e equilibrada deve se basear. Porém, da mesma forma como esses alimentos são incrementados, outros são excluídos. Aí está o perigo. A restrição de gorduras, por exemplo, pode comprometer a absorção de vitaminas lipossolúveis. Já a drástica e prolongada restrição de proteínas pode prejudicar a formação de hormônios e reparação de tecidos, assim como impactar sobre os níveis de ferro, favorecendo ao desenvolvimento da anemia”, alerta a nutricionista.

A decoradora Denise Bethônico Dias, de 59 anos, fez uma dieta detox com acompanhamento de nutricionista. Para facilitar, aderiu aos kits detox, em que as refeições já vêm porcionadas por determinado período. “Emagreci mais de três quilos e fiquei muito feliz, tanto que continuei na terceira e na quarta semanas”, conta Denise, que, depois de 30 dias de dieta detox, mantém-se com uma dieta equilibrada e de três em três meses faz uma semana de dieta detox. Alguns hábitos desse período, entretanto, mantiveram-se. Todos os dias, pela manhã ou à tarde, ela toma um suco detoxificante. “Em um liquidificador bato couve, rúcula, espinafre e água e faço cubos de gelo dessa mistura. Assim, todos os dias, só preciso bater essas pedras de gelo verde com a fruta que tiver na geladeira, uma pera, maçã, ou mesmo um suco orgânico de uva branca. Preciso consumir vegetais verde-escuros e esse suco me sustenta”, ensina.

Mas o suco que faz bem a Denise faria também às outras pessoas? Afinal, quando a desintoxicação é interessante? E, se necessária, como deve ser feita? Antes de aderir, ou não, é preciso se livrar das dicas passadas de boca em boca. O Bem Viver ouviu especialistas sobre o assunto. Aqui também eles não chegaram a um consenso, mas compartilham benefícios e alertam para alguns riscos. Limpo de modismos ou preconceitos, você decide se vai encarar.

TOXINAS NATURAIS
Alguns alimentos podem conter toxinas naturais potencialmente nocivas, que podem estar presente na forma de pesticida natural para proteger a planta. A toxina também pode se formar durante a manipulação e processamento do alimento. Agências reguladoras, como a Anvisa no Brasil, visando à proteção do consumidor, têm criado especificações e definido limites para certas substâncias, níveis de tolerância, rótulos de advertência e proibições. Além disso, os produtores de alimentos têm desenvolvido procedimentos para reduzir toxinas induzidas pelo processamento. Apesar dos cuidados, o consumo de baixos níveis dessas substâncias é inevitável e, embora a incidência de reações adversas aos alimentos seja relativamente baixa, não se descarta a possibilidade de toxicidade por contaminação, consumo excessivo ou alergia.

Equilíbrio saudável
Dieta da moda apregoa limpeza do organismo por meio de alimentos ricos em fibras, vitaminas e minerais. Mas deve fazer parte de uma rotina nutricional adequada

Cristina Horta/EM/D.A Press
Para a pesquisadora Debora Fernandes Rodrigues, quem deseja emagrecer deve ter hábitos de vida saudáveis, e isso inclui uma dieta permanente com caráter desintoxicante, rica em fitoquímicos, vitaminas e minerais (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
Para a medicina alternativa, desintoxicar é eliminar toxinas nocivas ao corpo, em curto ou longo prazo. Segundo Raquel Raizel, doutoranda em ciência dos alimentos pela USP, o resultado cumulativo dessas toxinas poderia causar efeitos indesejáveis à saúde, mas seria possível a prevenção desse quadro por meio de dieta, jejum e purificação do intestino, entre outros. As dietas detox nada mais são do que planos alimentares que garantem ter esses efeitos desintoxicantes. Sugerem sugere que a maioria dos alimentos contém contaminantes como realçadores de sabor, corantes alimentares, pesticidas e conservantes. Elas também se propõem a livrar o corpo de substâncias tóxicas, que podem estar presentes em produtos de beleza (mercúrio), desodorantes (alumínio) e nos plásticos (Bisfenol A), bem como dos chamados xenobióticos (compostos químicos estranhos ao organismo ou sistema biológico, como agentes poluentes e medicamentos).

As dietas detox são frequentemente ricas em fibras, provenientes de frutas, verduras e legumes, e propõem aumentar o fornecimento de vitaminas e minerais para auxiliar os sistemas antioxidantes do corpo. Também são utilizadas ervas, suplementos alimentares e laxantes para a limpeza do cólon. Segundo Raizel, pessoas que praticam a limpeza do cólon acreditam que o acúmulo de fezes putrificadas nas paredes do intestino grosso abriga parasitas ou patogênicos da flora intestinal, causando problemas de saúde. A nutricionista Rafaelly Cristina acredita que, olhando pelo lado positivo, a inclusão desses alimentos pode ser muito benéfica no sentido de aumentar o aporte de fibras, antioxidantes, vitaminas e minerais. Mas só quando usadas de modo complementar a uma rotina alimentar adequada e individualizada.

Para ela, entre os erros mais comuns dos seguidores da dieta está o fato de recorrerem à detox após períodos de festas e eventos, ou por aqueles que buscam perda de peso imediata. Mas ela acredita que não existe necessidade, e muito menos sentido, em se realizarem restrições exageradas ou apelar para métodos “milagrosos” para tentar compensar todos os danos e prejuízos causados ao nosso organismo um estilo de vida inadequado por vários anos. A desintoxicação pode ser feita em casos de necessidade diagnosticada, nunca visando emagrecimento, que é uma consequência do processo. Segundo Raizel, embora sem evidências científicas suficientes, a finalidade é reduzir o caráter tóxico das substâncias e eliminá-las, mas, a partir do momento em que se retiram essas substâncias e se introduzem alimentos geralmente menos calóricos, o metabolismo pode reagir melhor e, consequentemente, ocorrer o emagrecimento.



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AVALIAÇÃO

Para a nutricionista Débora Fernandes Rodrigues, mestre e doutoranda em ciência de alimentos pela UFMG, o indivíduo que deseje emagrecer deve investir em hábitos de vida saudáveis, o que, para ela, inclui uma dieta permanente com caráter desintoxicantee, rica em fitoquímicos, vitaminas e minerais. Mas reforça que a verdadeira dieta para desintoxicaçãoo é a que visa favorecer a eliminação de xenobióticos. “E é sempre importante procurar ajuda profissional, pois cada pessoa tem a sua individualidade bioquímica e isso significa que nem sempre o que é bom para um é bom para o outro”, alerta. Nada de fazer a dieta porque a vizinha fez e emagreceu.

Normalmente, nosso organismo consegue minimizar o impacto deletério das toxinas. Para Débora, a dieta detox e a eliminação de alimentos e contaminantes específicos, o que pode durar de poucos dias a algumas semanas, é uma indicação se a exposição a determinado xenobiótico for crônica, ou se a carga tóxica a que a pessoa é submetida for alta. O processo de desintoxicaçãoo é vital não só para eliminar toxinas alimentares, mas também álcool, fármacos, poluentes ambientais. Mas, para que isso ocorra de forma eficiente, é importante que o indivíduo esteja saudável. “É nesse ponto que o equilíbrio nutricional e o consumo de substâncias que estimulem as vias de desintoxicação podem ajudar”, explica a pesquisadora.


Fabiana Benatti, Nutricionista e doutora em ciências pela Universidade de São Paulo (USP)

Faz sentido submeter o organismo a uma desintoxicação? Por quê?

Não, não faz nenhum sentido. Se a pessoa estiver de fato intoxicada, isso quer dizer que ela está com níveis elevados de toxinas no organismo, o que pode ter ocorrido pela ingestão excessiva de algum tipo de medicamento ou até mesmo pela ingestão de algum alimento estragado, por exemplo. Se esse for o caso, a pessoa deve procurar um médico, o qual tomará as devidas providências farmacológicas para tratar o caso, pois isso pode até levar à morte. Contudo, não há qualquer tipo de alimento que seja capaz de desintoxicar, ou seja, retirar toxinas do organismo.

Há evidências científicas atestando os benefícios dessas dietas de desintoxicação?

Não há qualquer evidência científica dos efeitos dessas dietas em qualquer parâmetro de saúde.

As dietas detox ficaram populares e hoje são incorporadas mesmo sem o acompanhamento de um especialista. Quais os riscos de restringir o consumo de alguns alimentos?
Se a restrição for de curto prazo, não deve haver qualquer prejuízo para a saúde. Contudo, caso a pessoa restrinja um determinado grupo de alimentos a longo prazo, isso pode levar à deficiência da ingestão de alguns nutrientes, embora isso tenha que ser adequadamente avaliado. Talvez o maior prejuízo seja o social, em virtude da exclusão de alimentos diariamente. Isso só reforça o terrorismo nutricional que vivemos hoje, o qual muitas vezes não tem qualquer fundamento científico.

DESINTOXICAÇÃO NATURAL
A eliminação de substâncias nocivas ao corpo pode ser feita por urina, fezes e suor. Sistemas próprios de desintoxicação do organismo são sofisticados e versáteis, mas a capacidade natural do corpo para desintoxicação pode ser melhorada. Os rins são responsáveis pela eliminação de resíduos a partir do sangue, por isso é necessário hidratar bem o corpo. Um dos primeiros sinais de desidratação é a cor da sua urina, que deve ser clara. A utilização de fibras alimentares, com a ingestão de água, auxilia a limpeza do cólon e a eliminação das toxinas pelas fezes. A pele é o maior órgão único de eliminação, nesse sentido, praticar exercícios físicos ou utilizar saunas pode ajudar a maximizar o potencial de desintoxicação por meio do suor.

Vale a moderação
Evitar o consumo excessivo de alimentos industrializados e com agrotóxicos pode atenuar nossa exposição a toxinas, hoje mais presente nas refeições

Beto Magalhães/EM/D.A Press
A advogada Cynara Lopes Fortuna diz que a dieta fez bem a ela, mas ressalta que teve acompanhamento de sua nutricionista (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)
Ao se proporem a desintoxicar, as dietas detox partem do princípio de que os alimentos têm toxinas. Para a nutricionista Débora Fernandes Rodrigues, mestre e doutoranda em ciência de alimentos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), isso procede. Segundo a pesquisadora, atualmente, estamos expostos a uma carga tóxica maior do que antigamente. “Consumimos alimentos com agrotóxicos, aditivos alimentares (conservantes, corantes, edulcorantes, estabilizantes, realçadores de sabor), resíduos de antibióticos, contaminados com migrantes de embalagens, como plásticos, e com metais tóxicos. Devemos, portanto, evitar o consumo excessivo de alimentos industrializados, adoçantes, alimentos coloridos artificialmente, com o intuito de diminuir a exposição a aditivos alimentares e metais tóxicos.”

Uma dica importante é ler o rótulo dos alimentos e optar por aqueles que contenham menos aditivos na sua composição. Também se deve priorizar alimentos orgânicos ou plantados em casa, onde não se faça uso de agrotóxicos, além de evitar aquecer alimentos em embalagens plásticas para diminuir a ingestão de migrantes de embalagens e diminuir o consumo de álcool, carnes assadas em carvão, gordura trans, embutidos e defumados. Para evitar as toxinas, é preciso ter clareza sobre os tipos de alimentos disponíveis, que podem ser in natura, minimamente processados, processados ou ultraprocessados. O acompanhamento do nutricionista é importante, porque as dietas para desintoxicação não orientadas por profissionais são, muitas vezes, desbalanceadas e pobres em nutrientes, o que pode desencadear ou agravar alguma carência nutricional.

PERIGOS
Muitas dessas dietas não fornecem a energia necessária para as atividades rotineiras, ou mesmo incluem alimentos que deveriam ser excluídos durante o processo de desintoxicação. Segundo Raquel Raizel, doutoranda em ciência dos alimentos pela USP, em pessoas com doenças ou distúrbios não diagnosticados, a crença na eficácia da dieta detox pode atrasar a procura por tratamento. Essas dietas podem envolver um consumo muito restrito de alimentos (somente água ou suco). Atualmente, tem se disseminado uma forma de jejum conhecida como juice fasting ou “suco de jejum”. Paralelo à ingestão desses sucos, ocorre a eliminação de gorduras da dieta, alimentos processados e outros alergênicos. “É pouco provável que essa abordagem, em um único dia, cause danos. Mas a reintrodução dos alimentos pode ser danosa, pois o organismo fica extremamente sensível a eles. Um jejum prolongado pode causar um desequilíbrio no organismo.”

A nutricionista Rafaelly Cristina também chama a atenção para os horários e combinações que devem ser feitos para que não ocorra a quelação de aminoácidos, o que diminui a síntese de massa magra. E é taxativa: “Não adianta fazer 'detox' quem não está com a microbiota modulada, necessária para a conversão em formas ativas no intestino. Também não adianta fazer 'detox' por um mês e depois voltar a uma alimentação inadequada. Não existe 'limpeza' como muitos dizem por aí, e sim modulação do estresse oxidativo. Sou favorável a um plano alimentar com caráter desintoxicante e não coisas temporárias. E me preocupo com essas 'detox' restritivas, principalmente para praticantes de atividade física. Já vi gente com queda de cabelo, perda de massa muscular, desidratação. Moderação é a palavra. A moda é transitória e fugaz, a vida saudável é sólida e eterna”, defende.

DEPOIMENTO
. CYNARA LOPES FORTUNA, ADVOGADA, 46 ANOS

“Conheci a dieta detox por meio dos meios de comunicação: é uma dieta muito divulgada, que promete inúmeros benefícios para aqueles abusos cometidos na alimentação e perda de peso rápida. A dieta detox é uma opção entre as existentes em virtude da proposta de desintoxicação. A decisão de fazê-la foi tomada juntamente com minha nutricionista, diante da minha avaliação física, após um longo período de férias. Senti necessidade de fazer uma 'limpeza no organismo' para dar continuidade à dieta que já faço, de caráter detox, onde a alimentação equilibrada é priorizada para melhorar meu desempenho na atividade física, composição corporal e, o mais importante, a qualidade de vida. O que mais gostei na dieta foi a redução do inchaço, percebida já no segundo dia. Embora os nutrólogos tenham questionamentos contrários à dieta, em momento algum questionei aderir à detox, pois não fui em busca de 'modismos' e sim de equilíbrio. Fiz a dieta acompanhada por uma profissional muito competente e consciente do que estávamos fazendo. Após a dieta, consegui perder uns 'quilinhos extras' e o inchaço que me incomodava. Apenas no primeiro dia senti um pouco de enjoo e sono, mas do segundo em diante não tive mais nenhum desconforto. Fiz a dieta durante sete dias e logo em seguida voltei para meu plano alimentar.”


. MAURO FISBERG, PEDIATRA E NUTRÓLOGO, PROFESSOR ASSOCIADO DA ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA

É preciso ter bom senso

Muitas pessoas perguntam o que achamos das dietas detox e fico pensando em sobre o que exatamente estamos falando. Será que estamos intoxicados? E, para isso, utilizamos comidas? Ou estamos falando que produzimos radicais ácidos ou superóxidos que determinam maior facilidade a infecções e alterações de nossa defesa celular? O nosso organismo sempre produziu esses radicais e tem vários mecanismos de defesa. A maior parte dessas dietas – ditas detox ou detoxicantes – são restritas. Usualmente, são compostas de uma enorme variação de verduras, legumes e frutas em diferentes formulações, grãos especiais, cereais raros e mil sucos e chás. Um espetáculo de cores e beleza. Mas quem se preocupa se são dietas caras, desequilibradas e que, no fundo, só são detox por que restringem enormemente alimentos ricos em gorduras, açucares e sal? E quem consegue viver disso? Em todas as refeições? E as crianças? E a praticidade? Se acredito que sempre cabe ao nutricionista a formulação da dieta – como médico, nutrólogo e pediatra – não posso me furtar a ter opinião. E não acredito. No fundo, estamos nos esquecendo das regras de equilíbrio, balanço e variedade, trocando-as por um excesso de regras e normas malucas, que impossibilitam o prazer e o viver em comum, que levam a distúrbios e transtornos alimentares, como a ortorexia e a vigorexia (a ansiedade patológica pelo saudável e a busca patológica pela atividade física). Prefiro ensinar a comer bem, de tudo e com sobriedade e bom senso.

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