Pesquisa encontra novas pistas para explicar diferença entre os sexos

Segundo cientistas do Reino Unido, os fetos sofrem alterações epigenéticas que variam de acordo com o gênero. Essa distinção explicaria, por exemplo, a maior incidência de autismo entre os homens

por Bruna Sensêve 06/02/2015 16:00

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(foto: SXC.hu)
As diferenças entre mulheres e homens quanto ao comportamento, ao funcionamento cerebral e, especialmente, à predisposição de doenças começam a ser formadas ainda no útero materno. Apesar de, em regra, os códigos genéticos masculino e feminino se diferenciarem apenas pelos cromossomos sexuais, é possível que o processo de “ligar” e “desligar” a produção de proteínas pelos genes ainda intrauterinamente molde diferenças substanciais. Elas poderão contribuir de maneira direta para estatísticas futuras de prevalência de doenças ligadas ao cérebro, como a incidência cinco vezes maior de autismo entre os homens ou mesmo porque a depressão atinge quatro vezes mais as mulheres. As conclusões foram publicadas na revista científica Genome Research.

A pesquisa, feita por geneticistas da Universidade de Exeter e da King’s College de Londres, ambas no Reino Unido, ainda não foi realizada com células humanas. Eles usaram quase 200 amostras de células cerebrais de moscas com idade entre 23 e 184 dias. Liderados pelo professor Jonathan Mill, os cientistas utilizaram tecnologia de ponta para medir os padrões genômicos de metilação do DNA. A metilação é o processo epigenético que compreende uma modificação química para uma das quatro bases que compõem o código genético.

“A sequência de informação do DNA é igual em todas as células de uma pessoa, mas algumas mudanças acontecem depois que o embrião já está formado, e vão ligar e desligar genes. Isto é, vão fazer alguns funcionarem e outros não. O mecanismo desse controle de expressão é dado por esse processo chamado metilação. São marcas que não alteram a sequência, mas ligam e desligam o funcionamento dela”, explica Lavínia Schuler-Faccini, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

"Entender de que maneira os genes são ativados no cérebro durante esse período é importante e poderia nos ensinar sobre as origens de transtornos com componente neurodesenvolvimental, como o autismo e a esquizofrenia” - Jonathan Mill, líder do estudo

Proteínas
Essas marcas de metilação promovem uma espécie de empacotamento que impede o gene de produzir proteínas. Com os experimentos em laboratório, os pesquisadores alcançaram progressos significativos para a compreensão desse complexo processo de desenvolvimento ainda no período embrionário do cérebro humano. Uma observação importante foi justamente no número de diferenças na metilação entre o cérebro masculino e o feminino, contribuindo potencialmente para diferenças sexuais na predisposição de doenças neurológicas e de comportamento.

Segundo Mill, o pré-natal é um momento de plasticidade dramática, no qual o cérebro estabelece as estruturas que controlarão a função neurobiológica durante o restante da vida. “Entender de que maneira os genes são ativados no cérebro durante esse período é importante e poderia nos ensinar sobre as origens de transtornos com componente neurodesenvolvimental, como o autismo e a esquizofrenia”, observa. A especialista lembra que há diferenças de suscetibilidade de distúrbios e doença conforme o gênero. “Entender o desenvolvimento do cérebro pode nos ajudar a compreender as origens dessas diferenças.”

Esse “ligar” e “desligar” de genes normalmente é mais conhecido quanto a fatores ambientais, como o comportamento da mulher durante a gravidez. Se ela fuma ou bebe durante a gestão, pode provocar algumas alterações epigenéticas nela e no filho. Deixar de fumar ou de beber quando grávida é uma modulação possível para evitar o problema, mas, segundo Schuler-Faccini, alterações que não visam substancialmente a proteção do bebê podem ser consideradas antiética. “Hoje, é possível mexer até mesmo direto nos genes para escolher a cor dos olhos do filho, mas isso não é ético. Podemos coibir comportamentos que vão prejudicar a criança ou dificultar seu desenvolvimento. Mas nada além disso.”


Apenas males específicos
“Existem algumas doenças que ocorrem mais no sexo masculino, não em termos de formação do cérebro, mas por uma definição genética. Por exemplo, a síndrome do X Frágil, depois da síndrome de Down, é uma causa frequente de retardo mental bastante prevalente em homens. Quando falamos no cromossomo X, sabemos que a mulher tem dois e o homem apenas um. Como ela tem dois, o erro encontrado em um cromossomo X é reparado pelo outro, na forma de um efeito compensativo causado pelo cromossomo saudável. Por isso, a menina tem um quadro muito leve, ou nada. O homem tem apenas um X por ter o outro Y. Na hora da formação do embrião com essa condição genética, com certeza, haverá a determinação de um desenvolvimento cerebral diferente. Fora condições como essa, não podemos falar de diferenças evidentes entre o cérebro de homens e de mulheres.”

Marilisa Mantovani Guerreiro, coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Infantil da Academia Brasileira de Neurologia

Mulheres consomem mais O2 e emagrecem menos
As diferenças fisiológicas entre homens e mulheres são tão evidentes quanto os fatores genéticos que as motivam. Porém, uma questão perceptível é a distinção dos resultados obtidos após a malhação: eles tendem a emagrecer e construir músculos com uma facilidade muito maior que elas. Para justificar essa situação, há uma série de teorias. Um time de cientistas da Universidade de British Columbia, no Canadá, acaba de trazer nova hipótese. De acordo com os resultados publicados na edição de hoje do Journal of Physiology, o consumo de oxigênio nos músculos respiratórios difere conforme o gênero durante a prática de exercício físico.

Para elas, a mesma intensidade de exercício significa maior quantidade de oxigênio consumido. Isto é, as mulheres usam mais energia quando fazem a respiração muscular, já que uma parte significativamente maior do oxigênio total é direcionada aos músculos respiratórios. O primeiro experimento consistiu em um teste de ciclo máximo de esforço para determinar a intensidade de ventilação e oxigênio circulantes no organismo durante o exercício.

Em seguida, os pesquisadores colocaram os participantes mais uma vez na bicicleta ergométrica para imitar padrões de respiração normalmente executados em diferentes fases das atividades físicas. “Durante o exercício, precisamos respirar mais vezes e, como consequência, os músculos respiratórios trabalham mais e usam uma grande quantidade de energia”, explica o professor William Sheel da Universidade de British Columbia e investigador principal do estudo.

Custo metabólico
Segundo ele, os resultados mostram que o custo metabólico da respiração durante o exercício é maior em mulheres jovens e saudáveis. “Sabemos que, assim como outros músculos esqueléticos, os respiratórios exigem o fluxo sanguíneo suficiente para atender à demanda de oxigênio”, complementa. Os dados coletados sugerem que, se elas têm qualquer custo maior de oxigênio disponível, provavelmente dedicam quantidade maior de fluxo de sangue para os músculos respiratórios durante o exercício máximo. “Por isso, o desempenho físico pode ser menor, por causa de uma redução do fluxo sanguíneo para os músculos das pernas, mas isso ainda precisa ser testado.”

Sheel acredita que estudos futuros poderão investigar se o custo de oxigênio maior, de fato, tem essa influência sobre o fluxo de sangue na perna, o débito cardíaco e a fadiga do músculo esquelético. Ainda mais gravemente, isso poderia estar ligado a doenças pulmonares. “A redução da capacidade pulmonar junto a músculos que trabalham mais duro pode levar a uma maior demanda de energia, o que poderia ser maior em mulheres.”

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