Entenda os termos 'goy' e 'bromance'

Comportamento não é novo. No Brasil, informações sobre o mundo goy começaram a aparecer em alguns blogs em 2011, embora nos Estados Unidos exista desde o início dos anos 2000

por Carolina Samorano 06/10/2014 09:02

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Alguns são casados, outros solteiros. Há quem fique só com homens, há quem prefira as mulheres, há quem se divida entre os dois. Os goys são homens que se relacionam com homens sem, no entanto, que isso os defina como homossexuais — daí, inclusive, o nome do movimento: o “o”, no lugar do “a”, que visa afastar a ideia de prática do sexo anal. Penetração, só com mulheres, e, mesmo assim, só se a pessoa quiser. Todo o resto, de uma ida ao cinema a carinhos mais fortes, está permitido. Mas não é namoro. “A relação é de amizade, mas as relações afetivas são fortalecidas”, explica um dos pioneiros do movimento no país, o servidor público conhecido entre os goys como Master Fratman, 38 anos. É o que eles chamam de “bromance”, ou romance entre “brothers”.
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Master Fratman, 38 anos, um dos primeiros a usar o termo goy no Brasil: carinho entre homens é permitido, mas sem penetração - é o romance entre brothers (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O comportamento não é novo. No Brasil, informações sobre o mundo goy começaram a aparecer em alguns blogs em 2011, embora nos Estados Unidos exista desde o início dos anos 2000. Uma das páginas virtuais que primeiro tocaram no assunto por aqui foi justamente a de Master Fratman. A publicação na qual falava dos goys, relacionando o comportamento com as fraternidades masculinas universitárias americanas e seus segredos — relações íntimas com certos “limites” — teve 20 mil acessos em três dias. Falar sobre o assunto e se descobrir dentro dele foi um processo mesclado para Fratman, que até então considerava-se bissexual. “Virou minha palavra preferida para buscar no Google, mas, na época, nem ele tinha muitas respostas”, lembra.

No fim, descobriu que a definição de bissexual não representava quem realmente ele era. “O bi seria, para mim, aquele que reúne a hétero e a homossexualidade. O goy, não. É um elo entre as duas pontas. São as pessoas jogadas no limbo da sexualidade, que não se encontravam em nenhuma das definições”, diz. “Serviu para quebrar a hegemonia hétero/homo e mostrar que as relações podem ser mais ricas e mais dinâmicas do que se acredita”, continua. Ele calcula que entre 30% e 40% dos goys sejam casados com mulheres, mas mantêm “bromances” com outros goys sem que isso necessariamente atrapalhe o casamento.

Falar sobre o desconhecido, no entanto, tem seu preço. Para sua surpresa, ele conta, os heterossexuais mostraram-se mais neutros com relação ao movimento do que os homossexuais, que, vira e mexe, ele diz, atacam com comentários hostis as páginas e comunidades virtuais dos goys. “Eles nos acusam de sermos machistas, misóginos, entre outras coisas. Dizem que queremos ter os privilégios gays sem enfrentarmos o preconceito, que estamos em cima do muro. Mas a verdade é que o muro é bem mais largo do que as pessoas imaginam”, ele diz. A questão, para Fratman, tem viés político. Como os goys não se consideram gays, não se envolvem com as causas LGBT. É o suficiente para esquentar o conflito.

Brasília tem uma das maiores comunidades goys do Brasil, com São Paulo e Rio de Janeiro, campeã de adeptos. Ganha novos participantes, curiosos ou em fase de descobrimento da própria sexualidade todos os dias. Foi assim que Fernando (prefere omitir o sobrenome), 22 anos, conheceu Master Fratman há dois meses, quando descobriu que, afinal, sua sexualidade poderia ser menos complicada do que imaginava. “Eu não me identificava como nada. Passei por um longo período de dúvidas”, conta. Fernando chegou a se relacionar com uma menina, mas as coisas ficaram complicadas na hora do sexo. “Eu não queria fazer sexo com ela, nunca quis penetrar ninguém, não me sentia à vontade.”

O relacionamento acabou em frustração e Fernando então deu mais uma chance ao amor, dessa vez com um homem. Teve o mesmo problema. “Li um pouco sobre assexualidade e comecei a achar que poderia ser o meu caso. Mas os assexuados não têm nenhum desejo sexual, e eu tenho. Descobrir os goys foi um alívio para mim, no sentido de saber que eu não sou um E.T., que não sou o único”, conta o estudante. Os amigos mais próximos, a princípio, estranharam. “Fizeram milhões de perguntas, nunca tinham ouvido falar. Mas aí mandei vários textos para eles, e eles entenderam.”

O ninho dos rótulos
Há quem acredite, no entanto, que independentemente do clima de maior liberdade vivido hoje, os rótulos — por mais confusos e fluidos que pareçam — continuarão tendo seu lugar. “Sabemos que existe a homossexualidade em uma ponta, a heterossexualidade na outra e que existem pessoas que transitam por essa linha, mudando ao longo da vida. Mas a própria sociedade tem uma necessidade de rotular, principalmente para compreender. Depois que isso é discutido, debatido e compreendido, é possível flexibilizar. Mas a fase agora ainda é de entender”, pondera Maria Claudia Lordello, psicóloga, sexóloga e coordenadora do Núcleo de Psicologia do Ambulatório de Sexualidade Feminina da Universidade Federal de São Paulo.

Além disso, por mais que algumas pessoas os recusem, para outras, ter um rótulo que lhe caia como uma luva pode servir como um alívio, a descoberta do seu lugar na sociedade. “A variação é parte do que nos faz humanos. Todos nós queremos nos conhecer, conhecer quem pode nos entender melhor. Nesse sentido, pode ser da natureza humana querer se classificar e rotular os outros. Por outro lado, tem aqueles que recusam as classificações. Mas é importante procurar parceiros ou pessoas de pensamento semelhante que nos ajudem a nos definir”, pontua Jennifer Bass.

O momento é de discussão. Se o debate travado hoje na sociedade levará ou não a um mundo em que rótulos e orientações importem menos que o desejo e o sentimento envolvidos, é algo que ainda assume ares de incerteza mesmo para os especialistas. É, no entanto, o que muitos esperam. “Tenho uma utopia de que, um dia, pessoas deixem de se preocupar se os outros são homossexuais, heterossexuais, bissexuais, travestis, gays, cis, iso, trans, sei lá mais quantas categorizações”, diz o psiquiatra Alexandre Sadeeh, coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo. “Isso pode funcionar para pesquisas, para a ciência. Não para a vida do homem comum. Quando pudermos respeitar o direito do outro de ser e existir, essas nomenclaturas perderão o sentido. É só uma utopia…”, reflete o especialista.

"Quando pudermos respeitar o direito do outro de ser e existir, essas nomenclaturas perderão o sentido. É só uma utopia…” - Alexandre Sadeeh, psiquiatra

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