Médicos e enfermeiras de Serra Leoa se sacrificam para conter o Ebola

Os serviços de saúde serra-leoneses informam que 32 enfermeiras tinham sucumbido ao Ebola desde o final de maio, ou seja, quase 10% dos casos mortais registrados no país

por AFP - Agence France-Presse 19/08/2014 09:33

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CARL DE SOUZA / AFP
O médico Modupeh Cole foi enterrado sem flores nem coroas fúnebres, longe dos seus, em uma demonstração de que o Ebola não poupa nem os profissionais de medicina (foto: CARL DE SOUZA / AFP)
Colocado em um caixão desinfetado na caçamba de um caminhão, ao lado de outros cadáveres envoltos em sacos, o doutor Modupeh Cole foi enterrado sem flores nem coroas fúnebres, longe dos seus, em uma demonstração de que o Ebola não poupa nem os profissionais de medicina. O médico, um renomado especialista do hospital Connaught de Freetown, capital de Serra Leoa, faleceu menos de duas semanas depois de ter sido infectado com o vírus.

Examinando um doente que, segundo seus colegas, foi o primeiro caso de Ebola neste hospital com 102 anos de existência, não tinha a menor ideia do risco ao que estava exposto. Mas, pouco depois de atender o paciente, o médico começou a se queixar de febre alta e fortes dores de cabeça.

Na falta de estruturas especializadas na capital, Cole foi transferido a um centro de tratamento do Ebola da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) em Kailahun, no leste do país, onde se concentra a epidemia, e onde morreu poucos dias depois. Segundo Samuel Patrick Massaquoi, diretor do hospital de Kailahun e ex-discípulo de Cole, o efeito surpresa não deu a menor chance ao médico. O hospital Connaught acolhe "pacientes com todo tipo de doenças", explicou.

Desde o início da epidemia, "os adultos, em particular, escondem os sintomas e não dizem como se sentem", lamenta este médico. "Chegam a qualquer hospital do país, dizendo: 'sofro de malária ou de febre tifoide'.". Os últimos dias de uma vítima de Ebola podem ser terríveis, com dores musculares, vômitos, diarreias e hemorragias fortíssimas que dessangram o doente.

E os funerais dão pouco consolo após um fim tão doloroso. Os objetos pessoais dos doentes são queimados e os enterros frequentemente são realizados apenas na presença dos coveiros. "Muitas vezes, as famílias não assistem aos enterros por Ebola, mas podem vir depois porque conservamos uma lista das pessoas sepultadas e do local da sepultura", disse o diretor da equipe do Ministério da Saúde, encarregado de enterrar Cole.

Jogados pelas famílias
A retirada do corpo do centro da ONG em Kailahun não foi exceção. Não houve cerimônia em sua memória, mas uma operação realizada com precisão cirúrgica. Usando trajes de proteção, os integrantes da equipe da MSF desinfetaram meticulosamente o saco mortuário e o carro onde foi trazido, antes de depositá-lo em um caixão previamente desinfetado e carregado em um caminhão lavado com água sanitária.

O médico se juntou ao batalhão de profissionais de saúde mortos na luta contra o Ebola, alguns com uma abnegação que remete aos "liquidadores" de Chernobyl, na Ucrânia, que em 1986 se sacrificaram para deter o incêndio no reator nuclear e, com isso, tentar conter a catástrofe.

Os serviços de saúde serra-leoneses afirmaram, em 14 de agosto, dia do enterro do doutor Cole, que 32 enfermeiras tinham sucumbido ao Ebola desde o final de maio, ou seja, quase 10% dos casos mortais registrados no país.

No Parlamento, o encarregado dos serviços médicos, doutor Brima Kargbo, destacou a ingratidão da população. "Há uma recusa em (aceitar) a existência do Ebola e uma hostilidade com relação aos trabalhadores de saúde", disse. Saffa Kemoh, membro da equipe encarregada dos enterros das vítimas da febre hemorrágica do ministério da Saúde em Kailahun, destaca que seus amigos não se aproximam mais dele e que é renegado pela família.

"Dizem que não me deixarão entrar mais em casa. Fui expulso", contou à AFP este homem de 32 anos. Ella Watson-Stryker, de 34 anos, organizadora da MSF, que participa da luta contra o Ebola desde o anúncio, em março, da epidemia na vizinha Guiné, se revolta contra esta injustiça.

"Eles (os trabalhadores) têm muitos problemas em seu entorno. Tinha um membro do pessoal do qual era encarregado que tinha um pai que se recusava a falar com ele. Em alguns casos, os próprios familiares pedem para que durmam fora de casa e os excluem das refeições", explica. "Com o tempo, as pessoas começam a compreender e a estigmatização diminui", continua, "mas é uma situação muito difícil", atesta.

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