OMS cogita usar em larga escala remédio experimental contra o Ebola aplicado em médico e enfermeira dos EUA

Profissionais imploram solução urgente para conter epidemia. Rudimentares sistemas de saúde pública estão sobrecarregados e tropas foram destacadas para impor quarentenas

por Correio Braziliense 07/08/2014 08:59

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Na Libéria, mulheres rezam pelo fim da epidemia: o país africano concentra a maioria dos casos de infecção e morte (foto: ZOOM DOSSO / AFP)
O rápido avanço do ebola no continente africano trouxe um impasse à Organização Mundial da Saúde (OMS). A agência ligada à ONU considera usar em larga escala a droga ZMapp, utilizada para tratar um médico e uma enfermeira norte-americanos infectados pelo vírus na Libéria. A droga, porém, é experimental. Até então, a empresa Mapp Biopharmaceutical só havia feito testes com animais. Faltam os experimentos clínicos que atestem a segurança e a eficácia da substância em humanos.

“Estamos em uma situação incomum diante deste surto. Temos uma doença de alto índice de letalidade, sem nenhum medicamento ou vacina para combatê-la. Precisamos perguntar aos especialistas em ética médica o que é a coisa mais responsável a fazer”, disse, em nota, a diretora adjunta da OMS, Marie-Paule Kieny. A entidade iniciou ontem uma reunião de dois dias para decidir se a epidemia representa uma “emergência de saúde pública de alcance mundial”, o que poderia levar a medidas em escala internacional.

A hipótese de usar a droga experimental foi levantada em um momento de críticas à postura dos EUA. Especialistas em doenças infecciosas indagam por que a substância com efeito “milagroso”, segundo a emissora norte-americana CNN, não pode ser oferecida às vítimas africanas.

O presidente Barack Obama disse ontem ser prematuro usar o medicamento para tratar infectados na África. “Acredito que devemos deixar que a ciência nos guie e não creio que tenhamos todas as informações para determinar se esse remédio é eficaz.”

A OMS também foi alvo de questionamentos. Na última terça-feira, três dos maiores especialistas em ebola do mundo — Peter Piot, que descobriu a doença em 1976, David Heymann e Jeremy Farrar — disseram ser necessária uma resposta mais forte da agência da ONU, “a única instância com autoridade internacional” para permitir o uso de tratamentos experimentais. “Os governos africanos devem ser autorizados a tomar decisões sobre se devem ou não usar esses produtos para, por exemplo, proteger e tratar trabalhadores de saúde que atuam diante de um alto risco de infecção”, escreveram em um comunicado.

De acordo com a rede NBC, um dos agentes da droga é o MB-003. Trata-se, segundo documento da Mapp, de um coquetel de anticorpos. Ainda conforme o relatório, dos animais tratados, incluindo primatas não humanos, 43% sobreviveram após a intervenção. Diretor do Instituto Americano de Alergias e Doenças Infecciosas, Anthony Fauci vê com ressalvas o uso da substância em larga escala, pois o soro demonstrou “certa eficiência apenas em dois pacientes.” O especialista também ressaltou que pode haver uma “enorme dificuldade” em produzir uma quantidade significativa de doses.

Precaução
Independentemente da recomendação a ser adotada pela OMS, grandes centros, como Reino Unido e França, preparam espaços para um possível atendimento a cidadãos infectados. A Arábia Saudita anunciou, ontem, a morte de uma pessoa com sintomas de ebola em um hospital de Jidá. A Espanha deve receber hoje o sacerdote Miguel Pajares, infectado pelo vírus na Libéria, e a religiosa Juliana Bohi. Mesmo não tendo apresentado os sintomas da doença, Bohi teve contato com o sacerdote. O transporte deles da capital de Libéria, Monróvia, estava previsto para a meia-noite de ontem.

Novo relatório da OMS indica que, entre 2 e 4 de agosto, 108 novos casos de ebola foram confirmados na África Ocidental. Nesses dois dias, 45 pessoas morreram, subindo o número de óbitos para 932. Os casos suspeitos, prováveis ou confirmados da doença somam 1.711 em quatro países: Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria.

A Libéria é a nação mais atingida. De 2 a 4 de agosto, contabilizou 45 casos e 13 mortes. Em meio à epidemia, mulheres do movimento liberiano pela paz se reuniram ontem, perto da residência do presidente Ellen Johnson Sirleaf, para rezar pelo fim dos contágios no país. O grupo foi criado pela Nobel da paz Leymah Roberta Gbowe, ativista que ajudou a pôr fim à segunda guerra civil da Libéria em 2003.

932
Total de mortes em decorrência do novo surto de ebola na África Ocidental, segundo a Organização Mundial da Saúde
 
Apelo
Funcionários da saúde no Oeste da África fizeram um apelo nesta quarta-feira por ajuda urgente. A Libéria fechou um hospital onde vários agentes foram infectados. A epidemia de febre hemorrágica sobrecarregou os rudimentares sistemas de saúde pública e levou ao destacamento de tropas para impor quarentenas nas áreas mais atingidas, na região remota das fronteiras entre Guiné, Libéria e Serra Leoa.

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Missionários fazem apelo na Libéria: a OMS também foi alvo de questionamentos (foto: ZOOM DOSSO / AFP)
Enquanto isso, o Comitê de Emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), que se reúne desde ontem em Genebra, dirá na sexta de manhã se a epidemia de febre hemorrágica representa uma emergência de saúde pública de alcance mundial. Tal status é definido como um evento extraordinário suscetível de representar um risco de saúde pública para outros Estados, com a expansão da doença a nível internacional e que requer, potencialmente, uma resposta coordenada neste âmbito. O alarme global com a propagação da doença aumentou quando o norte-americano Patrick Sawyer morreu na Nigéria no mês passado depois de passar pela Libéria.

No país, onde o saldo de mortos cresce mais rápido (são 282 mortes), moradores em pânico abandonam corpos de familiares nas ruas de Monróvia para evitar quarentenas. O hospital católico St. Joseph foi fechado depois que o diretor morreu de ebola, disseram autoridades, e seis funcionários testaram positivo, incluindo duas freiras e o padre espanhol Miguel Pajares, de 75 anos.

Muitos hospitais e clínicas convencionais foram forçados a fechar, muitas vezes porque os próprios funcionários temem contrair o vírus ou por causa de episódios de violência de locais que acreditam que a doença é uma conspiração governamental. O país mobilizou o Exército para implementar controles e isolar as comunidades atingidas com maior gravidade, a chamada operação “Escudo Branco”. A vizinha Serra Leoa afirmou ter implementado novas restrições no aeroporto e estar pedindo aos passageiros que preencham formulários e meçam a temperatura. No Leste, militares criaram bloqueios nas estradas para limitar o acesso às áreas infectadas.

Na Nigéria, quarto país a ser afetado, o número de casos suspeitos subiu de quatro para nove. "Todos os nigerianos diagnosticados foram contatos primários de Patrick Sawyer, que trabalhava para o ministério das Finanças da Libéria e foi contagiado por sua irmã", explicou o ministro de Saúde, Onyebuch Chukwu. Sawyer viajou à Nigéria, país mais populoso do continente africano e morreu em quarentena no dia 25 de julho. Os números da OMS não fazem menção à Arábia Saudita, onde um homem morreu quarta-feira depois de voltar de uma viagem de negócios em Serra Leoa.

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