Cinismo é fator de risco para a demência

Estudo relaciona a visão cínica do mundo a deficiências cognitivas, como as típicas do mal de Alzheimer. Não se sabe, porém, se a atitude é causa ou sintoma do problema mental

por Paloma Oliveto 04/06/2014 15:30

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Cínico, dizia o jornalista americano H. L. Mencken, é aquele que, ao sentir cheiro de flor, já procura pelo caixão. Todo mundo conhece alguém do tipo: rabugento, mal-humorado e, principalmente, muito desconfiado. Embora até inspire certa graça, esse traço da personalidade pode ser sinal de que algo não vai bem com a saúde mental, segundo pesquisadores europeus. Ao analisar a trajetória médica de um grupo de 1,5 mil pessoas, os cientistas descobriram que, ao lado da pressão alta, do colesterol elevado e do tabagismo, o cinismo é fator de risco para a demência.

Anderson Araújo/CB/D.A Press
Pesquisa chama a atenção sobre a necessidade de intervenções psicossociais em idosos com alterações comportamentais (foto: Anderson Araújo/CB/D.A Press)
De acordo com Anna-Maija Tolppanen, psiquiatra da Universidade do Leste da Finlândia e principal autora do artigo, publicado na edição on-line da revista Neurology, esse é o primeiro estudo a fazer a associação entre cinismo e demência. Existe uma síndrome batizada com o nome do filósofo cínico Diógenes, caracterizada, entre outras coisas, pela deterioração cognitiva. Mas, nesse caso, a demência é apenas um entre diversos sintomas. Já no trabalho das instituições nórdicas, os pesquisadores acharam uma ligação direta entre o excesso de desconfiança e o comprometimento das funções mentais. A médica esclarece que não é possível dizer, ainda, o que vem primeiro. Ou seja, se a atitude cínica favorece a demência, ou se o excesso de desconfiança é um sintoma das perdas cognitivas.

No estudo, indivíduos finlandeses e suecos com média de idade de 71 anos passaram por testes que identificam traços de demência e responderam a questionários para avaliar o nível de cinismo. Por exemplo, eles tinham de dizer o quanto concordavam com afirmações, como “É mais seguro não confiar em ninguém”, “Acho que a maior parte das pessoas mente para se dar bem” e “A maior parte das pessoas vai usar meios ilegais para obter lucros”. Baseado nesses resultados, os cientistas as classificaram como muito cínicas, moderadas ou pouco cínicas. Os testes foram repetidos ao longo de oito anos. No fim, 662 pessoas participaram do experimento completo.

Durante o período da análise, 46 participantes receberam o diagnóstico de demência. Aqueles que apresentavam altos níveis de comportamento cínico tinham três vezes mais risco de sofrer de deterioração cognitiva, comparando-se aos classificados com baixo teor de desconfiança. Os pesquisadores ajustaram dados, como tabagismo, que têm associação com a demência, para se assegurar de que o cinismo, de fato, influencia a saúde da mente na velhice.

Segundo Anna-Maija, os cientistas investigaram essa relação porque, embora a prática clínica evidencie que uma forte característica de pacientes com demência é o alto índice de cinismo, a literatura médica a respeito é nula. “Sabemos da influência de fatores de risco em vários tipos de doenças, incluindo o declínio cognitivo. Por outro lado, a desconfiança cínica já foi associada a doenças cardiovasculares, ao câncer e à mortalidade em geral. Contudo, não encontramos nenhuma pesquisa que tenha investigado se pessoas com altos níveis de cinismo estão mais suscetíveis à demência”, afirma ao Estado de Minas.

Mais dados
“Sabemos que algumas pessoas com demência apresentam sintomas de paranoia, confusão e mudança de humor que podem levar ao cinismo e à desconfiança. Entender mais profundamente os sintomas de demência já conhecidos, incluindo mudanças de personalidade, oscilação de humor e depressão, vai nos ajudar a aprimorar o conhecimento que temos dessa condição e melhorar o tratamento, os cuidados e o suporte que podemos fornecer”, avalia Jeremy Hughes, presidente executivo da Sociedade de Alzheimer do Reino Unido.

Contudo, Hughes acredita que o resultado da pesquisa finlandesa precisa ser replicado com um número maior de pacientes. “O estudo tenta fazer um link entre altos níveis de desconfiança cínica e demência, mas uma quantidade muito baixa de indivíduos que participaram dos testes de fato desenvolveu o problema, então creio que é precoce tirar conclusões definitivas a partir dele”, pondera.

Anna-Maija Tolppanen esclarece que precisa ampliar a amostra. “Nosso estudo sugere que o comportamento cínico pode ser um alvo de intervenções precoces para o Alzheimer e outros tipos de demência, mas temos consciência da necessidade de outros cientistas replicarem o resultado com números maiores de participantes”, diz.

Para Diane Norris, psiquiatra do Instituto de Alzheimer da Universidade de Wisconsin, a pesquisa chama a atenção sobre a necessidade de intervenções psicossociais em idosos com alterações comportamentais. Ela lembra que os danos cerebrais associados à demência geralmente levam a uma falta de controle sobre as emoções. “Embora nem todas as pessoas com perdas cognitivas vão exibir mudanças no comportamento, muitas se sentirão ansiosas, deprimidas, frustradas, raivosas, sem esperança e sem confiança nos outros. Essas não são características normais do envelhecimento, mas um sinal de que algo está errado”, adverte. A especialista lembra que tratar esses sintomas, ainda que não influencie diretamente no processo da demência – não existe cura para o mal – vai trazer mais qualidade de vida para o idoso e seus cuidadores.


Deterioração social
O termo moderno “cinismo” deriva da corrente filosófica de Diógenes de Sinope, grego minimalista do século 4 a.C., que defendia os princípios da autossuficiência e do desapego de bens materiais. Por vontade própria, vivia como um mendigo nas ruas de Atenas, onde ensinava em troca de comida. Alguns autores dizem que ele morava dentro de um barril, embora provavelmente essa seja apenas uma metáfora para seus ideais.

A reclusão social e a rejeição do mundo exterior pregadas por Diógenes inspiraram, na década de 1970, o nome de um distúrbio comportamental caracterizado por negligência extrema com aspectos físicos e higiênicos, desconfiança, paranoia, isolamento social, autodefesa e tendência compulsiva. A Síndrome de Diógenes — que não sofria desse mal, contudo — atinge idosos e está associada à demência senil. Um traço comum de quem tem o problema é a mania de comprar em excesso e acumular objetos dentro de casa; uma característica bem diversa dos ensinamentos do grego.

Uma pesquisa conduzida na Itália determinou que a incidência anual estimada da síndrome é 0,5 por mil pessoas com mais de 60 anos, mas os cientistas alertaram que o problema é subdiagnosticado porque, muitas vezes, os sintomas assemelham-se ao de outras doenças cognitivo-comportamentais. A síndrome atinge pessoas de todas as classes socioeconômicas e afeta homens e mulheres na mesma proporção. Em um terço dos casos, ela é deflagrada pela morte do cuidador do idoso, que, a partir daí, começa o processo de deterioração social e mental.

VÍDEOS RECOMENDADOS