Assimetria craniana em bebês exige cuidado, mas pode ser revertida

De acordo com médico que oferece tratamento no Brasil, condição pode trazer prejuízos à mandíbula, à mordida, à audição e à visão da criança. Se identificada a tempo, no entanto, assimetria pode ser solucionada com medidas simples

por Letícia Orlandi 11/04/2014 13:30

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Imagem cedida por Gerd Schreen
Se o problema for identificado e tratado de forma rápida, em muitos casos é resolvido sem a necessidade do uso da órtese (capacete) (foto: Imagem cedida por Gerd Schreen)
O Saúde Plena trouxe na última semana uma matéria sobre o trabalho da artista norte-americana Paula Strawn, que faz pinturas divertidas em capacetes utilizados por bebês para corrigir a plagiocefalia posicional, também conhecida como síndrome da cabeça achatada (Flat Head, em inglês) ou assimetria craniana. Recebemos e-mails e mensagens de pais preocupados com a identificação dessa condição e se seria possível tratá-la no Brasil. A resposta é sim, é possível, mas apenas um médico oferece tratamento completo, incluindo o ajuste dos capacetes, no país.

O cirurgião brasileiro Gerd Schreen despertou para o assunto ao identificar a plagiocefalia posicional na filha mais nova, hoje com 9 anos. Em 2005, quando ela tinha apenas 4 meses, o pai do médico percebeu que havia uma assimetria no crânio da menina. Apesar de ter recebido um diagnóstico correto inicialmente, Schreen descobriu que o problema era praticamente desconhecido no Brasil e o acesso ao tratamento era muito difícil. “Eu, mesmo sendo médico, nunca tinha ouvido falar. Mas a condição é muito mais frequente do que se imagina”, explica.

Nos Estados Unidos, as estatísticas indicam que a assimetria craniana atinja 13% das crianças. No Brasil, os levantamentos ainda estão sendo feitos. “Eu ouvia dos amigos, de pediatras e de neurologistas que 'depois o cabelo cresce', 'melhor se conformar'. Para mim, como pai, isso não era suficiente”, define Schreen, que resolveu viajar para os EUA e conhecer o tratamento oferecido lá.

Além dos capacetinhos mostrados na matéria anterior – o nome técnico para o equipamento é órtese – o médico explica que a terapia inclui a revisão e exames a cada 15 dias. Por isso, ele se mudou com a família – a filha mais velha, que tinha 2 anos à época, a esposa e a sogra - para os Estados Unidos. Não satisfeito com essa situação, estudou para se tornar especialista em assimetria craniana de bebês – curso que não existe no Brasil – e, na volta ao país, fundou a Cranial Care, instituição que já atendeu cerca de 600 crianças.

Tratamento
Imagem cedida por Gerd Schreen
A assimetria craniana pode alterar o posicionamento dos olhos, orelhas e mandíbula na medida em que a criança cresce (foto: Imagem cedida por Gerd Schreen)
Uma das causas da assimetria é o torcicolo congênito, uma tendência de a criança ficar com a cabecinha virada sempre para o mesmo lado. Assim, um dos lados da região posterior fica mais tempo apoiado. Como a cabeça do bebê cresce muito rápido, ela vai acabar encontrando outras regiões para expandir, se encontrar alguma resistência.

Em muitos casos, basta um reposicionamento da criança em sua rotina para driblar o torcicolo congênito, estimular o bebê a olhar para outras direções e fortalecer os músculos do pescoço, de preferência até os 5 meses de vida. Essas medidas podem ser suficientes para que o crânio volte ao formato normal. Já nos casos em que a assimetria permanece, pode haver a indicação da órtese.

Segundo Gerd Schreen, a cabeça do bebê é escaneada a laser - há alguns anos, era necessário um molde de gesso, o que foi superado com a tecnologia - e o capacete, única parte do tratamento que não é feita no Brasil, é encomendado. Em cerca de duas semanas o equipamento chega ao consultório para que sejam feitos os ajustes. “A órtese é feita com um polímero moldável, ou seja, é firme, mas elástico. Não aperta a cabeça da criança. Na medida em que o pequeno paciente cresce, vamos realizando modificações para garantir a adaptação adequada”, explica o médico.

Consequências
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Aceitação do capacete pelo bebê é boa. É importante não perder a 'janela de tratamento', que vai dos 3 meses até no máximo 20 meses de vida (foto: Imagem cedida por Gerd Schreen)
Embora não haja registro de que a assimetria afete o cérebro, o especialista informa que há outros prejuízos funcionais relacionados à torção da estrutura crânio-facial. Isso acontece porque, se na parte de trás da cabeça há uma região plana, na parte da frente isso se inverte, alterando a posição de olhos, boca e orelhas.

O deslocamento da articulação temporomandibular (ATM), por exemplo, pode causar diferença de posição na arcada dentária inferior, afetando a oclusão dentária (mordida) e provocando a já conhecida dor da ATM. “A mudança na posição de uma das órbitas, por sua vez, traz mudanças no campo visual. No caso do conduto auditivo, o deslocamento prejudica a autolimpeza do canal, favorecendo as otites de repetição", alerta o especialista brasileiro.

Mas um dos problemas mais graves da plagiocefalia posicional relaciona-se aos traumas psicológicos. “Pesquisas realizadas nos Estados Unidos observaram que as crianças com assimetria não-tratada tinham desempenho escolar pior que o dos colegas. Só que isso não se devia à deficiência intelectual, uma vez que o QI e demais testes indicaram o mesmo nível entre os dois grupos. A razão era o bullying, a baixa autoestima. Os prejuízos ao desenvolvimento psicossocial levaram aos prejuízos escolares”, explica Schreen.

Tempo é importante; dinheiro também
De acordo com o médico brasileiro, o tempo que se leva para iniciar correção da assimetria é muito importante. “É preciso agir naquele período de crescimento rápido da cabeça do bebê, que vai até os 18, no máximo 20 meses de vida. Mas o ideal é atuar entre os 3 e 6 meses, quando as chances de uma boa evolução apenas com o reposicionamento e a eliminação do apoio viciado, sem a necessidade de órtese, são grandes”, explica.

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Imagens mostram o antes (à esquerda) e depois do tratamento: segundo especialista, a plagiocefalia posicional pode trazer prejuízos físicos e psicossociais à criança (foto: Imagem cedida por Gerd Schreen)
A melhor forma de identificar a assimetria craniana é olhar a criança de cima para baixo, como se fosse um pássaro em voo, olhando para o solo. Se for identificado algum achatamento, é importante chamar a atenção do pediatra. Mesmo que ele nunca tenha ouvido falar de plagiocefalia posicional, o médico poderá descartar outras possibilidade, como hidrocefalia, tumores e cranioestenose, uma doença que solda prematuramente os ossos do crânio e exige cirurgia. “As órteses, ou capacetes, podem ser utilizadas a partir dos 3 meses, nos casos mais severos de assimetria. O material é de alta qualidade e a aceitação, pelo bebê, é muito boa. Essa é uma preocupação recorrente dos pais, mas o equipamento é mais confortável do que se ele estivesse usando um gorrinho, por exemplo”, pontua Schreen.

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Para produção da órtese, a cabecinha da criança é escaneada a laser. O capacete depois passa por ajustes periódicos para acompanhar o crescimento rápido do crânio (foto: Imagem cedida por Gerd Schreen)
No Brasil, no entanto, o tratamento ainda é muito caro. A terapia completa, que inclui as consultas, o escaneamento a laser, a órtese e o acompanhamento por uma média de 3 a 6 meses, sai por valores que giram em torno de R$12 mil a R$14 mil. “Apesar do custo alto, muitos planos de saúde já realizam a cobertura total ou parcial. Todos os procedimentos, equipamentos e produtos são registrados junto à Anvisa. E, quando os pais chegam ao meu consultório, nossa primeira tentativa é o reposicionamento", diz o médico.

Schreen lamenta a falta de informação. "Nas palestras e aulas que ministro, minha primeira orientação é preventiva: digo que vou ensinar a não precisar dos meus serviços. As dicas para evitar a assimetria precisam ser mais bem divulgadas”, pondera.

Ele lembra que um diagnóstico precoce pode tornar a solução do problema bem mais simples e menos onerosa. “Não podemos perder a janela de tratamento, que é a fase de crescimento rápido da cabecinha da criança”, reforça o especialista. O cirurgião conta que, após concluir o tratamento da filha, a sensação era de poder proporcionar uma infância e adolescência saudável para a menina. A partir de então, ele passou a trabalhar para ampliar o conhecimento sobre essa condição no Brasil.

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