Entenda por que o consumo de vitaminas virou uma febre que escapa do racional

Saúde se vende em cápsulas? A verdade é que a ciência ainda diverge sobre o assunto. Dosagens, efeitos e interações são objeto de inúmeras pesquisas em andamento. Conheça as mais promissoras - e também as que criticam veementemente o consumo indiscriminado de complexos vitamínicos

por Carolina Samorano 03/02/2014 15:00

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Elas levam a fama de serem capazes de prevenir câncer, doenças cardiovasculares e até neurológicas, como a esclerose múltipla e o Parkinson. Teriam poder de aumentar a disposição, regular o sistema imunológico e até hidratar o corpo. Se o seu cabelo cai ou se as unhas andam quebradiças, é porque elas estão faltando. As vitaminas são poderosas, sim senhor. Dizem os especialistas que, sem elas, o corpo não seria capaz de cumprir as funções vitais. Inclusive, daí vem o nome, dado pelo bioquímico polonês Casimir Funk, em 1912: vita, do latim, vida.


No organismo, elas assumem a função de biocatalisadores, com as enzimas e os hormônios. E é graças a esse grupo de moléculas que qualquer reação bioquímica ocorre no organismo, aproveitando a energia dos alimentos, por exemplo, acelerando ou freando o tempo das reações e por aí vai. Algumas delas já ganharam até status de remédio. “No fim do século passado, por exemplo, controlou-se uma doença chamada beribéri (causadora de inchaço nas pernas, vômito, confusão mental) com a vitamina B1, assim como se controlou o escorbuto com a vitamina C”, lembra o médico nutrólogo Edison Saraiva. A descoberta da eficácia da B1 rendeu ao médico holandês Christiaan Eijkam um Prêmio Nobel em 1929.

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Por que as vitaminas despertam tanta curiosidade entre cientistas, médicos e pacientes? (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
 Quase um século depois, a febre em torno dos tais nutrientes segue firme. Qualquer alimento industrializado é “enriquecido” com uma verdadeira sopa de letrinhas. Mas, se antigamente havia um consenso em torno do uso de suplementos vitamínicos, hoje pesquisadores e médicos são um pouco mais reticentes. Vitaminas seguem sendo elementos essenciais à manutenção da vida, mas há que se observar as doses e os efeitos adversos.

Tomar ou não tomar um comprimido de vitamina C por dia, como ensinou a sua avó? Comprar ou não aqueles potes de multivitamínicos? Quem não quer resolver todas as carências alimentares e prevenir uma infinidade de doenças tomando apenas um comprimido por dia? As discussões são amplas, a unanimidade, impossível. A reportagem se dedica a entender o universo das vitaminas e por que elas despertam tanta curiosidade entre cientistas, médicos e pacientes. As conclusões, como quase tudo relacionado à ciência, são provisórias.

A dieta do comprimido
A primeira vez que a bancária Tainara Martins, 27 anos, se viu às voltas com potes e potes de vitaminas, fitoterápicos e micronutrientes foi há dois anos. Antes disso, ela diz, “gostava de tomar algumas coisas”, mas nada que causasse espanto em quem conhece sua rotina.

Determinada a eliminar alguns quilos e a ter hábitos de vida mais saudáveis, Tainara foi procurar uma nutricionista ortomolecular como último recurso depois de várias dietas frustradas. “Cheguei lá e fui logo falando que eu não tinha a menor ideia do que era aquilo, e que eu queria conhecer antes de começar a fazer. Nunca tinha pensado em fazer essas dietas em que se toma um monte de ‘remédio’”, lembra. Na verdade, a dieta combinava alimentação equilibrada e doses de colágeno, ômega 3, extrato de alho e vitaminas (quatro por dia).

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Tainara aderiu ao "emagrecimento vitamínico", com resultados positivos: os médicos desaconselham (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Dois anos depois de iniciado o tratamento, Tainara superou com folga os objetivos iniciais. Como benefício extra, ela viu pele e cabelo melhorarem, além da disposição — nem sem lembra quando foi a última vez que ficou doente. Os médicos, porém, não compartilham desse entusiasmo. “Eles dizem que não tem comprovação científica. Mas, lá fora, a medicina ortomolecular é bem mais aceita”, comenta.

Foi do exterior que ela trouxe o último arsenal de vitaminas e outros nutrientes em cápsulas. Como lá o mercado de vitaminas é bem mais aquecido, a nutricionista de Tainara passou uma lista de comprimidos para que ela procurasse, alguns inexistentes por aqui ou bem mais caros. A mala voltou recheada. “Fiquei até com medo que me parassem no aeroporto”, conta.

"Cheguei lá e fui logo falando que eu não tinha a menor ideia do que era aquilo, e que eu queria conhecer antes de começar a fazer. Nunca tinha pensado em fazer essas dietas em que se toma um monte de ‘remédio’” - Tainara Martins

Os multivitamínicos não funcionam
Pelo menos é isso que têm sugerido os estudos em torno dos tais comprimidos que prometem nutrição de “A a Zinco” nos últimos anos. Em dezembro do ano passado, a revista médica Annals of Internal Medicine publicou um editorial polêmico sugerindo que as pessoas parem de jogar dinheiro fora comprando os tais suplementos multivitamínicos, vendidos aos montes em farmácias (e até em mercados, nos Estados Unidos). Intitulado “Já chega: Parem de desperdiçar dinheiro em vitaminas e suplementos minerais”, o texto se baseia em três artigos publicados na edição que buscaram entender o papel dos tais suplementos na prevenção e na progressão de doenças crônicas.

O primeiro foi uma revisão de três amostragens com suplementos multivitamínicos e 24 com vitaminas isoladas ou combinadas a uma segunda, totalizando mais de 400 mil pacientes. A conclusão foi de que não há evidência alguma sobre benefícios dos suplementos em qualquer causa de morte, câncer ou doença cardiovascular. O segundo foi um estudo que avaliou a eficácia de um multivitamínico por dia para prevenir o declínio cognitivo em homens com mais 65 anos — foram 5.947 no total. Depois de 12 anos de acompanhamento, observaram que não houve diferença significativa entre o grupo dos multivitaminas e o grupo do placebo. O último estudo se dedicou aos potenciais benefícios de altas dosagens de multivitamínicos em 1.708 homens e mulheres sobreviventes de um infarto do miocárdio. Quase cinco anos depois, não houve diferença notável na recorrência de problemas cardiovasculares.

“Apesar das evidências de que não há benefício algum e até possíveis riscos, o uso de suplementos multivitamínicos aumentou entre adultos nos Estados Unidos de cerca de 30%, entre 1988 e 1994, para 39%, entre 2003 e 2006”, diz o editorial, assinado pelos médicos responsáveis pela publicação. A crescente indústria americana de vitaminas já bateu a casa dos US$ 28 bilhões (dados de 2010).

A publicação caiu como uma bomba no meio científico. John Michael Gaziano, pesquisador no Brigham and Women’s Hospital, em Boston, e co-autor do estudo com suplementação vitamínica em homens acima dos 65 anos, não gostou do “recorte” dado pela revista. “Nesta edição do Annals, publicamos apenas os resultados na função cognitiva. Resultados anteriores, publicados há um ano, mostraram redução no câncer e na catarata”, disse Gaziano à Revista, por e-mail. No passado, ele foi o responsável por desmistificar a vitamina E. “Agora, todos tomam vitamina D, então vamos estudá-la”, garantiu.

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