Estreitar laços e cuidar dos pais são motivos que levam adultos a adiarem a saída de casa

Não é só o conforto financeiro que leva muitos adultos a adiarem a hora de morar na própria casa

por Correio Braziliense 04/01/2014 14:00

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Uma das principais questões que afligem o jovem adulto hoje é a hora certa de deixar a casa dos pais. Indo na contramão do que era feito em gerações passadas, quando, muitas vezes, os filhos partiam em busca de autonomia e liberdade ainda na adolescência, atualmente morar no lar em que se nasceu até depois dos 30 anos é cada vez mais comum. Manter o vínculo com a família, não correr o risco de perder o padrão social e o medo de se arrepender estão entre os principais motivos que mantêm adultos no ninho.

As razões para essa mudança de costume, segundo a psicóloga especialista em terapias familiares Rosane Costa, estão vinculadas às expectativas criadas pelos jovens diante da possibilidade de mudança. “A primeira coisa que a grande maioria das pessoas que se encontra na iminência de sair de casa pensa é na manutenção financeira. É praticamente unânime a condição de manter o mesmo padrão econômico disponibilizado pelos pais”, afirma. Caso isso não seja possível, de acordo com a especialista, muitos jovens concluem que a hora certa ainda não chegou.

Correio Braziliense/D.A Press
Morar no lar em que se nasceu até depois dos 30 anos é cada vez mais comum. (foto: Correio Braziliense/D.A Press)
Existem, no entanto, vários outros motivos apontados por aqueles que decidem adiar o voo solo. No caso do analista do Senado Federal Júnior Grossi, 35 anos, a principal razão é fazer companhia à mãe, de 66 anos, e ao pai, de 75. “Não continuo morando com eles por uma questão financeira, mas por entender que eu tenho de cultivar essa relação. E isso é consequência exatamente da forma como fui educado. A ideia de que, enquanto solteiro, permaneceria em casa foi passada justamente por eles”, conta.

Júnior, porém, passou temporadas sob outro teto. O analista se casou aos 24 anos, quando se mudou para outro estado. Cinco anos depois, divorciou-se e voltou para Brasília, onde recomeçou a vida. “Foi nessa situação que retornei pela primeira vez para a casa dos meus pais. Comecei a procurar trabalho, a estudar para concurso, a dar aula em cursinhos. Não tinha por que morar sozinho”, lembra. Além disso, o filho único se incomodava com a falta que fazia aos pais.

Para Rosane Costa, nas famílias com um só filho, a tendência de que ele permaneça em casa durante a idade adulta é maior. “A explicação para isso me parece lógica. É criada uma interdependência muito maior entre pai, mãe e filho, que, nessas situações, assume um papel crucial na comunicação familiar, no contato entre cada membro. Diante dessa situação, os pais acabam considerando necessária, inconscientemente e para o bem do casal, a permanência do filho em casa”, explica.

Com o salário resultante das atividades profissionais, o servidor federal viu-se, depois de um tempo, com condições de adquirir o próprio canto. E assim o fez. “Como estava morando sozinho antes, a volta para casa exigiu que eu me readaptasse. Foi nesse período que comprei meu apartamento, ainda na planta”, lembra. O imóvel ficou pronto há mais de um ano, mas Júnior nunca, de fato, se mudou. “Nos últimos meses, tenho dormido cerca de cinco noites por semana lá em casa (a dos pais). Acabo indo para o meu apartamento só em determinadas ocasiões.”

Agora que ele se casará novamente — a cerimônia está marcada para o fim de 2014 — uma mudança definitiva parece se aproximar. “Depois que eu me casar, essa situação de não saber, de fato, onde eu moro, obviamente tem de acabar. Mesmo assim, pretendo continuar convivendo com meus pais. Vou adaptar minha rotina para que sempre tenha tempo de estar perto deles. Eu continuo ainda na casa deles por simplesmente entender que essa é uma relação que eu tenho de cultivar”, afirma.

Espaço próprio

Situação parecida vive o servidor do Ministério da Saúde Leonardo Britto Vaz. Aos 36 anos, ele não é casado, não tem filhos e não vê necessidade de sair de casa. Isso porque ele tem seu espaço, fazendo com que não sinta falta de liberdade ou de privacidade. Além disso, acredita que, dessa forma, contribui para o bem-estar e, principalmente, para a manutenção da saúde dos pais. O que o difere de Júnior é o fato de ser o mais velho de três irmãos — os outros dois já se casaram e saíram de casa. “Até hoje, não houve qualquer comentário ou recriminação por eu ainda estar em casa, isso porque, de fato, acredito que eu contribua e ajude no dia a dia da família”, opina.

A principal ajuda é dada por meio da companhia que faz à mãe, já que os pais não permitem que ele contribua financeiramente para a manutenção da casa. “O meu pai é piloto e, por isso, quase nunca está em casa. Eu desempenho um papel que acaba sendo tão importante como qualquer outro no que diz respeito à qualidade da nossa vida, à felicidade da nossa família”, acredita. Em duas oportunidades, entretanto, enquanto estudava no exterior, Leonardo passou mais de um ano longe de casa. “Mesmo assim, na volta, nunca senti que me faltava algo que tinha conquistado morando sozinho”, garante.

Os amigos, segundo Leonardo, dizem que ele tem muita sorte de ainda poder morar com os pais e, mesmo assim, ter tanta liberdade e autonomia. “Eu não me preocupo em sair de casa. Vivo bem e sei que contribuo para a saúde e bem-estar dos meus pais”, afirma. A psicóloga Rosane Costa garante que, na grande maioria dos casos, o filho ajuda os pais a se manterem unidos, servindo como uma espécie de válvula de escape para cada um. “A relação de confiança que se cria quando existe a oportunidade de sair de casa, mas, mesmo assim, é feita a opção de permanecer, é muito grande. As interpretações desse momento variam muito, mas, na maioria das vezes, cria-se um vínculo inédito de cuidado entre os pais e o filho”, avalia.

Sem arrependimento
A educadora física Manuela Pimentel, 31 anos, saiu de casa quando se casou, ainda aos 22. Um ano e meio após a união, separou-se. Como já não dependia dos pais para custear a vida, optou por morar sozinha. Passou, então, sete anos em um apartamento na Asa Norte. Foi quando seu pai, Antero Alves, 62, mudou-se para uma casa em um condomínio de Sobradinho. “As coisas foram acontecendo para que um dia eu pudesse dar a opção às minhas filhas de virem morar comigo, o que seria a realização de um sonho para mim”, lembra Antero, que se separou da mãe de Manuela há duas décadas. E assim foi feito: após tanto tempo, Manuela voltou a morar com o pai.

Manuela conta que foi alertada por amigos e familiares que, se tomasse essa decisão, poderia estar retrocedendo na vida. “Diziam que meu pai limitaria minha liberdade, mas não me deixei abater com esses comentários. Acho que a gente tem que fazer o que quer e lidar com as consequências. Foi o que fiz e jamais me arrependi”, afirma. Segundo a educadora, o convite do pai foi aceito para que a relação entre eles fosse estreitada, e não por ter sido a opção mais cômoda.

Ter a filha em casa, para Antero, é uma felicidade. “A experiência de morar com a minha filha, depois de 20 anos separado, é composta de aprendizado. É interessante como a convivência ainda flui de maneira natural, por meio do diálogo, do carinho e da compreensão. Mas é importante respeitar a individualidade de cada um em uma situação como essa”, diz. Para Manuela, é importante ter consciência do valor dos pais na vida dos filhos enquanto ainda há tempo. “O desafio da vida é a convivência. Não vou esperar meu pai não estar mais comigo para lamentar a falta que ele me faz. Por isso, e por ter ficado tanto tempo longe dele, aproveito cada oportunidade que tenho. E morar junto é a alternativa ideal.”

Juntos
A terapia familiar consiste de sessões conjuntas com vários integrantes da família. É uma abordagem ativa e orientada para a obtenção de resultados num prazo curto, indicada para as situações em que se deseja uma mudança de funcionamento entre os parentes. Contudo, é raro que as famílias procurem ajuda em conjunto. É mais frequente que alguém recorra ao psicólogo (ou seja levado a ele) por causa de determinado sintoma. Com o tempo, pode ficar claro que o incômodo esteja relacionado com a dinâmica ou exprima o sofrimento familiar. Nesses casos, é o terapeuta quem propõe o envolvimento de outras pessoas.

"A relação de confiança que se cria quando existe a oportunidade de sair de casa, mas, mesmo assim, é feita a opção de permanecer, é muito grande. As interpretações desse momento variam muito, mas, na maioria das vezes, cria-se um vínculo inédito de cuidado entre os pais e o filho” - Rosane Costa, psicóloga especialista em terapias familiares.

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