Pesquisa conclui que a caxirola não representa riscos à audição; instrumento pode ser liberado

Instrumento brasileiro não é tão perigoso quanto as vuvuzelas, usadas na Copa passada. Para produzir o nível de pressão de uma corneta, são necessários de 500 a 4 mil chocalhos

por Bruna Sensêve 10/12/2013 14:30

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O estridente e perturbador som da vuvuzela roubou muitos holofotes na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, passando de instrumento oficial a objeto proibido nos estádios. E o incômodo não se restringiu apenas aos gramados. O alto grito das cornetas perturbou não só jogadores, torcedores e árbitros, mas também locutores e até mesmo o público que assistia aos jogos pela televisão. Ficava até difícil se concentrar nas partidas com a animada e controversa trilha sonora.

Uma nova polêmica musical aguarda os entusiastas do futebol no ano que vem. A caxirola, criada por Carlinhos Brown para a competição de 2014, já enfrentou uma batalha perdida na Copa das Confederações este ano, quando foi proibida, e aguarda uma decisão sobre se terá ou não a chance de conquistar os amantes da bola daqui a alguns meses. Enquanto uma definição não sai, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) se adiantaram e testaram se o instrumento musical tem o mesmo potencial da vuvuzela para incomodar os ouvidos. O professor Stephan Paul e a aluna Talita Pozzer estudaram detalhadamente a forma de manuseio e a acústica do instrumento percursivo.

Bruno Peres/CB/D.A Press
Carlinhos Brown mostra sua criação em frente ao Mané Garrincha: ainda não está definido se a caxirola será permitida nos estádios da Copa (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
O trabalho — apresentado na semana passada durante a 166ª Reunião da Sociedade Acústica da América, em São Francisco, nos Estados Unidos — foi dividido em três etapas. Inicialmente, os autores perceberam que era necessário compreender como uma pessoa sem contato prévio com o instrumento o manusearia. Vinte voluntários que nunca haviam visto a caxirola foram convocados para essa fase de testes, deixando claro que as pessoas variam a forma como movem a criação do instrumentista Carlinhos Brown, gerando diferentes resultados acústicos.

De acordo com os dados coletados, quando a caxirola é sacudida “em pé”, sua potência sonora no ouvido do usuário chega a 82 decibéis (dB), o equivalente a uma rua muito movimentada no centro da cidade. Se o gesto for com a peça “deitada”, esse valor cai para 74dB, algo como uma televisão, um rádio ou um aspirador de pó ligado. “O volume dela é expressivo, mas não chega à pressão sonora de uma vuvuzela, muito longe disso”, diz Stephan Paul — a corneta sul-africana alcança estridentes 109dB. O professor, no entanto, garante que a caxirola, apesar de não representar riscos aos usuários, é capaz de se fazer ouvir nos estádios. “Setenta e quatro decibéis não são pouca coisa.”

Nos estádios
Apesar de parecer uma diferença pequena, um pulo da casa de 70dB para a de 80dB representa uma grande diferença em termos de acústica. “O nível de pressão sonora é uma grandeza logarítmica que descreve razoavelmente bem nossa sensação de volume sonoro. O aumento em 10dB siginifica o dobro da pressão sonora”, explica Paul. Se comparado ao caxixi, instrumento que serviu de inspiração para o chocalho brasileiro, a diferença é gritante, pois o último alcança somente entre 36dB e 37dB em potência.

Os resultados indicam que a caxirola não deve atormentar os torcedores caso se torne mesmo o instrumento oficial da Copa de 2014. Os 109dB gerados pela vuvuzela são compatíveis ao barulho de um poderoso cortador de grama, de uma motocicleta, de um trator agrícola ou mesmo da decolagem de um jato ouvida a 305m de distância. Esse índice pode levar a sérios danos de exposição por oito horas. Isso significa que uma única vuvuzela produz o mesmo nível de pressão de 500 a 4 mil caxirolas, dependendo de como elas são agitadas.

CB/DA Press
Clique para ampliar e ver a comparação entre o som da caxirola e vários outros ruídos (foto: CB/DA Press)
O próximo, e último, passo da pesquisa será medir os níveis de poder do som da caxirola, explica Talita Pozzer. Ao contrário dos níveis de pressão sonora, eles são dependentes da distância e do ambiente. Por esse motivo, é preciso que os cálculos tenham como base os lugares em que a peça será utilizada, nesse caso, os estádios de futebol. Pozzer já coletou os dados de algumas arenas, mas ainda não tem certeza se esses serão os escolhidos para o experimentos. Os pesquisadores planejam publicar um artigo em revista especializada assim que concluírem os resultados.

Efeito questionado
Mesmo não representando riscos à saúde, a caxirola ainda terá o desafio de atender a expectativa dos torcedores, que, geralmente, gostam de fazer muito barulho nos estádios. Na avaliação de Samir Gerges, especialista em controle de ruídos e vibrações e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, o volume de barulho produzido pela caxirola não deve ser suficiente para transpor o som que é produzido naturalmente pela torcida. Por esse motivo, acredita, não deve atrair o público. “Vai ter um som estranho no estádio, desagradável, que não reflete a felicidade do ser humano ao ver seu time marcando um gol”, aposta.

Gerges explica que a arquitetura do estádio de futebol pode até chegar a alterar esse volume, mas o efeito não é tão grande se for uma arena aberta e sem teto. “No caso, o estádio precisaria ser mais fechado, com paredes altas e teto. As reflexões do som seriam fortes, e o barulho ficaria mais alto.” Um dos poucos estádios que possui esse efeito é a Bombonera, em Buenos Aires. “A voz das torcidas vai continuar existindo, e bem mais alta que as caxirolas. O efeito da torcida é muito importante para estimular os jogadores de futebol, ao contrário dos tenistas, por exemplo, que precisam de concentração. Por isso, é exigido o menor ruído possível dos torcedores.”

Inspiração africana
O instrumento criado por Carlinhos Brown foi adaptado do caxixi, instrumento percursivo de origem africana. Nos dois casos, o som é gerado pelo impacto de partículas rígidas nas paredes de uma cesta fechada. A caxirola contém bolinhas de metal e é feita de polímeros ambientalmente corretos, enquanto o caxixi é produzido com componentes naturais, como sementes.

La Doce
O estádio La Bombonera é a casa do mais popular clube argentino, o Boca Juniors, com capacidade para 57.395 espectadores. A forma pouco usual de sua arquitetura faz com que ele tenha uma acústica única, amplificando bastante o barulho da torcida. A arena dos hermanos é famosa exatamente por essa característica, que torna o jogo muito mais difícil para as equipes visitantes. Por esse motivo, o estádio foi apelidado pelos fãs de La Doce (A Doze), uma vez que a arena cumpre a função do 12º jogador do Boca.

Para saber mais: à espera do laudo
A liberação da caxirola passou a ser questionada depois de um jogo entre Bahia e Vitória no primeiro semestre do ano. Em determinado momento da partida, os torcedores, que haviam recebido o instrumento de brinde, começaram a jogá-lo no gramado. A confusão preocupou a Fifa e o Comitê Organizador Local, que baniram o instrumento de plástico nas partidas do Mundial para evitar qualquer tipo de risco físico.

No fim dos mês passado, sete peritos da Polícia Federal foram ao Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, a pedido da Secretaria Extraordinária de Segurança de Grandes Eventos, para testar os impactos da liberação da caxirola. Com direito a simulação, coleta de dados e testes laboratoriais, eles vão produzir um laudo técnico que será entregue ao órgão responsável. Só de posse do estudo é que o Ministério da Justiça definirá se o instrumento será mesmo banido da Copa do Mundo.

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