O Monte Roraima é mais antigo que os dinossauros, mais alto que o Pão de Açúcar três vezes seguidas e tão isolado em sua mesa de pedra que dezenas de espécies só existem ali. Erguido na fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana, esse tepui de topo plano inspirou um dos romances de aventura mais famosos do mundo.
Uma rocha mais velha que quase tudo na Terra
O Monte Roraima é o maior representante dos tepuis, montanhas tabulares do Escudo das Guianas. Suas rochas de arenito quartzítico têm cerca de 2 bilhões de anos, o que coloca a formação entre as superfícies mais antigas ainda expostas no planeta, segundo levantamentos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O processo que esculpiu o tepui levou centenas de milhões de anos. A erosão lavou as rochas mais frágeis ao redor enquanto o núcleo de quartzo do Roraima resistia, criando paredes verticais que chegam a mil metros de altura. O topo, hoje a 2.810 m de altitude, é, na prática, uma relíquia geológica de uma superfície terrestre anterior ao surgimento dos primeiros répteis.

O ponto onde três países se encontram acima das nuvens
A divisão é geograficamente desigual. Conforme o Instituto Socioambiental, 85% do tepui ficam na Venezuela, 10% na Guiana e apenas 5% em território brasileiro, no município de Uiramutã, no estado de Roraima.
No platô existe um marco geográfico raro: o Marco da Tríplice Fronteira, monumento piramidal cravado na rocha onde os três países se encontram. Em dias de céu aberto, é possível enxergar territórios da Guiana, da Venezuela e do Brasil ao mesmo tempo, com a vista sempre flutuando acima de uma camada permanente de nuvens.

Leia também: Essa cidade nordestina está em alta: 44,7% mais estrangeiros escolheram esse paraíso de mar morno e brisa perfeita
O Mundo Perdido que existiu antes do romance
O nome literário veio do escritor britânico Arthur Conan Doyle, que em 1912 publicou o romance The Lost World, sobre uma expedição que encontra dinossauros vivos no topo de uma montanha sul-americana. A inspiração nasceu dos relatos do botânico inglês Everard Im Thurn, que liderou a primeira escalada documentada ao cume em dezembro de 1884.
Ao chegar ao topo, Im Thurn encontrou um cenário que parecia mesmo de outro mundo. Rochas negras esculpidas pelo vento em formas que lembram esculturas, cavernas com cristais de quartzo e plantas que jamais haviam sido catalogadas pela ciência. Os relatos foram publicados pela Royal Geographical Society e pela National Geographic, alimentando a febre por expedições científicas que dura até hoje.
Quem sonha em conhecer o Monte Roraima, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 1,5 milhão de visualizações, onde Bruno e Paula mostram uma expedição completa por um dos lugares mais antigos e incríveis do mundo:
Espécies que só existem ali
O isolamento das paredes verticais transformou o platô do Roraima no que biólogos chamam de ilha no céu. A vida no topo evoluiu de forma independente da floresta tropical da base, dando origem a espécies que não existem em nenhum outro lugar.
Entre as endêmicas mais conhecidas está a Heliamphora, planta carnívora em formato de jarro que captura insetos para suprir a falta de nutrientes do solo de quartzo. Pequenos sapos pretos que não saltam, líquens raros e orquídeas miniatura completam o ecossistema. De acordo com registros geológicos, a temperatura no platô gira entre 20 °C e 22 °C ao longo do ano, mas pode despencar a 2 °C nas noites mais frias.
A casa de Makunaima na cosmovisão indígena
Muito antes de virar fenômeno literário, o Roraima já era central na vida espiritual dos povos da região. Segundo o Instituto Socioambiental, os Pemón da Venezuela e os Ingarikó e Macuxi do Brasil chamam o tepui de Casa de Makunaima e de Mãe de Todas as Águas.
A lenda conta que Makunaima, herói criador, derrubou a Wazaká, a árvore do mundo, cujos galhos sustentavam todas as frutas existentes. O tronco caído transformou-se na montanha de pedra, e dos galhos brotaram os rios. A explicação mítica conversa com a ciência: as nascentes do Rio Cotingo, do Rio Maú e do Rio Uailan realmente brotam aos pés do tepui, alimentando depois a bacia do Rio Branco.
O parque que tem dupla função
O Parque Nacional do Monte Roraima foi criado pelo Decreto 97.887, de 28 de junho de 1989, com 116.747 hectares no extremo norte do estado de Roraima. Conforme o ICMBio, a sede fica em Pacaraima, na BR-174.
O parque é um dos poucos do Brasil com regime de dupla afetação, instituído pelo decreto de 15 de abril de 2005. Ele coexiste com a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, e a gestão é compartilhada entre o ICMBio, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a comunidade Ingarikó. Por isso, o acesso ao Monte Roraima pelo território brasileiro é restrito e depende de autorização especial.

O caminho real até o topo passa pela Venezuela
Apesar de o tepui marcar a fronteira com o Brasil, todas as expedições turísticas comerciais saem do lado venezuelano, pela aldeia Pemón de Paraitepuy. A travessia leva entre 6 e 8 dias e cobre cerca de 95 km entre savana, rios e a subida pela única rampa natural que vence as paredes verticais.
Quem segue do Brasil normalmente desembarca no Aeroporto Internacional de Boa Vista e percorre 213 km pela BR-174 até Pacaraima, onde se faz a travessia da fronteira. De lá, a base de agências fica em Santa Elena de Uairén, na Venezuela, antes do trajeto em veículos 4×4 até o início da trilha. O passaporte e a vacina contra febre amarela são obrigatórios.
Quando o céu se abre na cordilheira de Pacaraima
O microclima do tepui é traiçoeiro. Na base, faz calor amazônico; no topo, a 2.810 m, a temperatura pode despencar e a chuva cair quase todos os dias, mesmo na estação seca. O período de menor chance de tempestades é o que garante boas travessias:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo de Pacaraíma. Condições no topo do tepui são significativamente mais frias.
Mesmo na alta temporada, a noite no platô pode chegar a 2 °C. Sacos de dormir térmicos e roupas impermeáveis são considerados essenciais pelos guias indígenas que conduzem as expedições.
Vá conhecer o platô que existe há mais tempo que a vida complexa
Subir o Monte Roraima não é passeio. É uma travessia que exige fôlego, respeito e disposição para passar dias longe de qualquer sinal de celular. O que se ganha em troca é a sensação de pisar em um chão mais antigo que quase tudo o que existe sobre a Terra.
Você precisa contemplar pelo menos uma vez na vida o tepui que inspirou Conan Doyle e ainda guarda, lá em cima, um pedaço do mundo perdido que sobreviveu ao tempo.





