A água que enche as piscinas de Caldas Novas caiu como chuva há cerca de mil anos. Infiltrou-se por fraturas na Serra de Caldas, desceu a mais de mil metros de profundidade, aqueceu-se pelo calor da Terra e voltou à superfície entre 34°C e 58°C. Esse fenômeno geotérmico, sem qualquer relação com vulcanismo, transformou uma pequena cidade do sul de Goiás na maior estância hidrotermal do mundo.
Cães gritaram na água fervente e revelaram o segredo da serra
Em 1722, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, encontrou fontes de águas fumegantes na vertente da serra enquanto buscava ouro. A Coroa Portuguesa não se interessou pelas águas e as fontes ficaram esquecidas por décadas.
A redescoberta aconteceu em 1777, quando Martinho Coelho de Siqueira se embrenhava pelo mato atrás de caça. Seus cães se lançaram em uma lagoa e gritaram ao sentir a temperatura. Martinho havia encontrado a Lagoa Quente de Pirapitinga, onde a água chega a 57°C no chamado Poço do Ovo. O apelido existe porque moradores cozinham ovos ali há gerações.
Em 1818, o governador de Goiás, Fernando Delgado de Castilho, curou-se de artritismo nas fontes e mandou divulgar as propriedades das águas. No ano seguinte, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire estudou as nascentes, conforme registra o portal da Prefeitura de Caldas Novas.

Por que acreditavam que um vulcão aquecia as águas?
Vista de longe, a Serra de Caldas tem forma oval que lembra uma cratera. Por décadas, moradores e visitantes acreditaram que um vulcão extinto era o responsável pelas águas quentes. A ideia se espalhou em crônicas e no boca a boca, mas estudos geológicos descartaram completamente essa hipótese.
O aquecimento é geotérmico. A água da chuva se infiltra no topo da serra por rachaduras nas rochas, desce a grandes profundidades sob camadas que funcionam como uma tampa natural e esquenta pelo calor interno da Terra. Quando sobe de volta, já está quente o suficiente para abastecer piscinas inteiras.
Caldas Novas está assentada sobre dois grandes reservatórios subterrâneos. O Aquífero Araxá, mais raso, fornece águas entre 32°C e 44°C. O Aquífero Paranoá, mais profundo, ultrapassa 50°C, temperatura que pode causar queimaduras. Hotéis e parques misturam as águas dos dois aquíferos para chegar à temperatura ideal de banho. Segundo o Ministério do Turismo, Caldas Novas e a vizinha Rio Quente formam juntas a maior estância hidrotermal do mundo.

O que fazer além das piscinas termais?
A cidade recebe mais de 2 milhões de visitantes por ano e oferece experiências que vão muito além dos parques aquáticos. Natureza, história e contemplação se misturam em atrações acessíveis a poucos quilômetros do centro:
- Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCAN): criado em 1970, é a mais antiga unidade de conservação de Goiás. Protege 12.315 hectares de Cerrado e abriga a principal área de recarga dos aquíferos termais. Oferece trilhas gratuitas que levam a cachoeiras de água fria, como a da Cascatinha e a do Paredão. Informações no portal da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD).
- Lagoa Quente de Pirapitinga: o local exato da descoberta de 1777, onde as águas brotam entre 32°C e 57°C. O Poço do Ovo continua sendo usado por visitantes para cozinhar alimentos.
- Balneário Municipal: piscinas públicas de águas termais com entrada a preços populares, no local onde ficava o antigo Córrego das Lavras.
- Praça Mestre Orlando: coração do centro, com a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro, construída em 1850, e o calçadão repleto de lojas e bares.
- Jardim Japonês: espaço de contemplação com arquitetura oriental e pavões, ao lado da Casa Goiana, uma das construções mais antigas da cidade.
Quem busca diversão em águas termais em Goiás, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viajando e Passeando, que conta com mais de 25 mil visualizações, onde Diego mostra um guia completo com os 10 melhores parques e atrativos de Caldas Novas e Rio Quente:
A serra que chamou a atenção da NASA
Em junho de 2025, a NASA publicou no Instagram uma imagem de satélite da Serra de Caldas com a legenda curiosa: “What’s that?”. A foto, feita pelo satélite Landsat 9 em maio de 2025, mostrava o platô oval coberto de Cerrado se destacando na paisagem do Brasil Central. A postagem viralizou e acumulou milhares de comentários no perfil da agência, que tem mais de 90 milhões de seguidores.
A agência espacial explicou que o platô se eleva cerca de 300 metros acima do entorno e abriga um ecossistema rico em espécies como a seriema e o pequizeiro. Em 2005, a serra já havia sido incluída entre os sítios geológicos mais importantes do Brasil pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos, vinculada à UNESCO. A imagem e a descrição completa estão disponíveis no site da NASA.
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Como é o clima em Caldas Novas?
A cidade tem clima tropical com duas estações bem definidas: um verão chuvoso e quente, e um inverno seco com noites frescas. As piscinas termais funcionam o ano todo, mas trilhas e cachoeiras do PESCAN ficam mais cheias entre novembro e maio:
Temperaturas aproximadas com base em dados recentes do Climatempo e da Climatologia Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Caldas Novas?
A cidade fica a 170 km de Goiânia pela GO-139 e a 330 km de Brasília pela BR-153. Caldas Novas tem aeroporto com capacidade para aviões de grande porte. Quem vem de avião para Goiânia segue por rodovia em cerca de 2h30. Mais informações turísticas estão disponíveis no site do Governo de Goiás.
Um banho que a Terra prepara há mil anos
Poucas cidades no mundo podem dizer que suas piscinas são aquecidas por um processo geológico de um milênio, reconhecido pela NASA e monitorado por pesquisadores de universidades brasileiras e internacionais. Caldas Novas combina esse fenômeno raro com Cerrado preservado e uma infraestrutura que recebe milhões sem precisar de aquecimento artificial.
Você precisa mergulhar em Caldas Novas e sentir na pele a água que a chuva e a Terra prepararam juntas, muito antes de qualquer um de nós nascer.






