A Mata Atlântica avança morro abaixo até quase tocar a areia, as ondas chegam fortes do oceano e as ruas coloridas guardam o ritmo de uma antiga vila de pescadores. Itacaré, na Costa do Cacau, no sul da Bahia, prosperou no ciclo do chocolate, ficou esquecida quando uma praga devastou as lavouras e renasceu como um dos destinos de ecoturismo mais procurados do Brasil.
Como uma vila isolada por estrada de barro virou referência mundial em surfe?
O isolamento geográfico foi o que preservou o destino. Por décadas, 54 km de estrada de barro mantiveram a vila fora do mapa turístico. A pavimentação da BA-001 só foi concluída em 1998 e é considerada a primeira estrada ecológica do país. Antes do asfalto, apenas pescadores e surfistas aventureiros conheciam o segredo do litoral.
A geografia ajuda a explicar a fama entre os praticantes do esporte. A plataforma continental na região tem apenas 8 milhas de extensão, segundo o portal oficial Itacaré.com, o que faz as ondas do oceano chegarem ao litoral com força e constância raras no litoral baiano. A Praia da Tiririca abriga o primeiro Centro de Treinamento público de surfe da Bahia, segundo a prefeitura municipal, e recebe etapas do circuito brasileiro com premiação de R$ 250 mil.

O reconhecimento internacional que coloca a Costa do Cacau no mapa do mundo
A vila tem chancela ambiental de peso. A Área de Proteção Ambiental Costa de Itacaré/Serra Grande, criada em 1993 pelo governo baiano, protege 62.960 hectares de floresta, praias e manguezais. A região é reconhecida como parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica da UNESCO, segundo a World Surf League (WSL). Em 2017 e 2018, o destino sediou etapas do circuito mundial de qualificação da WSL, valendo 1.000 pontos no ranking internacional.
Em 2024, o município foi cadastrado oficialmente no Mapa do Turismo Brasileiro, conforme anúncio da prefeitura, ferramenta do Ministério do Turismo que define áreas prioritárias para investimento no setor. A gastronomia também ganhou destaque: em 2025, o restaurante Mirantes Marina venceu a segunda edição do Concurso da Moqueca da Bahia, competição que reuniu 13 zonas turísticas do estado.

O que fazer na cidade onde a Mata Atlântica encontra o oceano?
O destino reúne mais de 20 praias entre faixas urbanas e enseadas selvagens acessíveis só por trilha. Confira os principais atrativos:
- Praia da Concha: a mais central, com mar calmo e estrutura de bares e restaurantes, segundo a prefeitura. Tem o farol e o Mirante da Ponta do Xaréu, melhor ponto para o pôr do sol.
- Praia da Tiririca: palco de campeonatos nacionais de surfe, com pista de skate e vista para o mar.
- Prainha: enseada protegida por morros, acessível por trilha de cerca de 30 minutos pela Mata Atlântica.
- Praia de Jeribucaçu: cercada por mata virgem e moldurada por rochas, com rio que deságua na areia.
- Praia de Itacarezinho: faixa de mais de 3 km, ideal para caminhadas longas e observação de tartarugas marinhas entre setembro e março.
- Trilha das Quatro Praias: percurso pela mata que liga Engenhoca, Havaizinho, Camboinha e Itacarezinho em cerca de 1h30.
- Cachoeira do Tijuípe: queda d’água com piscina natural cercada por pedras, com acesso fácil pela BA-001.
- Rafting em Taboquinhas: descida pelas corredeiras do Rio de Contas, a cerca de 30 km do centro.
A culinária mistura tradição baiana, frutos do mar frescos e a herança da terra do cacau. Veja o que pedir nos restaurantes da Rua Pedro Longo, conhecida como Pituba:
- Moqueca de peixe: servida em panela de barro com azeite de dendê e leite de coco, presença obrigatória nos cardápios da orla.
- Bobó de camarão: creme de aipim com camarões graúdos e dendê, clássico da cozinha local.
- Acarajé: bolinho de feijão-fradinho frito no dendê, recheado com vatapá e camarão seco, vendido pelas baianas no centro histórico.
- Caipirinha de cacau: invenção itacareense que combina a polpa fresca do fruto com cachaça e açúcar.
- Chocolate bean-to-bar: fazendas como a Vila Rosa, na estrada para Taboquinhas, oferecem tour da colheita à fabricação, com degustação ao final.
Quem sonha em explorar as praias mais paradisíacas da Bahia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 96 mil visualizações, onde os apresentadores mostram as trilhas e paisagens deslumbrantes de Itacaré:
O legado do cacau que ainda perfuma a Costa baiana
A vila começou como aldeia indígena pataxó e ganhou capela jesuíta dedicada a São Miguel no início do século XVIII. Foi elevada a município em 1732 e só recebeu o nome atual em 1931. No século XIX, o porto local escoava toneladas de cacau para o mercado internacional pelo sistema cabruca, técnica agroflorestal que planta o fruto sob a sombra das árvores nativas e preservou a Mata Atlântica enquanto outras regiões desmatavam.
A praga da vassoura-de-bruxa devastou as lavouras nos anos 1980 e a economia entrou em colapso. A floresta avançou de volta sobre os morros, e os surfistas chegaram. Hoje, fazendas centenárias se reinventaram em chocolate artesanal premiado, com tours que percorrem do plantio à barra. A região concentra parte da maior biodiversidade do mundo por metro quadrado, segundo a World Surf League.
Quando o clima de Itacaré favorece cada tipo de passeio?
O município tem clima tropical úmido, com temperaturas altas o ano inteiro e mar quente em qualquer estação. Não existe estação completamente seca, mas a intensidade das chuvas varia ao longo do ano. Veja como cada época se comporta:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
A primavera concentra a temporada de tartarugas marinhas, que desovam entre setembro e março nas praias selvagens. O inverno traz ondas mais consistentes para o surfe e é a melhor época para os passeios de observação de baleias-jubarte na costa baiana. Para curtir as praias com menos chuva, novembro e dezembro costumam ser os meses mais estáveis.
Como chegar à vila do sul da Bahia
O acesso mais prático é por Ilhéus, que fica a cerca de 70 km do destino. O Aeroporto Jorge Amado recebe voos diretos de capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Rio de Janeiro pelas companhias Gol, Latam e Azul. A viagem entre as duas cidades pela BA-001, uma das rodovias litorâneas mais cênicas do Nordeste, leva cerca de 1h30 de carro.
De Salvador, o trajeto rodoviário ultrapassa 450 km e leva em torno de 6 horas. Há linhas regulares de ônibus saindo da capital baiana e de outras cidades do estado. Quem prefere fazer o percurso de carro pode atravessar de balsa pela ilha de Itaparica, encurtando a distância em cerca de 140 km.
Conheça a vila onde a floresta encontra o mar
Poucos destinos brasileiros conseguem unir mais de 20 praias selvagens, ondas de nível internacional, cachoeiras na Mata Atlântica e uma cena gastronômica premiada em um só lugar. A vila do cacau e do surfe entrega o que poucos lugares no Brasil ainda preservam: floresta colada na areia e mar morno o ano inteiro.
Você precisa cruzar a serra até Itacaré e entender por que surfistas, chefs e biólogos voltam sempre ao mesmo pedaço de litoral no sul baiano.





