A poucos quilômetros da capital paulista existe uma cidade onde o esgoto não corre a céu aberto, o rio voltou a ter vida e o cheiro nas ruas é o das uvas que pintam de rosa a paisagem rural. Jundiaí, no interior de São Paulo, é uma das poucas cidades brasileiras que trata 100% dos esgotos coletados e ainda recebe efluentes de outras 15 cidades vizinhas.
Como uma cidade do interior virou referência nacional em saneamento?
Jundiaí coleta esgoto em quase toda a sua malha urbana e trata 100% do volume captado, índice raríssimo no Brasil. Segundo a Departamento de Água e Esgoto (DAE) Jundiaí, 99,65% da população é atendida com rede de água e 98,81% com rede de esgoto, com 100% do que é coletado passando por tratamento antes de retornar ao rio.
O resultado é visível na cidade. Os bairros não convivem com galerias entupidas, valas a céu aberto ou aquele odor característico que ainda assombra grande parte do país. A trajetória começou em 1984, com a criação do Comitê de Estudos e Recuperação do rio Jundiaí, e ganhou força em 1998, quando a Estação de Tratamento de Esgoto de Jundiaí (ETEJ) entrou em operação.

O detalhe que poucas cidades brasileiras conseguem replicar
A capacidade da estação local é tão grande que sobra para ajudar a vizinhança. Antes de entrar nos números, vale entender o tamanho dessa operação:
- Capacidade ampliada: a ETEJ trata uma carga equivalente a uma população de 1 milhão de habitantes, mesmo a cidade tendo cerca de 460 mil moradores.
- Apoio regional: efluentes de mais de 15 prefeituras chegam por caminhão-tanque para serem tratados em Jundiaí antes de voltarem aos rios.
- Lodo aproveitado: o resíduo do tratamento vira composto registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e é usado em plantios de cana e eucalipto.
- Rio recuperado: o rio Jundiaí saiu da Classe IV para a Classe III em 2017, marco raro na gestão hídrica paulista.
Por que Jundiaí aparece sempre nos rankings de qualidade de vida?
O saneamento é só o ponto de partida. No Índice de Progresso Social (IPS) 2025, calculado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) com base em 57 indicadores, Jundiaí aparece como a 3ª melhor cidade do Brasil entre os 5.570 municípios avaliados, com nota 70,70.
O município também figura entre os destaques do estudo Desafios da Gestão Municipal, da Macroplan, e foi classificado pela Prefeitura de Jundiaí como 11º colocado no Ranking do Saneamento 2024 do Instituto Trata Brasil. A combinação de saúde universalizada, parques urbanos e investimento contínuo em infraestrutura sustenta essa posição há mais de uma década.

A cidade que protege uma das maiores reservas de Mata Atlântica do estado
A poucos minutos do centro, a paisagem urbana dá lugar à Serra do Japi, cadeia montanhosa que atravessa Jundiaí, Cabreúva, Pirapora do Bom Jesus e Cajamar. São 354 km² de mata fechada, com ponto culminante a 1.250 metros de altitude e biodiversidade que rendeu o apelido de “castelo de águas” entre naturalistas europeus.
Em 1992, a Fundação Serra do Japi registrou o reconhecimento da serra como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO, sendo a maior dentre os 72 fragmentos do bioma. As visitas monitoradas acontecem nos finais de semana e feriados, organizadas pela Prefeitura, e revelam trilhas, mirantes e uma fauna que inclui jaguatiricas, bugios e mais de 650 espécies de borboletas.
O que fazer em Jundiaí além de admirar a Mata Atlântica?
A cidade combina vida urbana, agricultura familiar e gastronomia italiana em poucos quilômetros. Algumas atrações são paradas obrigatórias para quem chega à Terra da Uva:
- Parque da Cidade: maior área de lazer urbana do município, com pista de corrida, lago e centro náutico. É o coração do apelido Cidade Saudável.
- Rota do Vinho: passeio entre adegas familiares no Caxambu e no Traviú, com degustação de vinhos da Niagara Rosada. Roteiros oficiais aqui.
- Catedral Nossa Senhora do Desterro: cartão-postal do centro, cuja construção começou em 1651, com vitrais e arquitetura colonial.
- Festa da Uva e Expo Vinhos: maior festival agrícola do estado, realizado desde 1934 no Parque Comendador Antônio Carbonari. Programação oficial.
- Trem Republicano: passeio histórico que liga Jundiaí a Campinas em vagões restaurados de épocas distintas.
Quer saber o que fazer em Jundiaí (SP) em um dia, incluindo as melhores vinícolas? Vai curtir esse vídeo:
A uva que só existe em Jundiaí desde 1933
A história da cidade está costurada à da videira. Em 1933, no Sítio Retentem, no bairro Traviú, o viticultor Aurélio Franzin notou cachos avermelhados em pés de Niagara Branca, em uma propriedade de Antônio Carbonari. A cor era resultado de uma mutação genética espontânea, fenômeno chamado de mutação somática.
Nascia ali a Uva Niagara Rosada, variedade que existe somente nesse pedaço do interior paulista. No ano seguinte, a primeira Festa da Uva levou mais de 100 mil visitantes ao centro. Em 2023, a fruta foi reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) com Indicação Geográfica, sendo a primeira uva paulista a receber o selo. Hoje, cerca de 400 produtores cultivam mais de 1,1 mil hectares e movimentam R$ 150 milhões por ano com a fruta.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio na cidade?
Jundiaí tem clima tropical de altitude, com verões quentes e chuvosos e invernos amenos e secos. A altitude próxima de 760 metros mantém as noites mais agradáveis que na capital. Veja como cada estação se comporta:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade saudável?
Jundiaí fica a 50 km da capital paulista pela Rodovia Anhanguera (SP-330) ou pela Rodovia dos Bandeirantes (SP-348), ambas em ótimo estado, com viagem média de 1h de carro. A cidade está a 35 km do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, principal acesso aéreo. Para quem dispensa o carro, a Linha 7-Rubi da CPTM conecta Jundiaí à Estação da Luz em cerca de 1h30.
Vale a viagem até a Terra da Uva?
A cidade entrega um pacote raro no Brasil: saneamento universalizado, qualidade de vida acima da média, herança italiana viva e uma das maiores reservas da biosfera do estado a poucos minutos do centro. É o tipo de lugar onde o cuidado com a infraestrutura aparece nos detalhes, do rio limpo ao perfume das uvas pelas estradas rurais.
Você precisa visitar Jundiaí e sentir como uma cidade brasileira pode crescer sem abrir mão da água limpa, da mata em pé e do gosto da uva colhida no pé.




