Quem coloca os pés pela primeira vez na areia da Vila do Abraão se depara com trilhas que foram abertas pelos índios tupinambás, uma Mata Atlântica que ainda recobre 90% de todo o território e um mar que banha mais de cem praias onde não se ouve o ronco de um único motor. Ilha Grande, a maior ilha de todo o estado do Rio de Janeiro, carrega nas costas uma história que vai dos piratas holandeses aos presos políticos da ditadura militar, e tudo isso está emoldurado por montanhas que facilmente ultrapassam os mil metros de altitude.
O caminho que vai do esconderijo de piratas ao título de Patrimônio da Humanidade
Os índios da tribo tamoio chamavam a ilha de Ipaum Guaçu e foram eles os responsáveis por rasgar as trilhas que os visitantes ainda hoje percorrem. Durante os séculos XVI a XVIII, piratas que vinham da França, da Holanda e da Inglaterra faziam uso daquelas enseadas para reabastecer seus navios com água doce e frutas. Quando a pirataria deu as caras, foram os traficantes de pessoas escravizadas que transformaram a ilha em um ponto de desembarque que operava na mais completa clandestinidade.

Em 1903, o governo instalou por ali a Colônia Penal de Dois Rios, que permaneceria em funcionamento por mais de noventa anos. O escritor Graciliano Ramos foi um dos presos políticos que passaram uma temporada confinado naquelas celas e mais tarde registraria tudo o que viveu nas páginas de Memórias do Cárcere. O presídio foi abaixo em 1994, por ordem do então governador Leonel Brizola, e o turismo ocupou o lugar que antes era das grades. Em julho de 2019, a UNESCO reconheceu Paraty e Ilha Grande como Patrimônio Mundial da Humanidade, o primeiro sítio misto (que é ao mesmo tempo cultural e natural) do Brasil, conforme atesta o IPHAN.

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Quais praias visitar em Ilha Grande?
São 106 praias distribuídas em 193 km² de território, com águas que variam do azul cristalino das enseadas protegidas ao mar aberto com ondas para surf. A maioria é acessada por trilha ou barco, o que mantém a paisagem praticamente intocada.
- Lopes Mendes: 3 km de areia branca e fina com mar transparente. Eleita entre as praias mais bonitas do mundo por publicações internacionais. Acesso por barco até a Praia do Pouso + 20 minutos de trilha.
- Lagoa Azul: piscina natural entre rochas com águas cristalinas, ideal para mergulho com snorkel. Parada obrigatória nos passeios de escuna.
- Praia de Dois Rios: vizinha das ruínas do antigo presídio, acessada por trilha de 8 km a partir do Abraão. Abriga o Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável (CEADS) da UERJ.
- Praia do Aventureiro: coqueiro torto sobre o mar que se tornou cartão-postal da ilha. Acesso por barco ou trilha longa a partir de Provetá.
- Lagoa Verde: enseada de águas calmas e esverdeadas, protegida por costões rochosos. Boa para mergulho e flutuação.
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As trilhas que cortam a mata atlântica de ponta a ponta da ilha
Ilha Grande possui uma malha de trilhas que são numeradas (vão de T1 a T16) e que cortam a Mata Atlântica para conectar praias, mirantes e as vilas de pescadores caiçaras. Esses caminhos foram originalmente abertos pelos indígenas e se mantiveram preservados ao longo de todos esses séculos. A ilha está dentro dos limites do Parque Estadual da Ilha Grande, cuja administração cabe ao Instituto Estadual do Ambiente.
A trilha T10, que faz a ligação entre o Abraão e a Praia do Pouso (são 6 quilômetros que se percorrem em umas 3 horas), é a mais popular de todas e ainda passa por praias como Palmas e Mangue no caminho que leva até Lopes Mendes. Para quem está atrás de um desafio maior, a subida até o Pico do Papagaio (que tem 982 metros de altitude) toma cerca de 4 horas e entrega uma visão de 360 graus que alcança a baía de Angra dos Reis e toda a costa verde fluminense.

Quando visitar a maior ilha do estado do Rio?
O clima tropical garante calor o ano inteiro, mas a chuva concentra-se no verão. O inverno seco (junho a agosto) oferece as melhores condições de visibilidade para mergulho e céu aberto para trilhas. Para quem quer evitar aglomeração, abril e maio são meses ideais, conforme dados do Portal de Turismo de Angra dos Reis.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar. Consulte a previsão antes de viajar.
Como chegar à ilha sem carro nem aeroporto?
Não existem carros nem estradas asfaltadas em Ilha Grande. O acesso é exclusivamente por barco, a partir de três pontos no continente: Mangaratiba (barcas diárias da CCR, cerca de 1h30), Conceição de Jacareí (lanchas rápidas, 20 minutos) e o cais de Angra dos Reis (lanchas e escunas, 40 minutos a 1h30). A cidade fica a 155 km do Rio de Janeiro pela BR-101 (Rio-Santos), cerca de 2h30 de carro.
Conheça a ilha onde a mata derrotou o concreto
Ilha Grande é um daqueles raros pedaços do litoral brasileiro onde foi a natureza que acabou retomando o espaço que a história um dia tentou ocupar à força. As grades do antigo presídio se transformaram em ruínas que a vegetação agora cobre de verde, as trilhas que os indígenas abriram seguem guiando os passos de quem chega, e o selo de proteção da UNESCO cuida do que ainda resta de Mata Atlântica primária em todo o estado do Rio.
Você precisa cruzar a baía de Angra dos Reis e sentir a areia do Abraão sob os pés para conseguir compreender por que essa ilha que não tem carros, que não conhece a pressa e que deixa o sinal de celular para trás em boa parte de suas praias continua a ser um dos destinos mais impressionantes de todo o Brasil.






