Na maior ilha do Rio de Janeiro, a Vila do Abraão recebe quem desembarca com o som dos barcos no cais e o cheiro de mar misturado à Mata Atlântica. São cerca de 5 mil moradores, 106 praias ao redor e nenhum carro particular circulando pelas ruas de areia.
Por que a Vila do Abraão não tem carros?
A proibição de automóveis particulares é uma regra do Parque Estadual da Ilha Grande, que protege mais de 60% do território da ilha. Só circulam veículos de serviço público, como ambulâncias e coleta de lixo.
Essa escolha preservou o ritmo do vilarejo. Crianças correm pelas ruelas, bicicletas substituem motos e todo deslocamento entre praias é feito a pé, de barco ou por trilha. O resultado é um dos poucos povoados litorâneos do país onde o silêncio ainda é parte da paisagem.

Um título inédito no Brasil e na América Latina
Em julho de 2019, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) reconheceu Paraty e Ilha Grande como Patrimônio Mundial Misto, a primeira inscrição brasileira nessa categoria, que une cultura viva e natureza.
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a área soma quase 149 mil hectares e preserva cerca de 85% da cobertura vegetal nativa, formando o segundo maior remanescente florestal da Mata Atlântica. É também o primeiro sítio misto da América Latina com cultura ainda ativa, diferente de Machu Picchu e outros locais do continente.

Quais ruínas históricas resistem ao lado da vila?
Atrás da Praia Preta, a apenas uma hora de caminhada leve da Vila do Abraão, ficam as Ruínas do Lazareto e o antigo Aqueduto. Os dois sítios compõem o chamado Circuito do Abraão, a trilha T1 do parque.
O Lazareto foi erguido em 1871 por ordem de Dom Pedro II para receber em quarentena imigrantes europeus suspeitos de doenças como a cólera. Desativado em 1910, virou presídio político na década de 1930 e foi demolido em 1954. Já o Aqueduto, de 1893, tem 125 metros de extensão e 30 metros de altura, erguido em pedra e óleo de baleia para abastecer o hospital de quarentena.
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O que fazer na Ilha Grande além das ruínas?
A partir do cais da vila saem barcos diários para as praias mais famosas da ilha, além de trilhas que cortam a Mata Atlântica. Algumas atrações são imperdíveis:
- Praia de Lopes Mendes: quase 3 km de areia branca e águas transparentes, citada por veículos como o jornal espanhol El País e o Guia Michelin entre as mais bonitas do mundo.
- Lagoa Azul: piscina natural entre ilhotas, com visibilidade de vários metros, parada clássica dos passeios de escuna.
- Pico do Papagaio: 982 metros de altitude e vista panorâmica que alcança de Angra dos Reis à Restinga da Marambaia. Trilha difícil, de 3 a 5 horas.
- Praia do Aventureiro: famosa pelo coqueiro deitado sobre a areia, com acesso controlado para preservar o local.
- Cachoeira da Feiticeira: queda d água mais visitada da ilha, acessada pela trilha T2 a partir do Aqueduto.
A culinária caiçara é outro capítulo da experiência. Nos restaurantes espalhados pela Rua da Praia, os pratos chegam quase sempre com peixe fresco e influência da pesca artesanal:
- Moqueca de peixe: preparada com o pescado do dia, leite de coco e dendê, servida com pirão e arroz branco.
- Camarão na moranga: clássico da cozinha litorânea fluminense, com camarões frescos da região.
- Peixe assado na folha de bananeira: técnica caiçara que realça o sabor do pescado e perfuma o prato.
- Bolinho de aipim com camarão: petisco tradicional, comum nos quiosques de praia.
Quem busca tranquilidade e um roteiro completo pela Ilha Grande, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Cadu e Maria PELO MUNDO, onde Cadu e Maria exploram a Vila do Abraão e a curiosa Praia Preta no Rio de Janeiro:
Qual é a melhor época para visitar a Vila do Abraão?
O clima é quente o ano inteiro, mas a estação seca é mais estável para trilhas e passeios de barco. O verão tem mais chuva, porém águas mais quentes para mergulho.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Vila do Abraão
Segundo a Prefeitura de Angra dos Reis, a Ilha Grande fica a cerca de 150 km do Rio de Janeiro e só pode ser acessada por via marítima. Os barcos partem de três pontos do continente: Angra dos Reis, Conceição de Jacareí e Mangaratiba.
A rota mais rápida é por Conceição de Jacareí, com fast boats que chegam em cerca de 20 minutos ao cais da Vila do Abraão. Automóveis precisam ficar em estacionamentos pagos no continente.
Vale a pena conhecer esse refúgio sem carros
Poucos lugares combinam título da UNESCO, Mata Atlântica preservada e o luxo raro de caminhar sem ouvir motor de automóvel. A Vila do Abraão guarda tudo isso em uma ilha onde 106 praias esperam o próximo visitante.
Você precisa atravessar a baía e conhecer a Vila do Abraão para entender por que esse pedaço do litoral fluminense parece viver em outro tempo.





